quinta-feira, 4 de julho de 2013
Para além do amor, de Maria Lamas
sexta-feira, 22 de março de 2013
ÓSCAR LOPES (Leça da Palmeira, 2 de Outubro de 1917, Porto, 22 de Março de 2013)
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Manuel António Pina (1943-2012) | O Caminho de Casa
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Maria Keil (1914-2012)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Do “aguaceiro de espanto”
Conheço poucas cidades tão convertidas (ia a dizer: embebidas) em literatura como o Porto, esse “aguaceiro de espanto”, para usar a expressão de José Efe. E manter uma cidade nessa substância conservante, assuma ela a forma que assumir, tem óbvias consequências. Mais do que preservar a urbe, mitifica-a, inscreve-a, indissipável, no nosso imaginário – cada uma das vozes que se erguem a coser novas folhas aos cadernos dessa bíblia interminável. Sem querer ser exaustivo, lembro alguns dos que mais contribuíram para o maravilhoso livro-do-Porto-e-redondezas: Fernão Lopes, Garrett, Camilo, Júlio Dinis, Nobre, Raul Brandão, Pascoaes, José Gomes Ferreira, Ruben A., Sophia, Sena, Eugénio de Andrade, Agustina, Rebordão Navarro, Luísa Dacosta, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, Mário Cláudio, Viale Moutinho, Carlos Tê e tantos outros. E isto para não falar dos que, a seu modo mais historicizante ou cronístico, acrescentam novas páginas a esse grande livro, como Germano Silva ou Hélder Pacheco. Ou dos que, como Sérgio Godinho, deram em tempos à cidade a forma de canção.
No seu Porto sem Filtro seguido de onze histórias extra ordinárias (Mosaico, 20111), José Efe vem juntar o seu nome a este ilustre cortejo, fazendo-o de modo singular ao tecer aquilo a que chamarei pequenas vinhetas em prosa quase sempre poética, que logram mesmo, em alguns casos, atingir a quinta-essência do poema em prosa. No final, o conjunto arquiva ainda onze crónicas breves a que o Autor – num divertido jogo semântico – chama, e bem, “histórias extra ordinárias”. Porque o são de facto, ao resgatarem do esquecimento certos tipos e figuras que raiam a lenda; ou ao cristalizarem em texto, noutros casos, “aves raras” ainda hoje reconhecíveis nos esconsos meandros do Porto. Gente singular como o Dominó, a Lili Balboa ou o Anselmo Fragateiro, com que o burgo portuense enriquece a galeria dessa inesquecível fauna humana, situada entre o cómico, o comovente e o grotesco, que povoa todas as cidades dignas de tal nome. (E sublinhe-se, desde já, a qualidade e variedade de estilos patentes na série de ilustrações que, assinadas por diferentes artistas, iluminam esta secção do livro.)
Como mestre do olhar que é, Gaspar de Jesus conhece a complexidade das cores e luzes deste Porto e, talvez por isso, tenha optado pelo preto-e-branco nas suas fotografias de invulgar factura. É que o claro-escuro deste registo é, talvez, o modo único de captar tal complexidade, deixando ao observador a liberdade de imaginar os matizes cromáticos da cidade às diferentes horas do dia; mas levando-o, ao mesmo tempo, a fixar-se nas “coisas antigas” do Porto, no pormenor surpreendente, que convida o leitor a firmar a consciência de um património único. Por outro lado, tais instantâneos inserem-se numa linhagem – a que vem dos primórdios de uma fotografia que, desde o século XIX, não cessou de tentar captar a-preto-e-branco – cores do sonho e da memória – os poéticos contornos, umas vezes fantasmáticos, outras vezes de leveza inigualável, desta cidade, ela também feita de sombras e de luzes. De facto, e por razões que não consigo explicar bem (ou talvez conseguisse, noutro espaço que não este), o Porto da minha infância, a cidade inscrita nas minhas lembranças, quando dela me distancio, é sempre um pouco este Porto de Gaspar de Jesus, que ora se deixa seduzir pelos cinzas do seu granito antigo, ora pelos brancos que vibram sobre um fundo de céu de chuva, ora ainda pela humidade especular do pavimento.
É com tais imagens que se casam as vinhetas em prosa de José Efe – um cultor da brevidade que, desde 1999, nos vem dando a ler pequenos livros de uma poesia depurada e estimável, como No Teu Rosto Quase Ileso (1999), Fenda Acesa (2001) e Seiva Rugosa (2006). A leitura progride e, repentinamente, a prosa cede lugar, por uma única vez, ao poema em verso, numa das mais belas composições do livro, dedicada a um “rosto” paradigmático da cidade, o Douro: “Sobre o Douro / em cinza / flutua o casario / esgrouviadas ruelas / de pedra puída / cerzidas pelas sombras / dos rabelos / – o rosto da cidade.”
