sábado, 30 de maio de 2009

«Escrever» por convite

Recentemente, tanto o Jornal de Letras (JL) como o Jornal de Notícias (JN) dedicaram artigos a certos autores portugueses de best sellers, oriundos sobretudo do mundo da televisão.

Jornalista do JN particularmente atento às questões literárias, Sérgio Almeida solicitou-me um depoimento sobre o assunto, do qual foram publicados excertos na edição de 24 de Maio, juntamente com testemunhos de autores e do crítico António Guerreiro. O resultado é um texto merecedor de releitura (v. Sérgio Almeida, «Escritores por convite», JN, 24-05-2009, disponível em  http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1242189). Sérgio referia-se a «figuras públicas que, a convite de editoras, publicam romances que, por norma, ocupam os primeiros lugares das tabelas».

As perguntas que se seguem são, pois, do jornalista e, com a devida vénia ao seu autor, reproduzo-as, pela pertinência e não só. Reproduzo também as minhas respostas, com alguns retoques.

P – Como avalia este fenómeno? É um sinal da superficialização crescente no mundo da edição?

R – Creio que sim, uma «superficialização» em parte ditada pela razão comercial – que, nos dias que correm, tende a sobrepor-se a tudo; em parte decorrente da concentração da edição (aquela que comercialmente conta) em três ou quatro grandes grupos editoriais; e, por outra parte, motivada pela mediatização crescente da sociedade (daí o recurso às «figuras públicas» que, em boa verdade, só o são para gente que se deixa submergir no universo mediático, sobretudo o televisivo, convencida de que o mundo a isso se reduz, em geral pessoas menos letradas ou até menos alfabetizadas). No fundo, nada que não se esperasse, tendo em conta a evolução recente do mundo da edição em Portugal e noutros países desenvolvidos. Aliás cadeias como a Bertrand e certas grandes superfícies é sobretudo para isso que estão disponíveis ou preparadas. Ou seja, para aqueles livros que os editores pagam para estarem expostos, ou para figurarem nos pseudo-tops ou então nas escolhas de Natal, do Dia da Mãe, de Férias, etc.

P – Acredita que este segmento não tem nada que ver com a literatura propriamente dita?

R – Sim, acredito. Basta olhar para a história da literatura. Sem atingir as proporções e certas características que o fenómeno hoje tem, houve no passado casos que podemos considerar semelhantes ou próximos. Estão completamente esquecidos e relegados para o cemitério dos livros e da subliteratura. Tal como os de hoje, nada acrescentaram à literatura propriamente dita.

Isto não significa que não seja necessário ter um talento específico para a escrita de best sellers, ainda que rapidamente perecíveis, talento esse que merece até elogio. E, se todos o possuíssem, muitos mais se dedicariam a escrever este tipo de livros, pois proporcionam boas rendas e isso é importante para muita gente. Mas, como se vê, já não estamos a falar de literatura, mas sim de dinheiro – que é o rumo lógico de tudo isto.

P – A visibilidade de que estes livros gozam é injusta tanto para autores estreantes como para os consagrados, que não dispõem dos mesmos mecanismos de promoção?

R – Creio que não, porque hoje não há nada mais fácil do que qualquer um publicar um livro (refiro-me aos estreantes) e até crianças vêem os seus «livros» editados. Quanto aos consagrados, talvez seja um pouco injusto, mas creio que a maioria despreza as estratégias de promoção de que são objecto os best sellers – pois maculam-lhes a imagem – e quando embarcam em algo parecido é porque tem de ser e com grande sacrifício pessoal. Podem é ver-se um tanto prejudicados na calendarização dos planos editoriais. Por outro lado, alguém tem de vender muito para que pelo menos as editoras mais sérias que também publicam esses best sellers disponham de dinheiro suficiente para editar os que menos vendem.

P – Apesar de tudo, não podemos ver nesta tendência uma maior democratização na área da edição?

R – Não vejo a coisa nesses termos. Só se for no sentido que antes referi: existirem figuras que, ao venderem muito, permitem às editoras sérias dispor de capital para editar os que escoam menos e são claramente melhores, ou que são, pelo menos, escritores a sério.

As figuras públicas, por seu lado, não necessitam de democratização nenhuma, porque em geral pertencem já a um grupo social relativamente favorecido. Não lutam para editar os livros; são as editoras que lhos encomendam.

P – Julga que este fenómeno é passageiro ou irá acentuar-se?

