segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O Entrudo Carnaval




O Entrudo Carnaval era um brejeirote, alto, escanga­lhado, folião. Vivia à revelia. Comia, dormia e folgava.
Dormir é que lhe fazia proveito, dizia ele.
As irmãs, umas sensaboronas, andavam sempre em bicos de pés para o não incomodarem, e nem tos­siam.
Mas quando chegava uma certa altura do ano o En­trudo Carnaval renascia. Dava cada salto naquela cama! Cantava, ria, chalaceava, era outro. De noite, à socapa, fugia para os bailes e tanto se lhe dava levar o fato do direito como do avesso. Voltava sempre a horas mortas, ninguém mesmo o ouvia — metia-se na cama e ficava-se. Isto, durante noites e noites a fio. Depois, não se sabe porquê nem porque não, enchia-se de coragem, levan­tava-se cedo e punha a casa num rebuliço.
Queria que o lavassem e que o penteassem e queria sécias ricas, berloques, enfeites, novidades... Não deixava parar ninguém.
De uma certa vez acordou ainda mais alvoreado que nunca. Ralou as irmãs à procura de rendas e de fitas, desencantou um velho bastão de cabo de prata num sótão, polvilhou-se, mosqueou-se, ensaiou passos e mesu­ras e remirou-se em todos os espelhos da casa. Depois de bem adamado e composto saiu para a rua.
Era domingo, o primeiro domingo de Março, e fazia um sol lindo. As janelas estavam cheias de senhoras. O Entrudo Carnaval pavoneava-se, cumprimentando-as para a direita e para a esquerda. As crianças engraçavam com ele.
Ia o nosso Entrudo de cabeça no ar, todo alegre e satisfeito, quando esbarra com uma velha. A própria velha que tropeçou nele e se pôs a resmungar. O Entrudo Carnaval arremedou-a, mandou-a para o borralho, puxou-lhe pela ponta do xaile e por fim virou-lhe as costas Com quem é que há-de tornar a esbarrar meia dúzia de passos adiante? Com uma ama! Isto era no tempo em que os meninos de mama ainda não andavam de carrinho. As amas que os traziam ao colo eram uma espécie de andores com grandes laços na cabeça, de fitas a voar, capas rodadas e cheias de rendas e bordados pela dianteira.
O Entrudo Carnaval não se sente mais senhor de si. Joga-lhe as pernas à frente, pede-lhe um chocho, o menino, uma fita do topete. A mulher quer desenvencilhar-se dele e não pode.
Só um chocho, um chocho e mais nada!
A mulher, sempre a rir e às cabeçadas, lá se furta aos seus atrevimentos. Mete-se na escada mais próxima acolitada pela patroa. O Entrudo atira um pinote, larga o bastão e dispara atrás dos gatos. Depois furta o cabaz a uma sopeira, dá grandes gargalhadas, oferece o braço a duas meninas que vão passando, parece doido varrido. Os garotos da rua, atrás dele já gritavam:
Querem ver? Querem ver? Ulha, ulha, ele ali está, vamos lá ver o que é que ele agora faz...
Mas o Entrudo Carnaval, aborrecido, voltou para casa. Mudou de traje e tornou a sair. Diziam-lhe as irmãs, da porta:
Anda cá, Entrudo, espera aí! Olha que vais indecente!
Pois sim, pois sim. E continuava, sem se virar. Mas na rua é que foram elas...
Olha, olha, é o Entrudo é ele mesmo em carne e osso.
Que vergonha!
Prendam-no! Grande descarado!
A polícia, chamem a polícia, parece impossível!
Mas ele nada ouvia, nem se ralava.
Tinha-se vestido de bebé. Com um vestidinho curto e de peúgas — as grandes canelas peludas todas ao léu — uma coifa da mãe na cabeça e um arquinho na mão, só dizia tolices. Metia-se com quem passava, tinha birras, pedia bolos, fazia beicinho, chamava muitos nomes feios a toda a gente, queria brincar... Eu sou pequenino, repetia ele, sou muito pequenino, coitadinho do me­nino...
Por fim enfadou-se de ser bebé, entrou num algibebe e disfarçou-se de velho. Arranjou um grande chanfalho, que estava cheio de pó e de ferrugem, uma penca furi­bunda e umas barbas de chibo. Envergou uma casaca velha e entrou a arremeter com uns e com outros. Revirava os olhos, ameaçava com o chanfalho, corria atrás de quem se voltasse, metia medo... Arreda que te espeto, arreda que te espeto! regougava ele.
Apuparam-no, bateram-lhe e por fim até o levaram de rojo pelas ruas fora.
O triste, já todo enlameado e desfalecido, só o que fazia era pedir misericórdia. Deixaram-no como um lázaro, o olho muito mortiço, sem penca nem barbas, mal dando acordo de si. Começou a juntar-se povo à sua volta.
Está morto e bem morto! — dizia um.
Ó Entrudo que foste Entrudo!
Qual? Ainda não vai desta.
Pobre Entrudo! — choramingava uma mulher. Era lá coisa que se fizesse! Deixarem-no assim neste es­tado…
Patife! — resmungava um velho de cabeça pelada. Só tem o fim que merece. Mas sempre era bom ver se ele ainda bole.
Está morto e bem morto!
Vejam, vejam, teimava o velhote.
Está... não está... até que um rapazola, mais afoito se atreve a puxar-lhe por um pé. Chama-o pelo nome.
O Entrudo estremece. Esgazeia os olhos e tartamudeia: que diabo me quer toda esta malta aqui de roda?
O povo afasta-se um pouco.
Ah! seus malandros, rezavam-me o responso, hem? Eu já lhes digo!
Levanta-se de um salto e começa a apanhar pedras. Como vê tudo a fugir deita-as fora, entra a despir-se e a rir a bandeiras despregadas.
Ele está doido, ele está doido! Então não querem lá ver?
O Entrudo Carnaval, de cuecas e com a fralda de fora, atravessa a rua às cambalhotas. Rouba a capa a um estu­dante que seguia desprevenido, embrulha-se nela e desata a cantar. Põe os olhos em alvo, invoca as estrelas e vai piscando o olho às meninas janeleiras.
Assim andando passa à porta de um guarda-roupa de teatros. Olha para os belos trajes exibidos, apalpa-os, abana-os e propõe uma troca ao dono do estabeleci­mento: a sua capa por uns calções de seda e um gibão de veludo. Faz-se a troca, veste-se o Entrudo, põe uma peruca de rabicho, calça sapatos de fivela, estica as meias e sai. Logo se lembra de umas primas que tem por ali algures. Apressa o passo. Bate-lhes à porta de certo modo.
Ó Entrudo, meu rico Entrudo! bradam logo elas de dentro. Pois és tu?
Sou eu, sou.
Já nos tardavas.
Aqui me têm, não digam mais nada.
Mas que tens tu feito? Anda, conta...
Sei cá! Quem é que me dá um abraço, então, e quem é que me dá um beijinho?
Maroto!
Eu, maroto? Ah! ricas primas, Folias do meu coração. Já não podia mais com saudades. Vocês não me acredi­tam?
Acreditamos, pois.
Olha, olha, aquela... sempre tem uma boquinha... e tu, meu amor, estás tão bonita! Ai, primas, ricas Folias...
Brejeiro, tira a mão!
Folias da minha alma, não me fujam.
Pois não, pois não, meu traste, mas assim não vale...
Não vale, não vale? Mas se vocês estão uns amores! Há lá raparigas mais bonitas?
Beliscões é que não, meu atrevido.
Olha a tolinha com cerimónias. Então quem sou eu?
Safa-te, nada, deixa-nos. Estávamo-nos a arranjar...
Ninguém tem umas priminhas assim! Se não fossem elas. Eu juro...
Mas que é que tu nos queres?
Não sabem, ainda não sabem? Venham daí! Daqui não arredo pé sem vocês.
Patife! Todos os anos é isto. Pois sim, espera, vamos já.
E as Folias, entre risos e gritinhos encheram-se de gui­zos, fitas, pentes e flores e saíram com o primo. Correram becos e vielas sempre às gargalhadas e por último estaca­ram à porta de um fidalgo. O Entrudo levantou a grande aldraba com carranca de leão e deixou-a cair. Logo asso­mou ao pórtico um laico agaloado. Mandou-os entrar, dando sinal a outro lacaio com um volver de olhos. O Entrudo fazia as suas zumbaias a todos os lacaios que vira e as Folias, muito recatadas, nem sorriam.
O fidalgo e a sua família estavam no salão: pareciam, de facto, esperar os recém-chegados. Tanto que o dono da casa mal viu assomar o Entrudo Carnaval ao topo da escadaria, assim se manifestou:
Sede bem-vindo, nobre amigo, sois um festejado hós­pede, aqui e em toda a parte.
Mas o Entrudo irreverente circunvagou os olhos e meteu as mãos nos bolsos. As Folias, inquietas, deram aos guizos das saias, depois começaram a bater o pezinho.
Pôs-se então a dizer uma senhora de cabelos brancos, ou empoados:
Nobre Entrudo, acercai-vos de mim, já vos não distingo bem, éramos velhos amigos...
Não posso, não posso, minha avozinha!
Ele que diz?
Que não pode ser, avó.
Porquê? Já me não conhece, com certeza. Ou será um descendente...
Pois, minha avó. Não vê que este é um rapaz?
Mas tinha tanta graça! Naquele tempo...
Ora, ora, replicavam-lhe as netas, deixe-o connosco, connosco é que ele agora se entende.
O Entrudo, no meio da casa, de boca apertada, zom­bava delas com os olhos. Por fim explodiu:
Raparigas não se acanhem, então? Cá as minhas pri­mas não têm vergonha de ninguém.
E as Folias bateram as palmas de alegria.
As meninas, afoitas, foram-se aproximando dele. Uma lhe pediu versos, outra lhe pediu cantigas. Tratavam-no por tu...
O Entrudo Carnaval, meio trocista, fazia como os papagaios, cacarejava, revirava o olho e balanceava-se.
O fidalgo, muito amável, veio participar-lhe que tinha feito convites em sua honra e das gentis Folias e que se sentiria feliz de os ver à vontade.
O Entrudo fingiu que agradecia e entrou a cirandar pelas salas. Virava os quadros, despejava as jarras, empo­leirava-se nas cadeiras, espreitava a todos os cantos, dava espirros medonhos, assoava-se com estrondo, abria e fechava janelas e portas, não sossegava.
Entretanto chegam os convidados. O fidalgo a todos o apresenta com estas textuais palavras:
Ei-lo, o cavaleiro da Graça e da Bizarria, da antiga Casa da Festa e Senhor da Liberdade. Por divisa um guizo de oiro e por timbre uma gargalhada. E da mais velha nobreza. Toda a honra é minha em vo-lo apre­sentar.
O Entrudo, desentendido, virava-se para um lado e para outro. Derreava o ombro, arregalava o olho, assobia­va e cacarejava de novo como os papagaios.
As meninas à roda dele pareciam umas borboletas:
Ó Entrudo, não danças? Gostas de mim? Queres do­ces? Pareço-te bem? Estás cansado, ó Entrudo?
O Entrudo constipou-se! berra ele de súbito. E dando um grande atchim cai sentado. Que é das minhas pri­mas?
Ninguém sabia delas. A balbúrdia já era grande. An­davam nuvens de pó pelo ar e no chão só se viam papéis e flores pisadas.
O Entrudo desata a espernear e a gritar que lhe falta a respiração, que se está ali pior que numa casa de malta.
Levam-no em braços, mas ele estorce-se e continua a gritar que o matam, que tem muita fome, que não pode passar sem as suas ricas primas.
Depuseram-no no salão dos banquetes. A mesa estava posta e o Entrudo mandou logo que o servissem. Vieram as Folias, enfim, e os mais convidados.
O dono da casa parecia contente. Sorria e instava com o Entrudo para que gracejasse, animasse, aquela reunião. Chamava-lhe seu encantador amigo, seu velho compa­nheiro. O Entrudo impava e distribuía chufas a torto e a direito. As damas davam-lhe motes e ele glosava-os com uma brejeirice, mas oh! que brejeirice. Contava anedo­tas de fazer rir e morrer de vergonha, desengonçava-se na cadeira às gargalhadas... e por fim até metia as mãos no prato e bebia por todos os copos. Os fidalgos e fidal­gas imitavam-no. Não contente, o Entrudo Carnaval salta para cima da mesa e dá a mão às Folias que se derreavam, todas esbodegadas, nos braços de uns e de outros. As damas da casa têm cheliques e põem-se aos gritos.
Vamo-nos embora, ordena o Entrudo às primas, que lhe resistem. Isto já não presta! E dispara por uma janela fora.
As Folias lá se desembaraçam como podem dos fidal­gos e meio despidas e esgadelhadas descem de escantilhão pela escadaria abaixo. Os lacaios, muito tontos, também as querem abraçar, mas elas sopraram-lhes na cara e saltam para a rua. Dão as mãos ao Entrudo, que as esperava, e põem-se a andar subtilmente. Falam baixinho. Pois sim, pois sim, respondem elas a tudo que ele lhes propõe. Iam assim, com vozes e passos disfarçados, quando dão com uma janela aberta, numa rua deserta, e lá ao fundo de uma grande sala um velhote a escabecear sobre um cartapácio.
O Entrudo faz sinal às primas. Ali param e ficam que tempos a olhar. O velho nem os pressente.
Ó tiozinho! brada-lhe finalmente o Entrudo em tom de falsete, dê uma fala à gente...
Que é, que é? tartamudeia o velhote, estremunhado.
Tem à sua porta o Entrudo e mais as Folias! Então não sabia?
Que é, que é? torna ele.
As Folias, aborrecidas, puxam pelo braço do Entrudo. Vamo-nos embora! É mouco.
Priminhas, esperem, eu sempre quero ver...
Já me não conhece, ó tiozinho?
Eu sou o Entrudo, por antonomásia também o Car­naval.
Que é, que é?
E o velhote de mão no ouvido, a fazer de corneta, punha a cabeça de banda e piscava os olhos.
O Entrudo! O Entrudo Carnaval, deve saber quem é.
Eu estudo, pois estudo... estudo sempre.
Não pisque, tiozinho, não pisque e vá para a cama que são horas! brada uma das Folias já impaciente.
Olha, olha, bradou outra, traz a lua à cabeça; como ele pode!
Mouco, vai para a cama! Ginja, deixa os livros! E tanta algazarra as Folias e o Entrudo ali fizeram, debruçados pela janela dentro, que o velho apanhou um livro do chão e fez menção de lhes arremessar com ele.
Não se arrependa, tiozinho! Mande, mande, que este é que é o tempo.
Mas o homem, desinteressado, virou-se para a sua banca e continuou a escabecear. O Entrudo e as Folias abandonaram-no. Dali seguiram para os bailes das socie­dades. Pelo caminho miavam e ladravam o melhor que podiam. O resto da noite levaram-no a dançar. As sopei­ras e os magalas deliravam com a companhia. Ninguém se fartava de gozar. Já luzia o buraco quando o Entrudo desaparece. Onde estará, onde não estará? Que seria feito dele? Não se sabia. Pelo dia adiante é que umas saloias deram fé de o ter bispado.
O grande mafarrico! Não querem lá ver? Mas aquilo é que ele tem graça! Do que ele se havia de alembrar? Foi-se à porta da ti'Ana... sempre lhe encheu aquela porta de chavelhos! e borrou para aí tudo de cal. Nem um postigo ficou sem a marca dele. É um traste! E ao depois, embrulhou-se numa coberta de chita... se o que­riam ver a fugir... Agarra, agarra! Até deitaram os cães atrás dele, com latas atadas aos rabos... era uma barulheira lá no sítio!
Pelo meio-dia torna o Entrudo à cidade. Vinha carre­gado de flores. Todos o reconhecem e cumprimentam, mas ele não dá troco a ninguém. Chega à Avenida e mete-se por entre os mirones. Põe-se a atirar flores às raparigas, por fim já as atira a torto e a direito. E confeitos, serpen­tinas, milho, tremoços... Arranja uma mão cheia de rabos e vai-os espetando nos traseiros das pessoas sérias. As Folias, que tinham surgido de qualquer banda, ajudavam-no. Entra a aparecer gente com trajes ridículos.
Ó mãe! ó mãe! diziam as crianças. O que é que aquele parece? Aquilo o que é? Tão bonito!
E diziam os velhos: isto já não é nada, antigamente, sim... eu cheguei a arranjar uma capa só de caracóis... e eu então? de feijão de carinhas... Este não é o verdadeiro Entrudo. Pois não, está muito mudado, falta-lhe azougue.
As Folias, dentro de um trem enfeitado, batiam a Avenida sem parar, para cima e para baixo, às palmadas e às risadas. E o Entrudo, como se fazia noite foi andando para as portas dos teatros. Puxavam-no daqui, puxavam-no dali, mas ele em parte nenhuma se demorava.
Não presta, não presta... era o seu estribilho.
E desaparece de novo. Onde teria ele ido parar?
Aos bairros românticos, muito velhos, com uma jane­linha iluminada aqui, outra além, perdidas pelos altos da noite.
O Entrudo Carnaval, de guitarra ao peito, fazia dim dim dom e cantava.
Ouviam-se suspiros no ar e o Entrudo então pigarrea­va, depois largava uma piada das suas.
Malcriado!
Mas ele ria, ria...
Patetinhas, julgam-me apaixonado. Não queriam mais nada?
Quando amanheceu, era uma terça-feira, o sol muito enjoado não esteve para ajudar mais à festa.
E o Entrudo, encostado às esquinas, não fazia senão carpir-se:
Tanta barraquinha de flores, tantos arcos pelas ruas, tanta janela enfeitada! tudo, tudo em minha honra, que se vai perder...
Uma chuvinha impertinente fazia de contínuo ping, ping, ping. Era uma tristeza. Atrás dela veio o vento. Os garotos impiedosos pegavam em chapadas de lama e atiravam-nas às paredes. Os festeiros debandavam. Umas gaitinhas muito chochas fé fé fé, ainda se ouviam pelos cantos. Já tudo soava a falso. Das Folias não havia mais notícia. A chuva engrossava. Montões de papelinhos recortados à tesoura entupiam os canos das ruas, ser­pentinas muito desbotadas caíam pelas paredes abaixo e corriam nos fios eléctricos.
O Entrudo, indignado, batia o pé:
Eu racho! Eu quero, eu quero...
Mas ninguém sabia o que ele ainda queria. Viram-no por mais alguns sítios, muito murcho, e por fim perderam-no. Parece que foi ter à porta da mãe, todo lambuzado de lágrimas, a gaguejar e a tremer. As irmãs puxaram-no logo para dentro, mas ele resistia-lhes.
Em que estado tu nos vens! — chamavam elas. Não tarda nada que te dê o acidente.
Lá lhe arranjaram a cama e a muito custo o deitaram nela. Ele ainda escabujava e só dizia, com a língua enta­ramelada: não tenho sono, não tenho sono, larguem-me, amanhã, amanhã...
Mas amanhã o quê, meu rico filho? perguntava-lhe a mãe.
Amanhã, amanhã.
Senhores, nunca vi o meu filho tão mal! Que é que tu sentes, anda, fala...
Tinha-o ela acabado de tapar quando entra pela porta dentro uma dama vestida de preto, a dar aos braços e aos ais.
Que é dele? Que é dele? Que é feito do meu amor? – brada.
Está ali, indica-lhe uma das irmãs.
Eu sou a Leviandade, sabem...
Sabemos, sabemos.
E sem ele não posso viver! Morro sem o meu amor. Até já me carreguei de luto.
Entretanto o Entrudo dava grandes estremeções e por fim tornou-se hirto.
Ai, que o meu filho se me vai desta! — clamava a mãe. E as irmãs: Entrudo, Entrudinho...
Foi-se juntando a vizinhança à porta; na rua a alga­zarra já era medonha.
E o Entrudo? Dizem que está mal... Pobre diabo! Também... nem parecia o mesmo. Tempos, tempos...
Os jornalistas entraram açodados, sem mesmo pedir licença.
Ele como se chamava?
Entrudo, era o Entrudo Carnaval. Toda a gente o conhecia.
Idade?
Mas ninguém atinava com a data do seu nascimento.
Tão lindo! — chorava a mãe. E tão ladino! Quando ele queria... até fazia rir as pedras... não havia outro assim. E um mãos rotas, dava tudo... Muito estróina, mas um coração! Entrudo, meu rico filhinho! Quem me diria que tu havias de morrer um dia?
Não morreu, mãe, não morreu! — grita uma das irmãs, lá abriu agora um olho.
Ele é cataléptico, na verdade.
Os jornalistas assentavam: muito generoso, grande alma, cataléptico.
E a mãe, sempre a carpir-se: fica assim um ror de tem­po, eu é que julgo que ele morre... mas ali onde o vêem tem uma vida! Tem-me é dado muitas penas.
Deixem-me em paz, mascou ainda o Entrudo, e começou-lhe a vir a saliva à boca.
Não morras, não morras! — gritavam todos à uma.
O Entrudo apalpava a roupa com as mãos trémulas.
Acendam as velas, implorou a mãe, agora é que me parece...
Uma vizinha veio com uma vela de cera e foi pô-la à cabeceira do Entrudo.
As minhas fitas...
Mãe, ele pede...
A minha mascarilha...
Dêem-lhe tudo, vão buscar tudo, filhas, é a sua última vontade.
Iam-lhe pôr a mascarilha, julgando que o satisfaziam, quando ele se senta de repente na cama e brada:
Súcia, rua, que é tempo!
E atira uma grande cuspinhada à vela. Torna a cair para trás e adormecer profundamente.

Irene Lisboa, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma (1955)


terça-feira, 31 de março de 2015

Um pouco de história: Soeiro Pereira Gomes, uma família no Porto



















Abordar, como faz Alice Rios (Rios, 2008 e 2009), a presença marcante de certas famílias na vida do Porto implica, naturalmente, falar da família dos escritores Joaquim Soeiro Pereira Gomes e Alice Gomes. Entre muitas e muitas outras, claro está, incluindo as mais anónimas e desfavorecidas da fortuna, que são quase sempre a verdadeira força motriz da História, tão responsáveis afinal, como algumas das famílias ditas mais ilustres, por aquilo a que alguns chamam a identidade portuense.
Uma família, a dos Soeiro Pereira Gomes, que não é, todavia, natural do Porto, embora seja oriunda do distrito e, efectivamente, tenha vivido e trabalhado na cidade. Frutos da união de Alexandre Pereira Gomes – personalidade íntegra, generosa e amiga da cultura, filho de um lavrador relativamente abastado de Baião e «primeiro homem do concelho a inscrever-se no partido republicano» (Rios, 2009: 158) – e de Celestina Soeiro Gomes – originária de uma família da burguesia rural e educada de Tabuaço –, os Soeiro Pereira Gomes instalar-se-ão no Porto, em 1924, mais concretamente no n.º 745 da rua Oliveira Monteiro, no Carvalhido. A razão desta deslocação prende-se com a necessidade, sentida por Alexandre e Celestina, de estarem próximos dos filhos e os acompanharem durante os seus estudos (não existiam escolas capazes na região de onde provinham) e, provavelmente, com a vontade, por parte de Alexandre, de abandonar a gestão das suas propriedades agrícolas e das dos seus familiares, enveredando por outros rumos para garantir a subsistência de uma prole numerosa.
O certo é que Alexandre não tinha talento para os negócios e as empresas que criou acabaram por falhar, o que acarretou também a gradual alienação das suas propriedades rurais no Douro. Empregou-se então, como responsável da cantina, na fábrica de tecidos Areosa – propriedade do pai de uma aluna particular da filha mais velha, Alice Pereira Gomes que, já antes de 1924, viera para o Porto.
Os filhos de Alexandre e Celestina eram seis: o primeiro, Joaquim Soeiro Pereira Gomes, nasceu em 1909, em Gestaçô, Baião, e morreu em Lisboa, em 1949; seguir-se-iam, por ordem decrescente de idades, Alice Pereira Gomes, nascida em 1910, em Granjinha (Tabuaço), e falecida em 1983; Berenice Pereira Gomes (1913-2004), que viria a ser uma ilustre professora do ensino primário durante quarenta anos, os vinte e dois últimos na escola de Santa Eulália, em Fânzeres, Gondomar (Rios, 209: 160), onde o seu nome foi dado a uma rua. Os irmãos mais novos eram Alexandre Herculano Pereira Gomes que, concluído o curso comercial, emigrou para o Congo Belga, onde foi bem sucedido, mas perdeu parte do que granjeara, após a descolonização do território, acabando por morrer um ano após o regresso a Portugal, com quarenta e cinco anos; Jaime Pereira Gomes, militante comunista, como Joaquim, que começou por ser docente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e exerceu posteriormente funções dirigentes no Ministério das Obras Públicas; e Alfredo Pereira Gomes que se doutoraria em Matemática na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, de onde, segundo Alice Rios (2009: 160-161), seria «afastado por motivos políticos» por volta de 1947 – era assistente de Ruy Luís Gomes – tendo-se exilado voluntariamente em França (onde foi elemento de ligação entre o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Comunista Francês, nos anos 40 (v. Pereira, 2001: 784-785)), depois no Brasil e, a partir de 1964, na Argentina, países onde exerceu a docência universitária. Tendo regressado a Portugal em 1971, ingressou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, jubilando-se em 1989 e vindo a dirigir depois o Departamento de Matemática da Universidade Lusíada. Ilustre matemático, participou na reactivação da Sociedade Portuguesa de Matemática e faleceu em 2006 (v. http://www.spm.pt/alfredo_pereira_gomes/.)
O conhecimento das biografias de Soeiro Pereira Gomes e de Alice Gomes, os diversos testemunhos que alguns dos irmãos nos deixaram permitem-nos traçar o perfil de uma família feliz, unida por laços de funda afectividade, que viveu, de forma muito dolorosa e por muitos anos, a tragédia da morte precoce do filho mais velho de Alexandre e Celestina Pereira Gomes. Uma família, acrescente-se, que se sentiu sempre dividida entre, por um lado, a belíssima paisagem rural duriense de onde provinham todos – espécie de locus amoenus de uma infância feliz, lugar a que os filhos, sempre que a vida lhes permitiu, regressaram para recuperar uma energia primordial, até porque as irmãs do pai Alexandre aí se mantiveram – e, por outro lado, os centros urbanos onde viriam a fixar-se, e que, essencialmente, foram o Porto e a região de Lisboa, em especial Alhandra, no caso de Joaquim Soeiro Pereira Gomes.
Após os estudos primários e o início dos secundários feitos em Espinho, para onde foi viver, sob a alçada fria e autoritária de uma tia, estudos esses nem sempre bem sucedidos, e depois de concluído, em Maio de 1928, o curso de regente agrícola em Coimbra, Joaquim partiu para Angola em finais de 1930, onde permaneceu alguns meses, em trabalhos duros e sob um clima inclemente. Bastante doente e frágil, regressa a Portugal logo no ano seguinte e fixa-se em Alhandra após o casamento com Manuela Câncio, irmã de um colega e amigo de curso em Coimbra. Manuela era uma jovem de assinalável beleza, com algum sucesso nos meios radiofónicos e teatrais lisboetas, devido à sua condição de música e compositora – o marido, aliás, com ela colaborou, escrevendo versos para canções, argumentos, etc.. Joaquim emprega-se então nos escritórios da Fábrica de Cimentos Tejo, com o apoio do sogro, homem possuidor de bens e benquisto em Alhandra, ele próprio com funções de chefia na empresa.

Além da presença no Porto durante a adolescência e no decurso dos estudos em Coimbra – muitas vezes a caminho do Douro, em tempo de férias –, Joaquim terá passado pela casa da Rua Oliveira Monteiro na época que se seguiu ao seu retorno de África e dado lições particulares, a fim de não sobrecarregar o orçamento familiar, enquanto procurava emprego compatível com as suas habilitações, objectivo que nunca se concretizou. No período que antecedeu o casamento com Manuela Câncio, celebrado em Coimbra, onde se haviam conhecido na festa de formatura de Joaquim, este desfrutará no Douro, em casa das tias, de algum tempo de recuperação das sérias mazelas africanas (designadamente o paludismo) que por pouco lhe não arruinaram a saúde.
Os anos que se seguiram são bastante conhecidos, apesar de existirem zonas obscuras em diversos relatos da vida de Joaquim, e encontram-se narrados em textos biográficos ou evocativos pela viúva, Manuela Câncio Reis (2007), por Giovanni Ricciardi (1999), pelos camaradas de Partido de Joaquim e por historiadores. 
Uma vez em Alhandra, vila industrial da região de Lisboa, Joaquim Soeiro Pereira Gomes terá aderido ao PCP em 1936 ou por volta dos anos de 1938-401, após ter mergulhado num ambiente politico-cultural onde pontificavam figuras como o dirigente comunista Dias Lourenço e o escritor Alves Redol, ambos ligados ao que ficaria conhecido como o grupo neo-realista de Vila Franca de Xira (além dos já mencionados, Arquimedes da Silva Santos, Júlio Graça, Carlos Pato e outros). Mas as motivações políticas já vinham de trás e decorriam do envolvimento de Joaquim com a comunidade operária e as crianças e jovens dos meios populares de Alhandra, onde vivia e trabalhava, e onde se tornou activo e admirável dinamizador cultural e desportivo. São conhecidos os numerosos saraus culturais, conferências e eventos desportivos que aí organizou e que culminaram na célebre construção de uma piscina (projecto que durou sete anos e resultou da ligação de Soeiro Pereira Gomes à direcção do Alhandra Sporting Club), piscina essa destinada à prática da natação pelas crianças pobres de Alhandra e que viria a transformar-se em berço de desportistas e até de campeões.
Toda esta actividade lhe granjeou o respeito e a amizade da população da vila. Como escreve o seu biógrafo italiano, Giovanni Ricciardi (1999: 124), a «educação» alhandrense de Soeiro, que haveria de o levar quer à militância política quer a escrever o que escreveu, «começa desde a sua chegada em 1931, e passa através do contacto quotidiano com operários e camponeses, com as condições de pobreza e miséria grandes que havia na vila. Com a exploração bestial das crianças dos telhais2, com a rígida divisão em classes da sociedade. Daqui o progressivo envolvimento nas actividades de cidadania, no trabalho desinteressado e solidário com os alhandrenses, até à opção final de se dedicar com mais afinco, e profissionalmente (…) à construção daquele mundo e daquele país, novos e melhores, que ele sonhava e antevia e para cuja realização estava disposto a abandonar até a literatura e a “utilizar a mão, as mãos”».
Seria justamente a vida dessas crianças dos telhais e de outras ainda que lhe inspirou o famoso romance Esteiros (Lisboa: Sirius, 1941, com capa de Álvaro Cunhal), além de contos como «O Pastiùre», textos nucleares do neo-realismo literário português, o primeiro, aliás, uma pequena obra-prima e um dos mais relevantes romances portugueses editados na década de quarenta, em primeiro lugar pela qualidade da sua linguagem, da sua narração imbuída de lírica poeticidade, da arquitectura romanesca e da densa humanidade das suas personagens (Gineto, Sagui, Gaitinhas, Maquineta, Malesso…), e, em segundo lugar, pela originalidade temática e pela dimensão ideológica do texto à época em que foi escrito: tratava-se de recriar literariamente a realidade de miséria social e económica e de exploração do trabalho infantil, de que eram vítimas, na década de trinta do século XX e em plena ditadura salazarista, as populações da zona ribeirinha do Tejo, junto a Alhandra, e em especial, os «filhos dos homens que nunca foram meninos», como se pode ler na dedicatória. No entanto, Soeiro Pereira Gomes não é apenas um expoente do neo-realismo, mas um precursor que, antes ainda da publicação de Gaibéus, de Alves Redol, em 1939, se encontrava já imbuído do que viria a ser o espírito desta corrente literária, como se pode observar lendo, por exemplo, o conto «O capataz», publicado em 1935 (v. Ricciardi, 1999: 51-58).
A simpatia irradiante de Soeiro, as suas qualidades humanas e intelectuais, o espírito solidário e o seu talento de organizador e dinamizador de grupos levá-lo-iam a tornar-se também, como foi dito, destacado militante e, mais tarde, dirigente do PCP (tendo inspirado aspectos de diferentes personagens do romance Até Amanhã, Camaradas, de Manuel Tiago / Álvaro Cunhal), na sequência da sua intervenção activa na organização das greves e lutas sociais, operárias e camponesas, que abalaram o salazarismo na região de Lisboa e do Ribatejo, na primeira metade da década de quarenta.
Foi esta opção de classe que, após o referido período de luta, o obrigou ao mergulho na clandestinidade, em que seria compelido a manter-se até à morte, em 1949, desempenhando tarefas político-partidárias da maior importância e sacrificando a escrita literária que, contudo, não abandonaria, mesmo depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença de pulmões, na sequência de uma queda de bicicleta ocorrida durante uma das suas deslocações enquanto militante clandestino.
Perseguido ferozmente pela PIDE, Soeiro Pereira Gomes nunca conseguirá, por isso, obter o devido tratamento médico, não obstante as démarches do seu partido, e em particular de Álvaro Cunhal – que sentia genuína amizade e admiração pelo seu camarada –, tanto em Portugal (chegou a estar internado no Instituto de Oncologia clandestinamente) como no estrangeiro.
A sua derradeira passagem pelo Porto dar-se-á no ano da morte, quando se refugia, por algum tempo, em casa de Rui e Nina Perdigão, na rua Arquitecto Marques da Silva, uma família da burguesia portuense, ligada à indústria têxtil, que apoiava financeiramente o PCP e cuja habitação era, no Norte, um dos principais pontos de apoio para os militantes do Partido na clandestinidade (por ela passaram Pires Jorge, Cândida Ventura e muitos outros).
É durante esse período que Soeiro Pereira Gomes, já em fase terminal de um cancro no pulmão, ultima os seus Contos Vermelhos – extraordinário testemunho, em forma de ficção, da vida de luta e sofrimento dos militantes comunistas na clandestinidade –, os quais viriam a ser publicados postumamente e a circular, também clandestinamente, pelas mãos de muitos antifascistas.
Segundo a versão corrente e de um dos seus biógrafos, Ricciardi3, nos últimos dias de vida, Soeiro é transportado para casa da irmã, Alice Gomes, e do cunhado, o escritor Adolfo Casais Monteiro, em Lisboa. Aí faleceu, na companhia da mulher, que não pudera acompanhá-lo na clandestinidade, mas fora presa por algum tempo, após a fuga de Soeiro. Escoltado pela polícia e pela PIDE, o seu funeral – encontra-se sepultado em Espinho – transformou-se, à passagem por Alhandra, e por pressão do povo, em comovente manifestação de homenagem e luta antifascista. Ainda hoje, a população de Alhandra conserva no coração a memória do homem encantador, generoso, solidário e do artista singular que foi o autor de Engrenagem, o seu segundo romance, que quedaria inacabado.
No quarto volume do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (Rocha, 1997: 386), é possível ler, a propósito deste livro: «Ao espírito de rebeldia inscrito à flor de Esteiros sucede a génese de uma manifesta consciência de classe no romance de que ultimava a revisão quando a morte o surpreendeu prematuramente: Engrenagem. Este livro – que se destinaria ((…) segundo Costa Dias, fundamentado na correspondência trocada entre o escritor e Fernando Namora e Joaquim Namorado) a integrar a colecção coimbrã de “Novos Prosadores” – foi publicado em 1951 por iniciativa dos dois irmãos do autor, Alice Gomes e Jaime Pereira Gomes, e principalmente de Adolfo Casais Monteiro, seu cunhado.»

  
A irmã mais velha de Soeiro Pereira Gomes, por seu lado, foi uma personalidade cuja vida e obra tiveram inegável relevo na história da cultura e da educação portuguesas da segunda metade do século XX, em especial nas esferas da criação literária e da reflexão sobre literatura e arte para crianças.

Alice Pereira Gomes fez os seus estudos no Porto, primeiro, como interna, no Colégio de Nossa Senhora da Esperança, depois no Liceu de Carolina Michaëlis; mais tarde, concluiu o curso do Magistério Primário, tendo completado, em Lisboa, um curso em Ciências Pedagógicas.
Como escreve Alice Rios (2009: 161), «começou cedo a interessar-se pelas Letras, algo que a unia de forma especial ao irmão, Joaquim, com quem, ainda adolescente, participou num concurso literário escolar. Foi ela a autora de uma peça, em três actos, que as colegas representaram no Teatro de S. João, assinalando o fim de curso, no Liceu Carolina Michaëlis».
Casada com o poeta, romancista e ensaísta Adolfo Casais Monteiro – homem da Presença, opositor ao regime de Salazar, não comunista –, seria, juntamente com o marido, demitida e presa pela PIDE. É ainda Alice Rios (2009: 161) quem refere: «Adolfo leccionava no Liceu Rodrigues de Freitas e Alice numa escola primária», tendo a demissão de ambos sido provocada pelo facto de pertencerem ao Socorro Vermelho Internacional, movimento de apoio aos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil de Espanha. Além disso, Adolfo Casais Monteiro ter-se-á recusado a assinar a declaração, exigida na altura, em que o funcionário público era obrigado a afirmar não perfilhar ideias comunistas4, o que terá constituído o principal motivo do seu afastamento.
Casais Monteiro exilou-se, mais tarde, no Brasil, onde continuou a desenvolver a sua acção oposicionista, trabalhando também como professor universitário e prosseguindo a construção da sua obra literária e ensaística.
Alice Gomes devotou-se à educação, primeiramente no Porto, como professora do Instituto Normal Primário, e, depois, na capital, onde exerceu funções docentes no ensino infantil e primário. Mas foi sobretudo no Liceu francês Charles Lepierre que encontrou o terreno propício para levar à prática as suas ideias pedagógicas, tendo idealizado um método, destinado a crianças estrangeiras, com vista a uma aprendizagem gratificante da língua portuguesa (Aprender Sorrindo (1970)).
A visível paixão de Alice Gomes pela literatura, pela arte e pelo universo da infância levou-a, juntamente com outras personalidades (Maria Lúcia Namorado, Calvet de Magalhães, João Couto, Cecília Menano), a fundar, em 1957, a Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, da qual foi a primeira presidente. O desenvolvimento do gosto pela leitura e da afeição pela literatura e pela arte em geral, bem como a consciência do valor educativo da poesia na formação da sensibilidade estética foram preocupações omnipresentes no espírito de Alice Gomes.
A noção da importância da educação literária na formação dos mais jovens encontra-se na origem de duas das obras que publicou (O Autor e a Comunicação no Livro Infantil (1973) e A Literatura para a Infância (1979)), bem como dos muitos artigos e crónicas que deixou dispersos na imprensa, nomeadamente no Jornal da Educação. Pois a autora – importa lembrá-lo – fez parte de um núcleo de intelectuais que, na segunda metade do século XX, teve o mérito de acordar as consciências para a necessidade de formar leitores desde cedo e de colocar, no centro dessa formação, a criação artística e o livro. Lembrarei, de passagem, alguns nomes deste núcleo, como Lília da Fonseca, Maria Lúcia Namorado, Natércia Rocha e Leonoreta Leitão.
Espírito inquieto e sensível, Alice Gomes desdobrou-se assim em palestras, colóquios e outras intervenções públicas, centrados ora na necessidade da educação pela arte, ora nas artes plásticas, no teatro e na literatura para os mais novos. Organizou, além disso, exposições e livros (como Poesia da Infância, 1966) em que procurou dar a ver como a criança, se imersa num contexto educativo enformado pelos princípios da educação pela arte, é ela própria capaz de criar textos e objectos plásticos de intenção artística.

Conhecedora da literatura para crianças portuguesa e estrangeira (não esqueçamos que foi a primeira tradutora para português de O Principezinho de Saint-Exupéry, além de ter traduzido outros livros), Alice Gomes leccionou também a disciplina de Literatura Infantil na Escola de Formação de Educadores de Infância João de Deus e muito reflectiu e escreveu sobre a matéria

Hoje, porém, é sobretudo como voz singular da nossa literatura para a infância que importa recordá-la. Em primeiro lugar, como poeta de mérito, no que à escrita para crianças diz respeito. Publicou Bichinho Poeta (1970), um belo bestiário poético, de cuidada e expressiva escrita, onde, por vezes, sob a máscara dos animais humanizados, ressurgem a criança ou o homem que sentem e, por isso, sofrem ou, ao invés, experimentam situações de júbilo. Editou ainda Barco no Rio (1977), Coração do Tempo (1984) e Na Idade dos Porquês (Lisboa: ITAU, [1972], cartaz de 42x52 cm, foto de Eduardo Gageiro), poema-poster que a tornaria conhecida, ao apresentar uma criança de nove anos dirigindo-se a um professor, numa espécie de doce libelo infantil contra a directividade e em favor de uma relação afectiva entre professor e aluno, que nos dá a ler um discurso de evidente impacto em termos educativos:

Tanto porquê que eu queria saber!
E tu não me queres responder!
Tu falas professor
daquilo que te interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir 
fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor. 


Mas a obra literária para crianças de Alice Gomes é vasta – os seus títulos repartem-se pela poesia, pelo conto, pela novela e pela literatura dramática. Salientem-se apenas alguns títulos como Teatro para Crianças: A Nau Catrineta. A Lenda das Amendoreiras. A Outra História do Capuchinho Vermelho (1967; a primeira destas peças foi representada no Teatro D. Maria II com música de Manuela Câncio Reis, que assinou sob pseudónimo); Vidrinho de Cheiro (1971); História de uma Menina: Romancinho (1971); Giroflé Giroflá (1972); Os Ratos e o Trovador (1973); As Histórias da Coca-Bichinhos (1974); e a novela Alexandre e os Lobos (1983).
Recorde-se ainda, por um lado, que Alice Gomes publicou uma das mais belas e bem organizadas antologias de poesia portuguesa susceptível de ser lida por crianças: Poesia para a Infância (1955), reeditada, em 1974, com novas composições. Por outro lado, não enjeitou a criação literária destinada a leitores adultos, de que é exemplo o seu livro de ficção narrativa, Fogueira de Lenha Verde (1979), contos de implicação autobiográfica, centrados na condição feminina e escritos, alguns muito tempo antes da edição em livro (vieram a lume na Eva, no Mundo Literário e noutras publicações periódicas), numa época em que a reflexão sobre os direitos da mulher estava longe de ter o acolhimento que hoje se conhece. Editou ainda Douro Encantado (1967), um sentido tributo à sua região natal.

Por tudo isto, Alice Gomes é uma autora a ler, a reler, a reeditar. E é, por outra parte, uma personalidade inquieta, rica e multifacetada que importa redescobrir.

Notas

1 Segundo testemunho do sobrinho, José Pedro Gomes Santos Carvalho (filho de Berenice Pereira Gomes), colhido em 6-7-2010, Joaquim terá aderido ao PCP em 1936, informação cuja fonte é António Dias Lourenço, seu companheiro de luta nos anos trinta e quarenta.

2 Sobre o tema, leia-se o artigo de Elisabete França (1990: 40-44).

3 Confirmada pelo sobrinho, José Pedro Gomes Santos Carvalho, em testemunho referido na nota anterior. Confronte-se, a este propósito, as versões aparentemente contraditórias que podemos ler no mesmo autor (Pereira, 2001: 858-859; e Pereira, 2005: 43-44).

Testemunho de José Pedro Gomes Santos Carvalho, colhido em 6-7-2010.


Referências bibliográficas

FRANÇA, Elisabete (1990). «Memória de Esteiros do Tejo: um cenário com figuras», DN Magazine (revista do Diário de Notícias), n.º 217, 25/11, pp. 40-44.
PEREIRA, José Pacheco (2001). Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política: «Duarte», o Dirigente Clandestino. Lisboa: Temas e Debates.
PEREIRA, José Pacheco (2005). Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política: O Prisioneiro. Lisboa: Temas e Debates.
REIS, Manuela Câncio (2007). A Passagem: Uma Biografia de Soeiro Pereira Gomes. Lisboa: Caminho.
RICCIARDI, Giovanni (1999). Soeiro Pereira Gomes: Uma Biografia Literária. Lisboa: Caminho.
RIOS, Alice (2008). Famílias Tradicionais do Porto. Porto: Autor (vol. I).
RIOS, Alice (2009). Famílias Tradicionais do Porto. Porto: Autor (vol. II).
ROCHA, Ilídio (coord.) (1998). Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Mem Martins. Europa-América, vol. IV.



José António Gomes
IEL-C (Núcleo de Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)