À semelhança do que acontecia nos títulos de poesia citados, a demanda da essência prossegue neste Porto sem filtro, cujo título – resultante de um jogo irónico e feliz, de tabágicas ressonâncias – nos remete para a singularidade de dois olhares sem mediação. Olhares próprios, diria: o do fotógrafo e o do escritor, capazes de nos dar a conhecer mais um Porto, o seu Porto. Uma essência, em suma, resultante da apropriação e recriação a que ambos procedem de alguns dos mais emblemáticos lugares e criaturas da cidade.
Outros Portos existem, sem dúvida, como o do aprazível jardim da agitada Praça Marquês de Pombal junto à casa de Marques da Silva; o das quintas agrícolas de Paranhos (ou o que resta delas); ou o Porto operário e popular da Fontinha e do Bonjardim (tão decrépito), a juntar ao de S. Roque, Corujeira e Campanhã, com o seu belo vale a traçar com doçura a fronteira que separa este de outros concelhos; ou ainda o Porto oitocentista de Cedofeita, e o Porto burguês, de verniz moderno e cosmopolita (sê-lo-á?), que principia na Boavista – e cujos motes são hoje a Casa da Música e o museu de Serralves. Mas, em busca da essência, José Efe e Gaspar de Jesus inclinam-se para o coração da cidade, o centro histórico e seus prolongamentos: margens do Douro, pontes aladas, Sé, Ribeira, a camiliana Rua das Flores (a mais bela do Porto, onde o caminhante se detém e medita: “preciso dar tempo ao meu tempo”), a que se juntam a colmeia comercial de Santo Ildefonso, a sala de visitas que é a Praça da Liberdade, a Lapa, a zona do Palácio de Cristal, o eixo que termina na Rotunda da Boavista, com o leão e a águia a inspirarem o texto “Estátua”…
E é esta peregrinação – a um tempo trabalho do olhar, da memória e do sonho – que comovidamente nos permite revisitar-recriar recantos, cenários, monumentos; restaurantes históricos e tascas; barbearias, feirinhas e cheirosas mercearias de fachada e montra antigas; cafés provectos onde os vivos dão descanso convivial ao corpo e à mente, e cemitérios onde os mortos “escuta[m] o silêncio” (leia-se, a propósito, o micro-conto “Cemitérios”, pequeno prodígio de humor-negro)…
Mas, nestes espaços e edifícios, estão quase sempre as gentes (ou a recordação delas) e as suas festas mais profanas do que sacras (como o S. João), gerações que umas às outras se sucedem, mantendo os lugares vivos, habitados e habitáveis. Gente que os povoa (como os Mimos da baixa e os gaiatos da Ribeira) ou povoou num passado ainda recente (como o Duque da Ribeira e os doutores das lápides do Piolho), gente que arquitectou, construiu, deixou um nobre recorte (como Nasoni)… Neste Porto que é tempo e memória, passado e presente, não poderiam faltar os animais, em especial essa tribo dilecta dos poetas que é a dos gatos, tão essenciais à fisionomia da cidade que ela própria com um felino se confunde, num sugestivo passo que é também apontamento aforístico sobre a sua identidade: “O Porto, gato vadio, de quando em quando perde o norte: nunca o rumo.”
Gosto, em suma, destas vinhetas que me trazem o Porto, o meu e o de outros, mas que deixam sempre aberta uma janela para a deriva pessoal e para um olhar mais atento (não por acaso, vários são os textos que terminam com uma interrogação, explícita ou implícita).
Gosto deste Porto indefinível, ou apenas dizível por imagens, sinestesias, exclamações emotivas, jogos de palavras: “O Bolhão é a seiva rugosa do Porto.”; “O Porto é templo de igrejas.”; “Quando batem as horas e os sinos tangem, o silêncio estremece. Eco molhado, cor de frio, tece a memória do burgo nas suas sombras tristes”.
Gosto deste Porto que me transporta ao tempo da meninice e da ilusão de liberdade, em prosas como “Eléctricos” e “Palácio de Cristal” (“Recordar o velho Chico e o exaurido leão é voltar à infância.”)
Gosto, enfim, deste Porto-sem-filtro dos sentidos, este Porto à flor da pele, à flor do ouvido, das narinas e dos olhos inebriados.
Nota
1 O presente texto constitui o prefácio escrito para a obra.
FOTOGRAFIA de José Paulo Andrade | Ribeira, Fevereiro de 2007.
José António Gomes
NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A propósito do 94.º aniversário de Óscar Lopes

No passado 2 de Outubro de 2011, celebrou-se o 94.º aniversário de Óscar Lopes, figura ímpar das nossas letras e ensaísta de reconhecido prestígio a quem – recorde-se –, por iniciativa do infatigável editor José da Cruz Santos e da Cooperativa Árvore, se prestou, entre os dias 10 e 14 de Outubro de 2007, um tributo à altura da dimensão científica, cívica e pessoal do homenageado. Indissociável da valiosíssima obra realizada, a trajetória da vida de Óscar Lopes impõe-se-nos como um exemplo de verticalidade e inteireza moral. Até porque ela se distingue, desde logo, pelo modo como soube alicerçar um excepcional percurso de investigação e docência – em áreas como as Ciências da Linguagem, a Historiografia e a Crítica Literárias – numa visão mais ampla do mundo, determinada pela condição de marxista e de militante comunista de longa data.