R – Creio que irá acentuar-se. Aliás, certos industriais e comerciantes da edição vivem apenas para isso e em função disso. Para eles, é um negócio como outro qualquer. É gente que não encara a edição como produção de cultura, mas apenas como criação de mais-valias.

P – Ao venderem tantos milhares de exemplares, os títulos destas figuras públicas não estarão a criar leitores?

R – Depende do conceito de leitura de que estamos a falar. É que há a leitura literária, de fruição, e as outras – a leitura de simples entretenimento e a utilitária, por exemplo (científica, informativa, com fins pragmáticos, etc.).

Do ponto de vista da formação de leitores literários, os best sellers de que estamos a falar (e que não são Saramagos nem Lobos Antunes) pouco ou nada contribuem para a formação de tais leitores e até a prejudicam.

Se falarmos de outros tipos de leitura, menos exigente, o best seller talvez dê algum contributo para formar leitores – mas, seguramente, leitores menores, pouco críticos e incapazes de enfrentar um texto exigente, ou seja, um texto capaz de opor alguma resistência (no sentido produtivo e positivo do termo) ao leitor e capaz de o interpelar, propondo-lhe desafios à inteligência, à sensibilidade e ao seu conhecimento da língua.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)  

domingo, 24 de maio de 2009

A pintura de Roberto Machado – as cores do desejo

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue. Com ela

incendiarei a noite.

 

Herberto Helder

 

É como se dissesse, com Aragon, «l’avenir de l’homme, c’est la femme». Perseguir o feminino, os seus símbolos. Ramalhetes e árvores, flores e frutos. O feminino e seu enigma. E também o horizonte, oculto para nós, desses olhares perdidos no longe, abraçando a hora por vir – num qualquer ponto atrás e à esquerda de quem vê.

Como em Modigliani, há instantes em que a alegria é possível. Ruy Belo: «Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude / no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes / onde a água corria pelos vagarosos caminhos desse tempo»… Há pois um lado solar nas figuras, nos cenários. Um lugar meridional onde vibram por vezes os vermelhos, amarelos e azuis. E onde o mar espreita ou se deixa adivinhar.

E há outro território, nocturno e lunar. A tábua, onde antes as tintas se (con)fundiram, converte-se em suporte. E a mão deixa-se conduzir pelas formas do acaso inscritas na madeira. Deslindando corpos, rostos, outras formas. Pintura sobre «pintura». Um quase palimpsesto.

Os corpos, sim. Aqui e além, em sua desamparada nudez. Corpos que olham, se olham, se perscrutam. Que esperam? O anjo de Chagall? Dir-se-ia que interrogam o tempo. Que buscam estes olhos-amêndoa de mulher? A alegria sonhada?

Uma voz podia perguntar: «De que cor é o desejo?» E uma outra podia responder: «Vermelho como um país recém-criado.»

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

 

domingo, 26 de abril de 2009

Aos Xutos e aos Pontapés

A comemorarem 30 anos de carreira, não foi a Festa de Aniversário que trouxe os Xutos & Pontapés para as páginas dos jornais e para as controvérsias entusiasticamente debatidas em blogs. A polémica suscitada pela letra da música «Sem eira nem beira» (2009), da autoria de Tim e cantada por Kalu, incluída no mais recente álbum homónimo da banda portuguesa propagou-se, como um rastilho curto, à opinião pública, suscitando comentários de diferentes partidos e até de figuras relevantes do movimento sindical. E, todavia, o carácter interventivo da letra não é uma novidade na filosofia do grupo que, nos anos 80 do século XX, denunciava o mal-estar e o ambiente opressivo da sociedade portuguesa, exprimindo desejos de fuga em textos como «Barcos Gregos» ou «N’América» e apelando a diferentes formas de resistência. O desemprego, o desajuste das novas gerações, a frustração juvenil, a constatação de uma realidade perversa e uma certa franja social mais ou menos marginalizada sobem de tom com o sucesso do grupo nos finais da década de 80 e ao longo dos anos 90. Ouçam-se, entre outras, canções como «Gritos Mudos», «Esta cidade», «Chuva Dissolvente» ou mesmo a versão parodicamente subversiva de «A minha casinha». O motivo do inferno, o recurso ao calão, a adjectivação expressiva, as apóstrofes e vocativos, a reiteração de ideias-chave com recurso a estruturas paralelísticas são algumas das estratégias usadas para sublinhar essa visão crítica e denunciadora que perpassa boa parte das letras do grupo.

