
Histórias para Uma Noite de Calmaria (Lisboa: Assírio & Alvim, 2002), com tradução de Mário Rui Oliveira, é uma obra enigmática e desafiadora, merecedora de leitura tão atenta como a que reclamam outros livros de Tonino Guerra publicados em português: O Livro das Igrejas Abandonadas (Lisboa: Assírio & Alvim, 1997) e O Mel (Lisboa: Assírio & Alvim, 2003), originalmente escrito em romagnolo.
Em Portugal, e sobretudo entre os cinéfilos, o autor, italiano, é (re)conhecido como argumentista. Não estamos, porém, ante um qualquer script writer, relegado nos filmes para um quase anonimato face ao peso do nome, mais ou menos afirmativo, de um realizador de nomeada. Poeta nascido em 1920, Tonino Guerra viveu a Segunda Guerra e a experiência dos campos de concentração. Trabalhou mais tarde com directores de cinema tão importantes como Michelangelo Antonioni ou Federico Fellini, e cada um dos seus argumentos deixou uma marca indelével na película respectiva.
Ora quem ama, por exemplo, o cinema de Antonioni dificilmente ficará indiferente à poética de Tonino Guerra. É que cada uma das brevíssimas histórias deste livro (algumas delas em verso) parece conter em potência um filme ou uma sequência do realizador de Blow-Up. E um dos traços que os aproximam tem que ver, por exemplo, com a atracção pelos cenários desolados, desérticos e abandonados (v. O Livro das Igrejas Abandonadas), pelo vazio, pelo silêncio, pela imobilidade: «Começou a desligar-se das coisas e dos homens. Olhava o jovem vaqueiro no rio e sabia que apenas podia admirá-lo, em seus gestos com o boi, mas não aproximar-se. Assim como da rapariga que, da árvore, colhia cerejas. Como se o ar formasse um muro diante de si. Então fixou a água, que a seus pés corria, e a água já não reflectia a sua própria imagem.» («A imobilidade», p. 47).
Algumas histórias têm a aparência de parábolas e por detrás de certas cenas pressente-se por vezes como que a sombra de algo de divino, a que a arte verbal veio dar forma. De outras desprende-se uma dor imensa ou um sentimento que outras palavras, diferentes das do texto, não lograriam traduzir: «Quando o camponês descobriu que a mulher o traiu, obrigou-a a preparar a mesa para três. E durante o resto da vida comeram contemplando, diante deles, o terceiro prato vazio.» («Os três pratos», p. 71).
Quase todas estas micro-histórias se caracterizam pelo seu sentido difuso; outras ainda são comoventes episódios do quotidiano, abordando questões como o amor, a morte, a passagem do tempo e a opacidade do real. Aqui e acolá, um poema surpreende-nos. Diga-se, de passagem, que tanto a qualidade poética da escrita, como a ambiguidade semântica e esses múltiplos sentidos que cada composição em si concentra nos fazem sentir estes textos mais como poemas, em prosa ou em verso, do que como contos. Impossíveis de parafrasear, quase todos nos confrontam com uma espécie de segredo ou de enigma, escondido atrás de uma porta que o texto apenas admite entreabrir. As «histórias» de Tonino Guerra deixam o silêncio respirar.
José António Gomes
NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)