Neste momento – e em jeito de breve homenagem – limito-me, pois, a duas notas. Ler o autor de Ler e Depois, assistir às suas conferências (ouvi-o falar de Aquilino, Torga, Eugénio de Andrade e de tantos outros) ou escutar as palavras por ele proferidas em ocasiões em que é objeto de homenagens públicas (palavras que não hesitam, quando necessário, em fazer luz sobre o estado do mundo) constitui uma aventura. A aventura de seguir o rasto de uma inteligência que a todo o momento convoca elementos das mais inesperadas áreas do saber (filosofia, história, economia, física e química, linguística, história da língua, etc.), a fim de lançar luz sobre as tessituras literárias. Escutar e ler Óscar Lopes é testemunhar um pensamento que se desdobra e expande com rigor e coerência, de modo lúcido (palavra cuja remota raiz é a lux, lucis latina) e irradiante. É testemunhar um sentido que se constrói na pista de outro sentido e uma inteligência verbal sem paralelo. É dar graças por estar vivo e poder pensar com as palavras do outro. E é sentir que certos gestos de partilha e de procura de diálogo não têm retribuição possível.
Ao lembrar, por outro lado, o resistente antifascista (que a ditadura salazarista e marcelista prendeu, perseguiu e prejudicou profissionalmente), ao lembrar o homem de bem, o combatente pela liberdade, pela democracia e pela justiça social, direi contudo que «revolucionário» continua a ser aquela palavra incómoda, ou quase, quando se aborda, no aconchego dos salões e dos auditórios académicos, a personalidade e a obra ímpares de Óscar Lopes. (Neste ponto, nada de diferente do que ocorre ou ocorreu com outras figuras, como Maria Lamas, José Gomes Ferreira ou Fernando Lopes-Graça, para apenas citar dois exemplos.)
Quando o registo mais pessoal e íntimo ganha primazia, muitos dos seus discípulos e colegas evocam, e bem, o homem bom e íntegro, o lutador coerente e generoso, atento em permanência ao outro, animado de uma curiosidade ilimitada (reverso da sua simplicidade e natural modéstia). E falam então do homem doce e de olhar vivo, que ama as crianças, os gatos, o chá e as camélias. Do apaixonado pela música (Bach, Mozart, Corelli…) e pela pintura (Paul Klee…). E eis-nos aqui, no terreno da unanimidade. Tudo isto – e não seria pouco – bastaria para dar sentido a uma vida. E ninguém ousará negar a excecionalidade deste complexo de humanas qualidades. Em que, no entanto, os dons e o talento intrínsecos se viram não só modelados por um contexto familiar e local (recorde-se a pobre gente de Leça da Palmeira, onde Óscar Lopes nasceu, e que tantas vezes evoca em entrevistas), mas também afeiçoados por uma educação e um percurso de socialização, em convivência e aprendizagem com os outros. Importa por isso que aquele discurso dos afetos não sirva – como tantas vezes sucede – para deixar na sombra outras realidades: a do homem que assim é e assim se fez porque, neste ponto, a sua personalidade é comparável à própria literatura enquanto criação humana. E, «na literatura, como em geral na cultura, pode sempre distinguir-se uma ideologia, quer dizer, um conjunto de intenções historicamente determinadas, uma visão geral e discutível da realidade e das aspirações humanas» (faço questão de citar palavras da primeira edição que conheci da História da Literatura Portuguesa, 6.ª ed., Porto Editora, s.d., p. 9). Ora, a condição de comunista que Óscar Lopes afirmou desde jovem, com a naturalidade, simplicidade e coragem que lhe são próprias, constitui o fundamento de uma ética, de uma certa maneira de estar na crítica e na investigação, como na vida e na acção política. Porque o seu tempo – não o esqueçamos – é ainda o tempo de Bento de Jesus Caraça, Abel Salazar, Mário Sacramento, Maria Lamas, Ruy Luís Gomes, Armando de Castro ou Fernando Lopes-Graça. Figuras inesquecíveis do século XX português, que nunca dissociaram a cultura científica da cultura humanística e artística. Nem a investigação e a intervenção cultural do exercício de uma cidadania corajosa ao lado do povo com o qual quiseram e souberam aprender. Também por isso, Óscar Lopes é um exemplo para os dias por vir, porque sempre se situou nos antípodas de um modo individualista e egocêntrico, imodesto e oportunista de estar na vida e na academia, na crítica, na cultura. Modo este que não poucos dos seus discípulos e confrades das letras lamentavelmente preferiram adoptar.
José António Gomes
NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto



