
A perplexidade sobre as cores que o mundo nos oferece ocupa a primeira parte do volume, associando um significado metafórico a cada uma delas, tantas vezes adoptando uma preocupação social, fazendo jus à ideia de que toda a escrita é, afinal, necessariamente uma escrita política, mesmo quando os seus meandros são necessariamente subtis. Leia-se, a propósito o poema citado: «Se é negra /a fome // porque é branca / a cor / do que não come?» ou «Deus / não tem cor. // Repartiu-a / em mil pigmentos / pelos homens.». Com um dos poemas desta primeira parte dedicado à Guerra Civil de Espanha, outros com referências literárias especificadas (José Gomes Ferreira, Rimbaud, Alexandre O’Neill), esta primeira parte do livro expõe-se como uma perplexidade perante a cor e perante a palavra que a diz, numa procura de sentidos sinestésicos, a descobrir símbolos novos, mostrando que a capacidade de ter um olhar de estranheza sobre o mundo é o que distingue o olhar do poeta:
Não há cor
que mais emigre
do que o negro.
Não há cor
mais expulsa
do que o negro.
Não há cor
que mais se afogue
do que o negro.
Nem cor
que o mar
mais devore.
Não há cor
que mais emigre
do que o negro.
Não há cor
mais expulsa
do que o negro.
Não há cor
que mais se afogue
do que o negro.
Nem cor
que o mar
mais devore.
A segunda parte do livro, «Ilhas de Deus» prossegue nesta perplexidade de um olhar sobre o mundo e na exímia capacidade de dizer o máximo com o mínimo, através de poemas que atingem a proeza de iluminar percepções sobre pequenos pormenores de espaços, de sítios únicos, individualizados, que se tornam ilhas, pontos únicos na percepção do poeta. Leia-se, a título de exemplo, o curto poema dedicado ao parlatório da prisão de Peniche:
O parlatório
da prisão
de Peniche
tão perto
do mar
que não se aquieta.
O parlatório
da prisão
de Peniche
tão perto
do mar
que não se aquieta.
Rita Taborda Duarte