domingo, 10 de maio de 2020

Medula, um livro diferente, de Manuel Silva-Terra

«O poeta não escreve. O poeta anula a linguagem. (…) O poeta é o sacerdote de uma religião sem Deus.» Assim principia em tom aforístico, a pp. 11, Medula (Licorne, 2019), de Manuel Silva-Terra (n. Orvalho, Beira Baixa, 1955).  

Pouco tempo decorrido após ter trazido a lume a primeira edição deste livro, o escritor publica a segunda, inserindo, na página de rosto, esta curiosa (e bem-humorada) nota em contra-corrente, a qual muito diz sobre quem a redige e sobre o modo como encara o exercício da criação literária: «2.ª edição corrigida, transformada e diminuída».

O título, por outro lado, configura todo um programa, conotando ideias de âmago, essencialidade, interioridade e abrindo pistas para a leitura de uma escrita que se distingue não apenas pela busca da beleza e da singularidade expressiva, mas também pelo elemento meditativo. E já agora, acrescente-se, por uma espécie de (auto)pedagogia do olhar, e por uma defesa da condição da arte e do artista dignas de nota, isto sem esquecer a ligação à terra (que o nome utilizado pelo autor aliás sugere) e a um certo imaginário meridional. 

Cruzamento de poesia e discurso filosófico, e até sapiencial, Medula é um livro belíssimo, que assume o seu cunho fragmentário e poliédrico como uma poética à-vista-de-todos, sendo semanticamente denso mas, em simultâneo, de uma textualidade aberta – o que torna a leitura especialmente desafiadora e cortejadora do desejo de ler.   

A um certo tipo de leitores, será grato encontrar aqui uma procurada diversidade formal: poemas médios-curtos, alguns próximos do tanka, haikus, aforismos, poemas em prosa muito breves e tudo isto dialogando com um mosaico de citações de nomes referenciais (Bashô, Angelus Silesius, Camões, S. João da Cruz, Hölderlin, Emily Dickinson, Melville, Nietzsche, Rilke, Kafka, Unamuno, Machado, Wittgenstein, Cioran, Camus… – aqueles talvez que o sujeito da escrita tira da mochila, como afirma a pp. 20, os que de algum modo lhe servirão de companhia e, porventura, de farol). Integram ainda a ossatura textual de Medula narrativas breves, por vezes com algo de parábola. Um fragmento (p. 12):

Um homem sem idade, porque os pedintes e os sem-abrigo, como é este homem, não tem dias. Só têm rugas, barba e cabelos grandes. Cabelos brancos e desgrenhados, barba branca por aparar.
Cruzaram-se os dois homens ao final do dia, nos subúrbios da cidade. 
O homem bem vestido regressava a casa, depois de mais um dia de trabalho no escritório. 
O homem dito sem-abrigo empurrava um carrinho de supermercado cheio de caixotes com os seus poucos haveres. Havia uma semana que estava em viagem. Tinha atravessado a ponte a pé, com os seus sacos às costas. Foi mandado parar e identificado pela Guarda. Continuou. No primeiro supermercado que encontrou à beira da estrada, tranquilamente encheu um carrinho de compras vazio com os seus sacos e caminhou durante uma semana. 
– Assim se imaginou o homem de fato e gravata.

Leia-se outro fragmento, bem diverso, do ponto de vista formal (na sequência de um poema (p. 122) escrito após o desaparecimento físico de Leonard Cohen), um belo texto em verso que muita coisa pode evocar, começando pelo caminho que lhe é aberto pela isotopia musical, mas que é muito sugestivo e expressivo no seu lirismo e na sua aparente simplicidade discursiva: «Tocas as cordas mais sensíveis / fazes sangrar a madeira / tão antiga com seus veios quentes / sua resina translúcida.» (p. 123). 

Neste livro, talvez mais do que noutros do autor, parece existir uma vontade intensa de problematização existencial, de meditação centrada no modo-humano-de-ser-sujeito-no-tempo – um eixo que não abdica de certas fontes do conhecimento antropológico e do pensamento religioso. 

Trata-se ainda de um livro muitas vezes – não sempre – tocado pelo desencanto, mas, repita-se, desafiador. Um dos aspectos mais insinuantes prende-se com aquele que é o modo de olhar a que dá expressão, o seu imaginário poético e a maneira como ele se traduz em formulações e estruturas imagéticas e discursivas muito próprias, às quais não falta certa dimensão gnómica.

De referir, já agora, muito de passagem, o influxo orientalizante desta escrita, tanto através do diálogo com textos sagrados de diversas tradições, como por via dos vários haikus (ou textos próximos do haiku) que aqui descobrimos, incluindo uma versão de Bashô (p. 109):

Divino é aquele
que perante o relâmpago
nada sabe.

A propósito desta última nota, direi que Manuel Silva-Terra é também tradutor, ou antes, autor de versões de textos orientais, como confirmam as suas belíssimas antologias As Cigarras Vão Morrer – haiku: uma antologia (Casa do Sul, 2008) e Primeiro Amor e Outros Poemas (Licorne, 2013), selecção de haikus de um dos mestres nipónicos, Yosa Buson (1716-1783); bem como versões/recriações de grande poesia chinesa, como a de Wang Wei (699-759), em Habitar o Vazio (Licorne, 2018), e de Tu Fu (712-770), em Entre Céu e Terra – Transgressões de Manuel Silva-Terra (Licorne, 2020). Saliente-se ainda O Círculo do Amor(Licorne, 2016), de Rumi (1207-1273), nascido em Balkh, no actual Afeganistão.

Professor de Filosofia, editor, antologiador – relembre-se ainda o belo E o Céu Tão Baixo – uma antologia poética sobre o Alentejo (Casa do Sul, 1999) – e com catorze títulos editados, Manuel da Silva-Terra é uma das vozes da poesia portuguesa contemporânea que não podem ser ignoradas. Últimos títulos vindos a lume: )Condomínio( (2013), Pastor de Pedras(Licorne, 2014), Canto Chão (Licorne, 2016) e Medula (Licorne, 2019). 

A terminar, fique registado o link para uma das principais chancelas editoriais portuguesas de poesia, a Editora Licorne: https://editoralicorne.blogspot.com/

José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)