segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

«Nada é mais vivo / do que um poema» – lendo ‘Vasos Comunicantes: Diálogo Poético’, de António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa

nada é mais vivo 

do que um poema 

rápido como um pássaro                                                            

que salta sobre o teu joelho 

e o debica e foge sem deixar sinal 

 

António Ramos Rosa

Vasos Comunicantes: Diálogo Poético (p. 50)


Quem conheça a trajectória de António Ramos Rosa (1924-2013) regista certamente as vezes – várias foram – em que o poeta de Viagem através de Uma Nebulosa se dispôs a um diálogo poético com outras vozes, a que o ligavam, além dos vínculos propriamente literários, os afectivos. Em 1986, chegou a publicar um livro inteiro de composições dedicadas a um companheiro de geração, em que interagia com a sua poética: Vinte Poemas para Albano Martins. E assinou, em co-autoria, livros com Casimiro de Brito, com Maria Teresa Dias Furtado, com Isabel Aguiar Barcelos e com Robert Bréchon; aconteceu também com sua mulher, Agripina Costa Marques, tendo ambos colaborado, num livro, com António Magalhães e, noutro, com Carlos Poças Falcão. Uma prática talvez estimulada quer pela personalidade aberta do poeta, dialogante, generosa, genuinamente interessada em «escutar» e/ou activar a poesia de outros – os citados e os que leu nos seus ensaios de Poesia Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real I e II (1979 e 1980) e Incisões Oblíquas (1987) – quer pelo fascínio que terá experimentado por certas práticas de criação em parceria, que aliás já vêm dos antigos gregos – nomeadamente a poesia alternada: o canto amebeu (do grego amoibaíos, «alternativo», pelo latim amoebaeu-). Assinale-se ainda, de passagem, a escrita a várias mãos de alguns poetas de movimentos de vanguarda do século XX, em especial dos surrealistas – e recordo aqui que o grande tradutor que Ramos Rosa também foi verteu para português, por exemplo, a poesia de Paul Éluard, em Algumas das Palavras (1969), a par do conhecido ensaio-antologia de Franco Fortini intitulado O Movimento Surrealista (1965). Talvez valha a pena sugerir uma explicação mais para a receptividade à colaboração com outras vozes: a hipótese de o criador desse inesquecível verso que é «Estou vivo e escrevo sol», em certos momentos, sentir a sua própria criatividade estimulada, desafiada pela palavra poética de outros.
 
Em Vasos Comunicantes: Diálogo Poético – inicialmente saído em 2006 e trazido de novo a lume em 2017 pela Poética Edições, de Braga, numa edição bilingue –, António Ramos Rosa abriu-se uma vez mais a uma criação a dois (poesia alternada), desta feita com sua sobrinha, Gisela Gracias Ramos Rosa, estabelecendo com ela um fecundo diálogo, traduzido, na íntegra, para castelhano por Santiago Aguaded Landero e Adrián G. da Costa. De assinalar, ainda, que a edição, além de um prefácio de Maria Teresa Dias Furtado e do fac-símile de um dos manuscritos, inclui desenhos de António Ramos Rosa. Nesses desenhos, surgem motivos que de algum modo celebram a comunhão humana e afectiva e o diálogo poético (observe-se o par de rostos), essa espécie de íntima conversa a dois feita de palavras, mas também dos sentimentos, gestos e olhares que perpassam os textos. Leia-se, no poema «Pela janela de Gisela» (p. 214), um exemplo disso, que a utilização frequente da segunda pessoa do singular, nesta e noutras composições, inscreve num registo conversacional marcado pelo afecto: 

 

Contigo a meu lado eu estou contigo 

tu és uma fonte de cintilante frescura 

 

A tua amizade é uma estrela subtil 

a tua atenção é a lâmpada de uma flecha estridente 

o teu sorriso estala como uma estilha colorida 

que reacende a minha inocência adolescente 

 

Contigo a meu lado o tempo tem outro espaço 

e o aroma de uma fábula de outra vida 

de uma cor leve de laranja  

 

Para a voz que se exprime nos textos de António Ramos Rosa (não indiferente à rima a que o nome da sobrinha quase convida), Gisela é uma «janela» aberta para o mundo, que permite a entrada desse mundo no espaço existencial e poético daquela voz e motiva a tessitura de um mundo novo. Mas Gisela é também «uma rapariga com os seus gestos de elegância leve / de estatueta viva / que irradia com os seus olhos claros / perfeitos e inacabados / poderia ser a princesa de um ribeiro / A sua voz é límpida e sorri / através dos seus lábios silenciosos» (p. 34). Em passagem de outro texto do poeta algarvio, é evocada, na sua concretude, a situação da construção do livro a dois:
 

Tu e eu e eu sei que és tu só poderias ser tu 

em que reconheço a ternura vigilante da tua companhia habitual 

tu que vens de longe da tua casa para passares ao computador os meus poemas 

e ris comigo rindo e conversando 

com os sorrisos e as exclamações da tua ternura encantada,  

e pela percepção subtil da minha poesia e a música do teu aparelho portátil 

aligeiras graciosamente as tardes do meu fim de semana 

e levas contigo a memória de um encontro fraterno 

que não podes esquecer e por isso te lembras daquele que sem ti seria mais só  
       [infinitamente perdido 

na sua árida solidão

 

Já numa composição de Gisela Ramos Rosa (p. 48), coroada por uma epígrafe de Octavio Paz, intui-se o modo de gestação e evolução de uma escrita tecida à sombra luminosa (passe o oxímoro) de um grande poeta: 


As palavras movem-se como grãos  

na areia de um tempo não decifrado 

algumas são pedras polidas  

num rio de signos 

outras são o barro maleável 

pelo plasma da terra 

ou voam ainda “por caminhos de pássaros” 

numa lenta lenda que une o vento e o sol  

o mar e a terra

 

Gisela lê poetas e outros magos da palavra (Mallarmé, Michaux, Octavio Paz, Edmond Jabès, Clarice Lispector, Salah Stétié, Daniel Faria, os Upanixades hindus, o próprio tio) e deixa-se impregnar dos seus versos – como no texto citado –, cita-os em epígrafe, glosa-os, como modo também de estimular e pontuar a vivência poética experimentada a dois. E responde ao desafio que lhe é colocado, desvelando um pouco da sua intimidade e atribuindo quer à escrita quer à presença inspirada e inspiradora do poeta com que lida, dia após dia, um mágico poder curativo:

 

A mulher que escutas na janela do tempo

lavra a dor com um vibrante sorriso interior 

cantando a melodia do não dito 

com a língua dos silêncios encontrada 

a chama desse corpo aceitou o infinito azul  

e renasceu com a magia de um templo antigo 

quebrando os muros com a subtil harmonia dos anjos 

e se nos seus dedos vislumbras o azul e em seus olhos uma ferida viva 

dir-te-ei que o sorriso transmutou a dor ao encontrar-te 

na unidade originária dos poemas 

na bondade nua que nutres com as mãos 

 

e a janela solitária entreaberta revelando o ar 

é agora uma porta aberta para o mar 

descobrindo a magia do tempo horizontal (p. 32)

 

Vasos Comunicantes é, além do mais, a representação de uns laços que se vão tecendo no tempo – e que passam por um processo de sedução recíproca (a título de exemplo, releia-se o fragmento citado em epígrafe a este texto, bem como a bela imagem de Gisela que se descobre a páginas 190, numa escrita que algo de lúdico tem também). Progride-se na relação humana, as alusões ao corpo são mais frequentes e o vocativo Gisela vai-se tornando recorrente. A relação afectiva, e não apenas poética, converte-se em mais um fio brilhante que se irá insinuando, com naturalidade, na tessitura da escrita. 
 
Em certos momentos, é possível ler também uma espécie de afectuosa educação poética de Gisela, bem como a iluminada reacção que ela provoca. Aqui e acolá esboça-se como que um guia para conhecer o real – e a própria escrita – que leva a voz dos poemas de António Ramos Rosa a declarar o que se segue, numa das mais importantes composições do livro (algo como um texto-lição), precisamente o intitulado «Gisela» (pp. 76-77): «a vida que nós vivemos é que é o obstáculo permanente / ao milagre de um instante do real absoluto / mas o que é a realidade nós não o sabemos» (p. 77).
 
Caracterizando-se pela sua forte natureza metapoética, em Vasos Comunicantes, dir-se-ia que a escrita é como que busca ou construção permanente de um real em que o «milagre» seja possível, um real, por um lado, ancorado ao mundo e à sua linguagem, mas à beira, em simultâneo, de a qualquer momento se liberar do peso insuportável desse mesmo mundo por via de uma linguagem fundadora. Foi sempre assim, aliás, que li parte significativa da poesia de António Ramos Rosa; e é evidente que a de Gisela Gracias Ramos Rosa não poderia escapar a esse íman, por de mais tentador, do sortílego discurso do autor de O Grito Claro. Discurso onde o leitor reencontra quer o tónus metafórico quer certos termos nucleares a que, ao longo dos anos, os seus livros nos foram habituando, palavras detentoras de toda uma densidade semântica e simbólica, musicalmente insinuantes, como horizonteespaçocavalolâmpadasangue, frescura e muitas outras, das quais se nutre essa «escrita-construtora-de-mundo(s)» que, digo eu, é a de António Ramos Rosa.
 
Talvez uma composição sintetize a poética deste livro (e eu ousaria quase dizer: da própria obra do autor de Ciclo do Cavalo), uma poética à qual a poeta que é Gisela Gracias Ramos Rosa não logra ela própria, e ainda bem, furtar-se:
 

Gisela o poema é uma estranheza 

uma diferença extrema e indiferente 

entre um grito e uma sombra 

o esplendor de um fruto de um rio branco 

em cada palavra o timbre de uma pedra 

o indivisível timbre de uma pedra 

e a chama de um vento de uma sede irreparável (p. 72) 

 

A escrita poética como desejo-em-acção, conhecimento e invenção de mundos, logo como expressão de uma energia vital (sangue é, neste livro, uma das palavras fortes), na óptica das composições de António Ramos Rosa; por outro lado, a escrita como espaço de descoberta de si («quem sou eu? / Sou talvez o centro de um jardim perdido / descubro agora o mundo / no voo de uma interrogação sem fim», p. 28), descoberta do outro, do próprio mistério da criação poética, em processo dialógico com outras poéticas, isto nos textos assinados por Gisela Ramos Rosa – são alguns dos veios temáticos que atravessam Vasos Comunicantes. Mas sem dúvida que, em ambas as vozes aqui escutadas, é possível reconhecer uma visão da escrita como espaço de liberdade, de construção, de poiesis – que, parece-me, foi sempre um tópico caro ao poeta de Clareiras. Mas, noutro plano, é evidente também, no livro, a atracção da voz mais velha pelo frescor e pelo halo de uma voz mais jovem, situação que proporciona, na obra, um tocante contraste de registos. A páginas 80 do seu livro As Palavras mais Simples (Poética, 2014), Gisela Gracias Ramos Rosa escreve: «Escrever é uma âncora / para o corpo que flui, raiz do universo.». A frase talvez traduza o essencial do que a poeta nos oferece neste que foi, de algum modo, o seu livro de estreia (iniciado em 2004, Vasos Comunicantes foi publicado pela primeira vez em 2006), e no qual se lê, quase no final, este breve poema, quase um haiku:

 

Com as palavras acaricio o sol 

e os gestos nascem  

como os da corola de um girassol (p. 216)

 

É de acrescentar que muitos casos existem em que um poema responde ao que o anterior exprimira e isso faz com que se reconheça, neste livro, uma dimensão conversacional / comunicacional mais acentuada (e até, talvez, mais intimista) do que noutras obras assinadas em co-autoria por António Ramos Rosa e por outros poetas – o que confirma o acerto da escolha do título e do subtítulo: Vasos Comunicantes: Diálogo Poético.
 
No seu prefácio, Maria Teresa Dias Furtado sublinha bem tanto o principal eixo temático do livro como a sua natureza dialógica, bem como a relação da obra com a poética de António Ramos Rosa: «Todo o livro trata, poeticamente, de “o poema que estamos a conjugar” (A.R.R.). No primeiro poema intervêm tanto António (1.ª e 3.ª estrofes) como Gisela (2.ª estrofe) – é o único a quatro mãos, que abre o diálogo no seu próprio seio. À questão: “Qual é a chama de todas as fontes? (...)”, responde a 2.ª estrofe: “Chamo sol a essa chama (...)”, que é acolhida com novas questões na 3.ª. De novo e sempre a “Interrogação do Real”, esse sulco profundo que o poeta tem aberto através da sua obra.» (p. 8)
 
O autor de O Incêndio dos Aspectos partiu em 2013, não sem antes nos ter legado mais alguns volumes de poesia e muitos desenhos, alguns dos quais exibidos em exposições organizadas por Gisela Gracias Ramos Rosa. Mas, em 2006, ano da publicação do livro que aqui me ocupa, e por ocasião de uma homenagem em Lisboa, era possível ler num texto noticioso 1, não assinado, saído no jornal Público: «Ramos Rosa ouviu-os em silêncio. E depois, para uma plateia a abarrotar, começou por uma pergunta: “Como é que um velho pode nascer?” Um artifício para perguntar: “Como é que eu com esta idade posso nascer?” || Pela poesia, responde, no dia seguinte, numa curta conversa por telefone. || Pode estar frágil fisicamente mas mantém vigor para se insurgir contra a “ditadura da banalidade”. Porque foi a banalidade que levou algumas pessoas a queixarem-se de que a poesia moderna “é incompreensível”, contestou na terça-feira, quando recebeu também a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura (no início do mês recebeu o Prémio de Poesia do PEN Clube Português).»
 
Diria que, também durante a escrita de Vasos Comunicantes, produzido já na fase final da sua vida, é bem provável que António Ramos Rosa tenha pensado: «Como é que eu com esta idade posso nascer? Pela poesia». Naturalmente, contra a «ditadura da banalidade». E é bem verdade que, neste livro, terá nascido mais uma vez. Graças, também, à presença, à amizade e à palavra poética da sua sobrinha Gisela Gracias Ramos Rosa.
 

Nota

 

1 «António Ramos Rosa “Como é que um velho pode nascer?”», Público, 22/10/2006. Disponível em https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/antonio-ramos-rosa-como-e-que-um-velho-pode-nascer-103418 (acedido em 13-4-2017).

 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Talvez, neste Natal

 

TALVEZ, NESTE NATAL 



Talvez este Natal nos anoiteça,

por momentos nos mergulhe

em águas fundas

e nos faça descrer do mundo que ideámos.


Mas talvez uma semente luminosa, 

chegada essa hora cor de terra, 

consiga germinar

no ileso fulgor duma lembrança.


Talvez ela dê fruto num sorriso, 

num gesto quase irmão,

num olhar de súbito sem sombra;


ou talvez se transforme em velho estábulo, 

em árvore luzente ou numa estrela

para guiar amanhã os nossos passos.



2020


Texto por João Pedro Mésseder 



A equipa da Inocência Descompensada deseja a todos os nossos leitores um Feliz e Santo Natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Musa Irregular, de Fernando Assis Pacheco: um belo presente de Natal


Um grande livro de poesia, unanimemente saudado, em vários momentos, é A Musa Irregular: edição aumentada (Tinta da China, 2019), de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), com um excelente posfácio, arguto e iluminador, de Manuel Gusmão, e edição, rigorosa, da responsabilidade de Abel Barros Baptista. Inclui, como o subtítulo indica, textos que antes não figuravam em livro.


Além de notável jornalista, crítico e tradutor, Fernando Assis Pacheco foi poeta de excepção (ainda que o tenha sido em «tom menor», como assinala Gusmão) e novelista bem singular, quer em Walt (1978) quer na obra-prima Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993). Da geração de Manuel Alegre, Rui Namorado, António Manuel Lopes Dias, José Carlos de Vasconcelos, José Manuel Mendes (que no espaço coimbrão tiveram uma das suas matrizes literárias), foi talvez a voz poética que de modo mais intenso e dramático abordou a Guerra Colonial, e o consequente medo da morte, mas ao mesmo tempo foi lírico de inegável finura e rigor de expressão, além de voz satírica, de sentido de humor indeclinável (mesmo quando tocado pela amargura) e de peculiar criatividade linguístico-discursiva. 

Não é possível esquecer tal voz nem os seus poemas sobre a prisão política. Assis Pacheco foi um poeta que, além do mais, não quis dissociar escrita e vida (no fundo o tema maior da sua poesia) e que não se tomava demasiado a sério, sendo capaz de inteligentemente rir de si mesmo. Como nos rimos nós também – ou pelo menos sorrimos, quando não choramos – ao ler esta poesia que não faz lembrar nenhuma outra, e que proporciona um prazer de leitura que é tudo menos comum. 

 

José António Gomes

 

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Companhia (I)limitada, de João Pedro Mésseder

Companhia (I)limitada é uma recolha de mais de duas dezenas de poemas, editada numa nova colecção da Página a Página, cujo nome é todo um programa: "Des-confina-mente". Marcados pela variedade formal, entre o longo e o muito breve, os poemas de Mésseder aludem criticamente a realidades sociais diversas, muitas delas dolorosas e politicamente perigosas, que a pandemia do COVID-19 agravou, nos planos nacional e internacional. Contra a epidemia do medo e a retórica do isolamento, contra as tentativas de silenciar o protesto e a reivindicação, estes versos deixam no ar uma nota de esperança, que se pode ler nos poemas "Prece" ou "Quando isto um dia passar". Poesia, em suma, para manter a mente desconfinada, como o nome da colecção sugere.