As críticas cantadas e/ou gritadas em concertos por um público cada vez mais vasto atingem as escolas e a educação («Jogo do Empurra»), a economia e a política («Estupidez»), a exploração dos mais pobres («Dia de S. Receber»), o desemprego e a corrupção. Em 1992, no álbum Dizer não de vez ecoam muitas das críticas da oposição ao governo maioritário da altura, sublinhadas, um ano mais tarde, com a edição de Direito ao deserto.

Agora, em «Sem eira nem beira», o grupo regressa a uma certa tendência que nunca abandonou verdadeiramente. As semelhanças com a realidade portuguesa e com o actual contexto político, social, económico, aliadas a um certo despudor linguístico que sempre acompanhou o grupo sugerem afinidades que não podem ser lidas apenas como coincidências. A arte e a música em particular, sempre se pautaram pela capacidade de, se não mudar o mundo, pelo menos acordar as consciências. As implicações sociais do rock and roll, decorrentes da sua popularidade, fazem parte do código genético de um género e, neste caso, de uma banda que, passadas algumas décadas, ainda se mostram, surdos às censuras, fiéis às suas origens e ao público.

 

Sem Eira Nem Beira  |  Xutos & Pontapés

 

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um «passou bem»
*
Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar, despedir
Ainda se ficam a rir
*
Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer 
Isto nunca vai mudar
Conseguir encontrar mais força para lutar
*
Mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar
*
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer
*
É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir
*
Ainda espero ver alguém 
Assumir que já andou 
A roubar, enganar 
O povo que acreditou
*
Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar
*
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a f***r
*
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão
*
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a...
*
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção

 

 

Ana Margarida Ramos

 Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

 

sexta-feira, 17 de abril de 2009

23 de Abril: Dia Mundial do Livro – 25 de Abril: Dia da Liberdade | Dos Livros e da Liberdade

Abril traz consigo o cheiro dos livros. E também o forte odor da liberdade. Um momento para meditar sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura pode proporcionar.

Quem não renuncia a essa experiência sabe que ler, em primeira instância, é entrar numa conversa. E esse diálogo com a voz de um autor – que pode ser também um tête à tête com o/a protagonista de uma narrativa – constitui, por si só, uma vivência do confronto de ideias e experiências, um lugar onde, pelo mecanismo da projecção e do «choque de identificação» 1, se compreende, entre outras coisas, o sofrimento do outro. E onde se ensaia a aceitação activa da diversidade cultural e dos modos de estar no mundo – o que sobretudo acontece quando o livro que lemos provém de uma cultura estranha à nossa. Além de permitir esta aprendizagem da comunicação entre os homens (que é também aprendizagem da língua), a leitura oferece, a quem lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e construir uma identidade pessoal – que passa também pela noção de pertença a uma comunidade e a um povo. Indo mais longe, «sentimos perfeitamente», escreveu Proust 2, «que a nossa sabedoria começa onde a do autor acaba, e quereríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. E estes desejos, ele só pode despertá-los em nós fazendo-nos contemplar a beleza suprema à qual o último esforço da sua arte lhe permitiu chegar. (…) O que é o termo da sua sabedoria aparece-nos apenas como o começo da nossa.»

É por tudo isto que nunca os regimes ditatoriais ou obscurantistas se empenharam em promover seriamente a leitura, preferindo, sem o confessar, o analfabetismo e a iliteracia, que mergulham o homem na ignorância das servidões a que está sujeito. Daí também que – não raro em nome da «saúde» económica (leia-se: a do capitalismo) – as políticas de direita não invistam o que deviam na cultura, se «desinteressem» muitas vezes da construção de bibliotecas públicas e escolares, e propagandeiem uma restritiva noção de cultura como «património», mera galeria de glórias passadas. Sem que com isto o próprio património se veja salvaguardado…

Mas ler (poesia, narrativa, drama…) é ainda uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo também àquele que lê um domínio progressivo da linguagem verbal em dois planos: o da recepção e o da produção. Essa linguagem que não serve apenas para comunicar e intervir socialmente (analisar de modo crítico a realidade, reclamar, propor). Ela serve também para criar objectos textuais, eventualmente estéticos, e aceder ao jogo das palavras, o jogo irrenunciável do literário. Recorde-se, a este propósito, a radical interrogação de Boris Vian 3: «Pergunto-me se não estarei a começar a jogar com as palavras. E se as palavras fossem feitas para isso?»

