sexta-feira, 17 de abril de 2009

23 de Abril: Dia Mundial do Livro – 25 de Abril: Dia da Liberdade | Dos Livros e da Liberdade

Abril traz consigo o cheiro dos livros. E também o forte odor da liberdade. Um momento para meditar sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura pode proporcionar.

Quem não renuncia a essa experiência sabe que ler, em primeira instância, é entrar numa conversa. E esse diálogo com a voz de um autor – que pode ser também um tête à tête com o/a protagonista de uma narrativa – constitui, por si só, uma vivência do confronto de ideias e experiências, um lugar onde, pelo mecanismo da projecção e do «choque de identificação» 1, se compreende, entre outras coisas, o sofrimento do outro. E onde se ensaia a aceitação activa da diversidade cultural e dos modos de estar no mundo – o que sobretudo acontece quando o livro que lemos provém de uma cultura estranha à nossa. Além de permitir esta aprendizagem da comunicação entre os homens (que é também aprendizagem da língua), a leitura oferece, a quem lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e construir uma identidade pessoal – que passa também pela noção de pertença a uma comunidade e a um povo. Indo mais longe, «sentimos perfeitamente», escreveu Proust 2, «que a nossa sabedoria começa onde a do autor acaba, e quereríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. E estes desejos, ele só pode despertá-los em nós fazendo-nos contemplar a beleza suprema à qual o último esforço da sua arte lhe permitiu chegar. (…) O que é o termo da sua sabedoria aparece-nos apenas como o começo da nossa.»

É por tudo isto que nunca os regimes ditatoriais ou obscurantistas se empenharam em promover seriamente a leitura, preferindo, sem o confessar, o analfabetismo e a iliteracia, que mergulham o homem na ignorância das servidões a que está sujeito. Daí também que – não raro em nome da «saúde» económica (leia-se: a do capitalismo) – as políticas de direita não invistam o que deviam na cultura, se «desinteressem» muitas vezes da construção de bibliotecas públicas e escolares, e propagandeiem uma restritiva noção de cultura como «património», mera galeria de glórias passadas. Sem que com isto o próprio património se veja salvaguardado…

Mas ler (poesia, narrativa, drama…) é ainda uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo também àquele que lê um domínio progressivo da linguagem verbal em dois planos: o da recepção e o da produção. Essa linguagem que não serve apenas para comunicar e intervir socialmente (analisar de modo crítico a realidade, reclamar, propor). Ela serve também para criar objectos textuais, eventualmente estéticos, e aceder ao jogo das palavras, o jogo irrenunciável do literário. Recorde-se, a este propósito, a radical interrogação de Boris Vian 3: «Pergunto-me se não estarei a começar a jogar com as palavras. E se as palavras fossem feitas para isso?»

2 de Abril: Dia Internacional do Livro Infantil. 23 de Abril: Dia Mundial do Livro. 25 de Abril: Dia da Liberdade. Datas para recordar alguns dos que nos deixaram livros inesquecíveis para a infância e a juventude. Livros que comovem ou divertem e dão que pensar. Como Alves Redol (Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos; A Vida Mágica da Sementinha), Sidónio Muralha (Bichos Bichinhos e Bicharocos; Valéria e a Vida; Catarina de Todos Nós; Voa Pássaro Voa), Alice Gomes (Bichinho Poeta), José Gomes Ferreira (As Aventuras de João Sem Medo), Mário Castrim (Histórias com Juízo; Estas São as Letras; O Cavalo do Lenço Amarelo É Perigoso; A Caminho de Fátima) e tantos outros. Datas para homenagear ainda a memória dos que, nos dias negros do fascismo, inventaram as palavras certas que outros leram. E lhes incutiram a coragem de resistir à ignomínia. Como as de Torga, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Cesariny, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, José Cardoso Pires, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos…

Meditemos nas três datas, pensemos no livro. Sem esquecer que Portugal ainda é dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante de uma televisão que aliena, estupidifica e nos envergonha. Felipe Pérez Roque afirmou, em 16 de Março de 2005, no 61.º Período de Sessões da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra: «Não há liberdade possível que não assente na fruição da educação e da cultura. A ignorância é a pesada grilheta que esmaga aos pobres. Sermos cultos é o único modo de sermos livres!» 4. Saibamos então reclamar para todos, e em especial para os mais jovens, a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos. Pois, como lembra a escritora grega Angeliki Varella 5, «a ‘luz’ dos livros nunca se apaga».

O direito aos livros e a bibliotecas, o direito à leitura pública, livre e gratuita, estão hoje, mais do que nunca, na ordem do dia dos que lutam por um mundo diferente.

Notas

1 «A leitura de um livro apenas podia suscitar este “choque de identificação” porque algo em mim se tinha dado, para mim imperceptível, que me tornara predisposto e mesmo necessitado em relação à mensagem. Tinha-se estado a operar qualquer processo interior, algo de vago, que subitamente adquiria forma e conteúdo concretos através da leitura de um livro.» (Bruno Bettelheim, Viena de Freud e Outros Ensaios. Venda Nova: Bertrand, 1991, p. 152.)

2 Sobre a Leitura. Lisboa: Vega, 19982 (1ª ed., 1905), p. 46.

3 Les Bâtisseurs d’Empire. Paris: Dossier du Collège de Pataphysique (1ª ed., 1959), cit. em http://borisvian.free.fr/sommaire.php?to=bibliofile.php?page=15, 12/4/2004, p. 387.

4 V. http://resistir.info/cuba/perez_roque_16mar05.html, 26/5/2005.

5 A Luz dos Livros. Lisboa: APPLIJ – Secção Portuguesa do IBBY, 2004.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)