 

Revista Diagonal, 3.ª série, n.º 5, Novembro de 2020, secção Sugestões de Leitura. 

 

 

(…) Poemas da pandemia, a companhia que se torna ilimitada, pela resistência poética que nasce do saber, que, mesmo  num mundo rarefeito, por pouco mais que tenhamos, temos ao menos as palavras: e que podemos fazer delas sempre outras. Há sempre a hipótese de aduzir uma errata ao mundo, como no poema final. Um livro em que se transformam os tempos da pandemia verdadeiramente em resistência poética. (…)

 

Rita Taborda Duarte, 2020


O livro Companhia (I)limitada pode ser adquirido aqui.




terça-feira, 20 de outubro de 2020

Nos 100 anos de Castrim, um “novo” livro: Novelas

                                                Mário Castrim, Ria de Aveiro, 1968

Comemora-se, este ano, o centenário do nascimento de Manuel Nunes da Fonseca (Ílhavo, 31 de Julho de 1920 – Lisboa, 15 de Outubro de 2002), que usou o pseudónimo Mário Castrim, tendo sido escritor, jornalista, conhecido crítico de televisão (antes e depois do 25 de Abril de 1974), professor, e tendo alcançado merecido reconhecimento enquanto original autor de livros para a infância e a juventude. Várias efemérides, aliás, têm assinalado a comemoração dos seus 100 anos – mas, vá-se lá saber porquê, não se espere encontrar matéria publicada, ou áudio, nos media dominantes, mesmo nos media culturais. Esses mesmo media que têm aliás ignorado outros centenários importantes, como os de Mário Sacramento ou de Sidónio Muralha, igualmente assinalados este ano. 

Além de estimável, por vezes surpreendente (e militante) poeta (por exemplo em Do Livro dos Salmos (2007) ou em Mais Poemas do Avante! (2020), recolha recentemente publicada pelas Edições Avante!),  Mário Castrim foi um prosador/contador de muito mérito. Evidenciam-no as suas narrativas para jovens O Cavalo do Lenço Amarelo É Perigoso (1971), emblemática parábola sobre o direito à vida e à liberdade, O Caso da Rua Jau (1994), em torno da escola anterior ao 25 de Abril e da escola já em democracia, ou ainda Váril, o Herói (1994), misto de romance de aventuras e de conto maravilhoso tradicional de matriz mitológica que, declinando a condição todo-poderosa dos deuses, afirma a vontade humana de viver uma existência plena. E estes são apenas alguns exemplos dos seus livros em prosa.

 

Ora é, justamente, em torno do «ofício de viver» (vou buscar o título de Pavese) e de sobreviver, das voltas do amor e do desamor, dos conflitos relacionais, dos muitos e diversos quotidianos lisboetas, é em torno disso e de muito mais que se movem as prosas de Novelas (Página a Página, 2020) – recolha de textos curtos, não raro bem-humorados, como era timbre de Castrim, saídos, no final da década de 90, no jornal 24 Horas. 

 

O título é um pouco ludibriador, pois aqui o sentido de novela não remete propriamente para aquele género narrativo tradicional de todos conhecido, mais longo que o conto, menos extenso que o romance, mas sim para um certo sentido comum e popular do termo, quando, a propósito dum enredo, dum novelo amoroso ou doutro tipo, que se estende no tempo e evoca episódios telenovelescos, dizemos algo como: «Ui, foi cá uma novela!». 

 

Trata-se portanto de 145 narrativas breves mas não superficiais, de leitura prazerosa e fácil, situadas entre o conto e a crónica jornalística inspirada no real quotidiano, conjunto a que não falta sequer um episódio da clandestinidade comunista de meados da década de 60 e outras alusões à condição militante do autor. 

 

É isto o que Novelas essencialmente nos propõe. Em boa hora, pois, se resgatou este conjunto de textos à efemeridade do jornal e se lhe conferiu a dignidade, merecida, do volume impresso. A maneira ideal de comemorar o centenário de um antifascista e democrata, de alguém que sempre se preocupou ao longo da vida em estimular o pensamento crítico, e de um poeta e prosador de méritos reconhecidos. 

 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Louise Glück (n. New York, EUA, 1943) – Dois poemas da Prémio Nobel da Literatura 2020

 






 

 

 

Confissão

Dizer que nada temo

seria faltar à verdade.