2 de Abril: Dia Internacional do Livro Infantil. 23 de Abril: Dia Mundial do Livro. 25 de Abril: Dia da Liberdade. Datas para recordar alguns dos que nos deixaram livros inesquecíveis para a infância e a juventude. Livros que comovem ou divertem e dão que pensar. Como Alves Redol (Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos; A Vida Mágica da Sementinha), Sidónio Muralha (Bichos Bichinhos e Bicharocos; Valéria e a Vida; Catarina de Todos Nós; Voa Pássaro Voa), Alice Gomes (Bichinho Poeta), José Gomes Ferreira (As Aventuras de João Sem Medo), Mário Castrim (Histórias com Juízo; Estas São as Letras; O Cavalo do Lenço Amarelo É Perigoso; A Caminho de Fátima) e tantos outros. Datas para homenagear ainda a memória dos que, nos dias negros do fascismo, inventaram as palavras certas que outros leram. E lhes incutiram a coragem de resistir à ignomínia. Como as de Torga, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Cesariny, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, José Cardoso Pires, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos…

Meditemos nas três datas, pensemos no livro. Sem esquecer que Portugal ainda é dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante de uma televisão que aliena, estupidifica e nos envergonha. Felipe Pérez Roque afirmou, em 16 de Março de 2005, no 61.º Período de Sessões da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra: «Não há liberdade possível que não assente na fruição da educação e da cultura. A ignorância é a pesada grilheta que esmaga aos pobres. Sermos cultos é o único modo de sermos livres!» 4. Saibamos então reclamar para todos, e em especial para os mais jovens, a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos. Pois, como lembra a escritora grega Angeliki Varella 5, «a ‘luz’ dos livros nunca se apaga».

O direito aos livros e a bibliotecas, o direito à leitura pública, livre e gratuita, estão hoje, mais do que nunca, na ordem do dia dos que lutam por um mundo diferente.

Notas

1 «A leitura de um livro apenas podia suscitar este “choque de identificação” porque algo em mim se tinha dado, para mim imperceptível, que me tornara predisposto e mesmo necessitado em relação à mensagem. Tinha-se estado a operar qualquer processo interior, algo de vago, que subitamente adquiria forma e conteúdo concretos através da leitura de um livro.» (Bruno Bettelheim, Viena de Freud e Outros Ensaios. Venda Nova: Bertrand, 1991, p. 152.)

2 Sobre a Leitura. Lisboa: Vega, 19982 (1ª ed., 1905), p. 46.

3 Les Bâtisseurs d’Empire. Paris: Dossier du Collège de Pataphysique (1ª ed., 1959), cit. em http://borisvian.free.fr/sommaire.php?to=bibliofile.php?page=15, 12/4/2004, p. 387.

4 V. http://resistir.info/cuba/perez_roque_16mar05.html, 26/5/2005.

5 A Luz dos Livros. Lisboa: APPLIJ – Secção Portuguesa do IBBY, 2004.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 5 de abril de 2009

Geografia do Medo, de Francisco Duarte Mangas

Geografia do Medo (Editorial Teorema, 1997; col. «Estórias», Prémio Eixo Atlântico de Narrativa Galaico-portuguesa), de Francisco Duarte Mangas, é um romance pródigo em informações paratextuais que sugerem numerosas pistas de leitura. Um texto de contracapa, por exemplo, dá-nos a conhecer duas das principais personagens e indicia, ao mesmo tempo, uma articulação das sequências narrativas sujeita ao esquema da alternância: Manuel, «um velho caçador persegue, desde o amanhecer, um rasto e uma dúvida. Em terra estranha [Angola] o filho faz a última incursão na densa mata, preso à memória cinegética. Num dia apenas, os dois homens e outras vozes andarilhas percorrem a Geografia do Medo.» Quase a fechar o livro e num curioso jogo de vozes, dirá de si mesmo o filho (Sílvio): «A mina anti-pessoal foi-me destinada pelo narrador. (...) O narrador (...) cala as personagens que lhe convém.» (p. 165). Estranha personagem esta, capaz de censurar quem lhe dá espessura e voz; e estranho narrador também, ele próprio um predador de personagens, às quais porventura instila o medo antes de as rasurar de cena. Ora as figuras humanas de Geografia do Medo tanto surgem como caçadores de animais e de homens, como são, eles próprios, caçados por outros homens, pelo anjo da morte, em certa medida por Deus e, enquanto personagens de ficção, pelo narrador.

Estamos perante um registo denso de experiências vividas por um conjunto de figuras com fortíssima ligação à terra: Minho, Agra, aldeia, serra, campos habitados por «espécies cinegéticas». Se a geografia, como se lê nos dicionários, é em parte o estudo da distribuição à superfície do globo dos fenómenos físicos, biológicos e humanos, podemos dizer que o texto de Francisco Duarte Mangas é um estudo romanesco da distribuição territorial do medo – na África de Sílvio e, bem assim, na Agra de Manuel, de Teotónio, dos Silveiras, de Padre Joaquim e de João da Ameã. Fazendo jus ao título, o texto não deixará de interpretar as causas dessa distribuição, de analisar e correlacionar diferentes faces do medo.

Retrato social e psicológico de um microcosmos – Agra, as terras circundantes e as suas gentes – num tempo que medeia entre a década de 10 e os anos 70 do século XX (com alusões em flash forward ao 25 de Abril), Geografia do Medo apresenta-se também como retrato parcelar do país ao longo de mais de cinquenta anos, através de um percurso guiado pela memória de Manuel e de Sílvio. Ela conduz-nos do tempo das ofensivas monárquicas contra a República até à década de 70, passando pelo salazarismo, pelas ínvias e trágicas relações entre o norte de um Portugal aperreado pela ditadura e uma Galiza sangrando da Guerra Civil de Espanha. E embora o grosso dos acontecimentos evocados por Manuel se situe nos pesados anos 30 e 40, a Guerra Colonial surge, em todo o seu absurdo e horror, como outro dos cenários privilegiados do medo.

A perspectiva do narrador não raro se confunde com o olhar de Manuel e com o de Sílvio, já que o espaço psicológico e o discurso pertencem quase por inteiro a estas duas personagens, elas próprias convertidas, assim, em vozes que contam, monologam, mentalmente conversam uma com a outra à distância (uma em Agra, outra em Angola), dialogando também com outras personagens. Multifacetada, a imagem do mundo que nos devolvem corresponde, no entanto e quase sempre, à visão amarga da história de um país atrasado, de uma sociedade injusta de pobres e ricos, estes últimos com o seu cortejo de serventuários eclesiásticos ou policiais e a sua pequena corte provinciana de políticos corruptos. Mas o olhar de que falamos é também um olhar generoso que resgata os mais pobres do anonimato e os ergue à condição de heróis, por vezes quase pícaros, é certo, como acontece com Teotónio Coutinho. Com o seu quê de tipo camponês camiliano, a lembrar, em simultâneo, certas personagens populares de Aquilino, Teotónio é uma figura espantosa na sua humanidade feroz de grande predador, rendeiro explorado pelos prepotentes Silveiras, conhecedor como poucos dos segredos da serra, dos coelhos e dos furões; militante monárquico cuja generosidade o deixa entregar-se a uma causa que, só por alienação, se compreende ser a sua; senhor, enfim, de um impiedoso bacamarte que com ele se deitará na última morada, sob a fria terra de Agra.

Nesse mundo pequeno e fechado que é Portugal e, em particular, o Minho dos anos 30 e 40, o único espaço livre parece ser a serra, incessantemente percorrida pelos caçadores. Mas é também aí que grupos de homens e de cães quase humanos revivem, em pequena escala, os conflitos sociais e de valores de que a província é palco. Aí se medem virilidades, se exibem, em vão, os vícios da riqueza e do poder, se provoca e conhece o medo e a morte. A caça, contudo, é alternativa de liberdade num território sem amos, já que a maior parte da serra é «chão baldio, terreno comunitário» (p. 148).               

Os factos históricos são filtrados por dois olhares, o de Manuel e o de Sílvio, que simultaneamente exprimem fundas inquietações existenciais, em particular esse medo que, em última análise, é o medo da morte. Manuel teme o desaparecimento do filho, mobilizado para uma guerra absurda na qual se não consegue libertar da condição de potencial vítima de uma «caça» de diferentes contornos, onde tudo parece desumanizar-se e cheirar a carne apodrecida, ao contrário da verdadeira caça em Agra, protagonizada pelo pai e por outras figuras de homens verticais e, à sua maneira, grandes, como João da Ameã e Teotónio. Sílvio experimenta na guerra a sensação de perseguir peças de caça que, afinal, são guerrilheiros, homens como os outros que lutam pela sua liberdade. Ora, no dia em que tem início a deambulação mental de Manuel, este sente pela primeira vez a dificuldade em premir o gatilho, como se os animais bravios tivessem deixado de ser simples objectos de desejo de um natural instinto predador, de raízes ancestrais e misteriosas, para de repente se tornarem vítimas, imagens do próprio filho. Dilacerado pela saudade, pelo medo e pela dúvida, o dia de Manuel é simultaneamente o tempo de revisão de uma vida inteira, marcada pela paixão venatória. Vida filtrada e resumida no tempo de um engenhoso e belo romance.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

Mensagem de Koichiro Matsuura, Director General da UNESCO, por ocasião do Dia Mundial da Poesia, 21 de Março de 2009

 

A diversidade linguística é uma das formas mais valiosas que a diversidade cultural pode assumir. Graças ao facto de serem capazes de captar a infinita variedade do mundo e se prestarem à tradução, as línguas podem articular a singularidade e a universalidade. Este vínculo manifesta-se com máxima intensidade na poesia. Qualquer língua tem a sua.

Mediante a celebração deste Dia Mundial podemos voltar ao espírito da mensagem de encerramento da Convenção sobre a protecção e a promoção da diversidade das expressões culturais (2005), que considera a diversidade cultural como um processo evolutivo de expressão e criação.

A poesia contribui para esta diversidade criativa ao questionar, de maneira sempre renovada, o modo como usamos as palavras e as coisas, as nossas maneiras de perceber e interpretar a realidade.

Devido às suas associações e metáforas, e à sua gramática singular, a linguagem poética constitui, pois, outra faceta possível do diálogo entre as culturas.

Diversidade no diálogo, livre circulação das ideias por meio da palavra, criatividade e inovação: é evidente que o Dia Mundial da Poesia é também um convite a reflectir sobre o poder da linguagem e o florescimento das capacidades criadoras de cada pessoa.

Agora que acabamos de encerrar as celebrações do 60.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, esperemos que este Dia Mundial também dê testemunho da aspiração universal a um mundo reconciliado em torno dos valores da liberdade e da diversidade.

Koichiro Matsuura

(tradução de José António Gomes)

 

«Cada poema es único. En cada obra late, con mayor o menor grado, toda la poesía. Cada lector busca algo en el poema. Y no es insólito que lo encuentre: ya lo llevaba dentro.» (Octavio Paz)

«O homem surdo à voz da poesia é um bárbaro, seja quem for.» (Goethe)

«La poesía no quiere adeptos, quiere amantes.» (Federico García Lorca)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Por uma pedagogia poética: A Poesia como Estratégia, de José António Franco

Contista e poeta, divulgador de poesia e dinamizador de oficinas de escrita, além de professor, José António Franco escolheu para si aquele destino de trevas e claridade que é a poesia, o qual, entre muitas outras «definições» a considerar, poderia ser descrito do seguinte modo: «A poesia representa um caminho a que, geralmente, os homens não querem renunciar. O pensamento analógico e simbólico de que se alimenta, a sedução das formas sensíveis e espirituais do imaginário, a revelação intuitiva do saber, a confrontação com o próprio sistema da linguagem serão as linhas fundamentais que permitem traçar o perfil do que a poesia é essencialmente. Um rosto difícil, porque traz consigo o segredo essencial de não pertencer a ninguém. Mas o espaço que se forma a partir de tal ausência não acaba por irrealizar a poesia. É nesta ambiguidade que assenta um dos seus poderes, o qual muitos não lhe reconhecem: o de ser uma forma de conhecimento.» (Guimarães, 1987).

Escritas em 1987 por Fernando Guimarães, estas palavras talvez permitam compreender o poder de atracção da poesia, na origem, por certo, de obras como a que se apresenta – A Poesia como Estratégia, editada pela Campo das Letras, em 1999 – ou de poemas como o que o seu autor, José António Franco, publicou em 1993: «faço de mim um corpo novo / rebelo-me contra a / clausura // uma qualquer forma viva / um rio de imortalidade / de inocência» (Franco, 1993: 41).

José António Franco escolheu para este livro o título certo, porque em parte nos esclarece desde logo acerca quer dos seus pressupostos quer dos propósitos que o animam. Não pretende o autor enunciar de modo sistemático os princípios e os objectivos de uma didáctica da poesia no contexto dos programas em vigor, em especial os respeitantes a níveis escolares em que o estudo do texto poético se processa com maior sistematicidade, ou seja, entre o 9º e o 12º anos de escolaridade. É certo que as aprendizagens relativas à poesia se encontram contempladas de forma insuficiente – como sublinha José António Franco – nos documentos programáticos do Ensino Básico (1º, 2º e 3º ciclos), e deve reconhecer-se que é entre o 9º ano e o final do Ensino Secundário que a poesia surge como um dos núcleos relevantes dos programas de Língua Portuguesa. Ora, como se disse, não tem o autor como finalidade discutir problemas relativos ao ensino da poesia enquanto conteúdo concreto, no quadro de uma didáctica do texto literário. O seu propósito é, sim, o de nos convencer de que a poesia, sobretudo nos níveis iniciais de escolaridade (1º ciclo, 2º…), deve ocupar lugar central num processo de reconciliação das crianças e dos jovens com a aprendizagem da escrita, da leitura e da expressão oral.

Assim, mais que um mero conteúdo, pode a poesia constituir, na perspectiva de José António Franco, um recurso e, nessa medida, fazer parte de uma estratégia pedagógica, encarada como «exercício do magistério da sensibilidade» (p. 4), que tenha em vista a educação global do indivíduo. Para o autor, a poesia reúne em si todos os ingredientes necessários para se tornar «um auxiliar precioso do pedagogo», no sentido em que a sua leitura e as práticas de escrita que a assumem como matriz são terreno ideal para o desenvolvimento da «competência comunicativa» e de «uma saudável relação com o mundo» (p. 17). Pretende-se ainda que o convívio com a poesia em contexto escolar resulte, para a criança e o jovem, numa «recuperação da funcionalidade afectiva da língua portuguesa», no quadro de uma «pedagogia estética que privilegi[e] a palavra e o texto poético, a caminho da (…) reconciliação da escola (…) com a palavra, a criatividade e o espírito crítico» (v. texto da badana).

O autor de A Poesia como Estratégia poderia assim subscrever o discurso de alguns mestres cujos textos constituem o esteio teórico do seu trabalho. Entre eles Mikel Dufrenne, Georges Mounin, Georges Jean, Gianni Rodari, Michel Cosem ou Jacinto do Prado Coelho que, em 1944, escrevia estas palavras que igualmente poderiam ser assumidas por José António Franco: «o fito do educador será formar artistas, quer dizer, homens amplamente humanos, que amem a vida, que a vejam no que tem de essencial. (…) Toda a educação deverá ser poética.» (Coelho, 1944: 19-21).

É evidente que esta defesa de uma «educação poética», para utilizar a expressão do ensaísta de Ao contrário de Penélope, não poderia deixar de pressupor uma atitude crítica em relação à Escola que temos, aos seus métodos e práticas e àqueles que são os principais agentes de tais processos, ou seja os professores. Ressalvando as excepções, Franco acusa-os de uma quase geral indisponibilidade para o exercício do já referido «magistério da sensibilidade – com repercussões evidentes na relação das crianças com as artes, em geral, e a poesia, em particular», acrescentando que eles se socorrem muitas vezes «de um academismo palavroso e absurdo, em que se fala mais sobre a língua do que se aprende realmente a conhecê-la e a manuseá-la» (p. 43). (Convenhamos, contudo, que o próprio Ministério da Educação tem favorecido, ao longo dos anos, uma evacuação, sem precedentes, das Humanidades e das Artes do ensino.)

Esta crítica não surge, contudo, descontextualizada, e as primeiras cinquenta páginas do livro confirmam-no sobremaneira, porquanto, num discurso com aquela dose de subjectividade de quem muito meditou já sobre o mundo, o autor traça uma imagem negra da sociedade contemporânea, que, na sua óptica, teria gerado um clima altamente desfavorável à formação do gosto e da sensibilidade, e a uma educação pela arte, designadamente em contexto escolar. Não se surpreenda, por isso, o leitor com as críticas radicais à uniformização «cultural» imposta pelo neo-liberalismo, ao consumismo, à incultura e à vociferação televisivas, à boçalidade quase generalizada que o discurso dos media evidencia, à desumanização e à crise de valores que caracterizam este tempo – aspectos escalpelizados por José António Franco, que, em jeito de conclusão, desemboca numa apaixonada defesa do imprescindível papel da poesia no mundo de hoje. Afirma, assim, que a ausência de poesia – encarada aqui num sentido amplo do termo que extravasa a sua dimensão estritamente literária – «pode levar ao tédio e escancarar as portas a todo o tipo de agressões intelectuais e emocionais que já referi: dos media à publicidade, da crise de valores duma sociedade em mudança vertiginosa ao próprio sistema de ensino. E, aqui, já não se trata, exclusivamente, da simples capacidade de ler, ouvir ou escrever poesia: trata-se da capacidade de reflectir e de sonhar, da arte de sobreviver atenta e lucidamente, da procura consciente e decidida da felicidade num ambiente humanizado e digno, em que os bens materiais não sejam o objectivo supremo da existência» (p. 53).

Traçado o diagnóstico, José António Franco enuncia as virtualidades do convívio com a poesia na Escola e na aula. Traduzo algumas delas por palavras minhas: conhecimento e interiorização de referências culturais e literárias; desenvolvimento da sociabilidade e de um sentido existencial de cunho humanista; educação do olhar; melhoria de competências de comunicação e expressão; descoberta do potencial lúdico da linguagem verbal; superação de uma visão redutora, meramente utilitária, dos usos da língua; formação do gosto estético e de uma atitude de abertura às mais diversas manifestações artísticas.

Gostaria, neste ponto, de realçar o humanismo da visão que José António Franco propõe da relação pedagógica e da Escola enquanto comunidade. Este sentido humanista, indissociável de uma atitude de certa irreverência lúdica, perpassa os capítulos ou subcapítulos sobre o ambiente a criar na turma, o modo de educar no sentido de uma atenção ao mundo, as modalidades de contacto com o texto poético, os aspectos relativos ao aperfeiçoamento da leitura oral, da articulação e da dicção. Essas e outras passagens – em que o autor põe à disposição dos agentes educativos um conjunto de conselhos práticos, úteis e sensatos, sobre aquilo a que, com Georges Jean, poderíamos chamar a «entrada» na poesia –, tais passagens, dizia, assentam numa experiência de anos devotada à realização de oficinas poéticas de leitura e escrita em escolas do Ensino Básico. E também aqui ressalta a atitude humanista a que aludi, pois muitas das actividades sugeridas são enquadradas por referências a contextos situacionais concretos em que a sua aplicação teve lugar, não se escamoteando, por vezes, o tipo de reacções que as propostas provocaram junto de crianças e jovens, alguns deles com dificuldades de integração ou de aprendizagem.

As últimas sessenta e oito páginas da obra sugerem um elenco de actividades essencialmente centradas na escrita, na expressão oral e, sobretudo, numa descoberta activa dos «mistérios» e dos «possíveis», por assim dizer, da linguagem verbal, em situações de uso poético ou poético-narrativo. Especialmente úteis a educadores e a animadores de oficinas de escrita e expressão oral, essas sugestões são por vezes devedoras dos contributos dados pelos próprios artistas da palavra, sejam eles os poetas – surrealistas e outros – ou os inventores de histórias à Gianni Rodari, o grande escritor italiano da literatura para a infância que nos legou esse pequeno tratado sobre a arte de contar histórias que é a Gramática da Fantasia. O «cadáver esquisito», o acróstico, a escrita a partir de «rimas infantis» e provérbios são apenas três das vinte e oito técnicas, jogos poéticos ou narrativos, e outros procedimentos sugeridos por José António Franco para «perder o medo à poesia» na Escola e aceitar os desafios à criatividade que a própria linguagem encerra.

Para concluir, e pensando melhor, talvez se entenda a razão por que muitos professores sentem esse medo à poesia de que tanto fala o autor. É que a poesia, como escreveu Octavio Paz [1970], é «pão dos eleitos» e «alimento maldito»; «pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, colectiva e pessoal, desnuda e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todos os rostos, mas há quem afirme que não possui nenhum». Encerrando em si mesma tanta contradição, sendo a um tempo luz e trevas, tudo e nada, útil e inútil, compreende-se, repito, que infunda receios. Mas, também por esse motivo, guarda em si um infinito poder de sedução. Apenas se exige, por isso, que o professor se não furte à luminosa intensidade do seu olhar, inscrita em cada palavra, em cada metáfora, em cada verso. Aceite o desafio, descobrir-se-á então o indizível prazer da vertigem. Essa vertigem de que fala, afinal, um outro poema de José António Franco com o qual termino: «por dentro das palavras / há duendes e nuvens verdes / espinhos desmaiados / um rio às vezes / sem margens nem pontes / nem vontade de parar» (Franco, 1993: 59).

 

Referências bibliográficas

 

FRANCO, José António (1993). paisagem sem noite. Coimbra: Liv. Minerva.

FRANCO, José António (1999). A Poesia como Estratégia. Porto: Campo das Letras.

GUIMARÃES, Fernando (1987). «A poesia é uma forma de conhecimento», JL — Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2 de Março.

COELHO, Jacinto do Prado (1944). A Educação do Sentimento Poético. Coimbra: Coimbra Editora.

PAZ, Octavio [1970?]. «A poesia é conhecimento…», in Mourão-Ferreira, David. Imagens da Poesia Europeia. Lisboa: [Pórtico] Artis.

 

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)