
Não é raro os discursos da cultura de massas surgirem habitados por uma agudeza de observação e um sentido intuitivo surpreendentes, que de quando em vez encontram meios ideais de expressão, como acontece na canção pop e noutras modalidades da chamada «arte popular».
De aparência estilisticamente rudimentar, este modo sintético e muito eficaz de traduzir a «verdade» sociológica (ou até política) de um tempo impõe-se e fica a ecoar na memória.
Sob a forma de uma cantiga, por exemplo, e recorrendo a lugares comuns do linguajar urbano, a estribilhos que são autênticos achados, à anadiplose, à repetição, ao inevitável diminutivo e a jogos rimáticos elementares, restituem-se os essenciais contornos de um período histórico, uma dinâmica social, uma certa cultura, uma sensibilidade… Um arco que vai de Capri, c’est fini a Maria Albertina, passando por L’Amour en Fuite (de Alain Souchon) para nos atermos à esfera da canção dita popular.
Maria Albertina
Maria Albertina
Deixa que eu te diga
Esse teu nome eu sei que
Não é um espanto
Mas
É cá da terra e tem
Tem muito encanto
Maria Albertina
Como foste nessa
De chamar Vanessa
À tua menina?
Maria Albertina
Deixa que eu te diga
Esse teu nome eu sei que
Não é um espanto
Mas
É cá da terra e tem
Tem muito encanto
Maria Albertina
Como foste nessa
De chamar Vanessa
À tua menina?
Que é bem cheiinha
E muito moreninha
Que é bem cheiinha
E muito moreninha
António Variações | Humanos, As Canções que António Variações nunca Gravou, 2004
José António Gomes
NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)