A doença, a humilhação

assustam-me.

Tenho sonhos, como qualquer pessoa.

Mas aprendi a ocultá-los

para me proteger

da plenitude: a felicidade

atrai as Fúrias.

São irmãs, selvagens,

que não têm sentimentos,

apenas inveja.

 

 

Primeira recordação

 

Há muito tempo fui ferida. Vivi

para me vingar

do meu pai, não

por aquilo que ele era

mas pelo que fui eu: desde o começo dos tempos,

na infância, acreditei

que a dor significava

que eu não era amada.

Significava que eu amava.

 

 

 

Versão portuguesa: José António Gomes

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Paco Ibañez: o que a muitos revelou o que é a poesia


Em 2019, celebrou-se um aniversário bem especial: os cinquenta anos da inesquecível actuação de Paco Ibañez no Olympia, de Paris, a 2 de Dezembro de 1969, um ano e tal após o Maio de 68. A recente reedição do disco Paco Ibañez en el Olympia (Paris) tornou-se, por isso, um acontecimento.

Sobre o enorme Paco Ibañez explore-se o seu bem organizado sítio oficial na Internet e leia-se o que Saramago e outros acerca dele disseram.  Detestado pelo franquismo, pelas direitas e pelo corrupto PP, tolerado (mas mal) pelo PSOE, Paco Ibañez é das figuras maiores da cultura ibérica (eu diria europeia). É aquele que a muitos revelou o que era a poesia e, sobretudo, a grande lírica de língua castelhana, que ele musicou e cantou como ninguém: Góngora, Quevedo, Arcipreste de Hita, Jorge Manrique, Machado, Lorca, Hernández, Alberti, Cernuda, Celaya, Léon Felipe, José Agustín Goytisolo, Blas de Otero, Gloria Fuertes, o cubano Nicolás Guillén, o chileno Neruda e muitos, muitos outros – basta consultar a impressionante antologia de poemas em língua castelhana noutras línguas a que o génio do compositor/cantor/guitarrista valenciano deu inigualável moldura musical e voz.  

Não foram poucos os que, graças a Ibañez, começaram a conhecer a riqueza do Romanceiro popular espanhol, a poesia do Siglo de Oro (séculos XVI-XVII: Quevedo, Góngora…) ou as poéticas das Gerações espanholas de 98 (Machado, por exemplo) e de 27 (Lorca, Alberti, Cernuda…) – sobre as quais haveriam de tombar os espectros da Guerra Civil, da perseguição e do exílio. Mas o cantor foi, ainda é, excepcional veículo de divulgação de muitos daqueles poetas que ao franquismo se opuseram nos anos de brasa: décadas de 40 a 70 do século XX (como Celaya ou Goytisolo). Alguém que veio pôr em evidência a nobreza e grandeza estética do canto de luta e de protesto, dando a ver a criação poética como o acto de rebeldia que também é.

Leitor admirável de poesia, Paco Ibañez constitui a síntese genial de uma voz de timbre único e de um notável talento de compositor de canções e de tocador de guitarra, bem como de adequação da estrutura melódica ao conteúdo e ao perfil formal do poema, sem descurar o seu registo próprio, seja ele mais trágico, mais satírico ou mais interventivo. 

Nas suas canções cruzam-se tradições e veios diversos: Georges Brassens (a quem Paco chama o J. S. Bach dos cantautores), a ‘chanson’ francesa e a música de intervenção espanhola e sul-americana, o flamenco e o folcore musical ibérico. Filho de republicanos (pai exilado), Ibañez – que conheceu bem a chilena Violeta Parra em Paris, no início da década de 60, como aliás conheceu Luís Cília e admirou José Afonso – converter-se-ia num dos incontornáveis cantautores do nosso tempo, voz rebelde e interventiva, internacionalista e sempre firme no seu afrontamento do fascismo, das forças do capital e do imperialismo, empenhada voz, acima de tudo, na incitação ao sentido crítico e ao amor pela grande poesia.  

Escute-se este jogral dos tempos modernos, por exemplo, em duas das suas canções mais emblemáticas: «Lo que puede el dinero» poema do Arcipreste de Hita (c. 1284-c.1351), e «Don Dinero», de Francisco de Quevedo (1580-1645), que funcionam hoje como certeiras críticas e condenações do capitalismo burguês e dos seus mais perversos efeitos na alma humana.



José António Gomes

CIPEM | INET-md (IPP e UNL) e IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto