quinta-feira, 4 de julho de 2013

Para além do amor, de Maria Lamas



Maria Lamas
Nascida em Torres Novas em 1893 e falecida em Lisboa em 1983, Maria Lamas foi, além de antifascista e democrata, escritora e jornalista de mérito: trabalhou em O Século, dirigiu, até 1947, Modas & Bordados, com grande sucesso, imprimindo a este semanário feminino uma nova e mais correcta orientação, e dirigiu ainda a revista Mulheres, criada em 1976. Além da sua escrita para crianças e jovens e dessas duas obras monumentais que são As Mulheres do Meu País (1950) e As Mulheres no Mundo (1952), da sua obra de criação literária para adultos cumpre destacar o livro de poesia Humildes (1923), os romances Diferença de Raças (1923), O Caminho Luminoso (1928), Para além do Amor (1935) e A Ilha Verde (1938).
Destas narrativas, Para além do Amor (reedição: Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003), cuja acção se inicia na ambiência genesíaca e erotizante do Buçaco e se transfere depois para o Estoril e Lisboa, com uma incursão também num meio fabril dos arredores, afirma-se como pioneiro trabalho de ficção sobre os dilemas de uma personagem burguesa e católica, Marta. Casada com um industrial incapaz de reconhecer a sua individualidade de pessoa e de mulher, Marta equaciona uma alternativa de vida, que acaba por apontar para dois rumos.
Por um lado, o amor por outro homem, revelação de todo um mundo novo, tanto no plano afectivo e passional, como no do respeito mútuo – mundo esse que, no entanto, nunca a fará abrir mão da sua condição de mãe. Por outra parte, a entrega a um pensamento social e, finalmente, à acção, já que a relação amorosa de Marta com Gabriel – que não conhecerá um happy end – fará nela desabrochar uma renovada atenção aos outros, em especial aos deserdados, a quem os bens de uma vida digna, com educação e cultura, são negados, por razões sociais e económicas.
Com uma recepção crítica que, à época, se dividiu face à desassombrada tematização do adultério e do papel da mulher na sociedade (v. Vasques, 2003), Para além do Amor é, além disso, um libelo contra uma moral burguesa esclerosada, patriarcal e machista, que almeja manter a mulher num limbo doméstico, reduzida ao papel de mãe e esposa, limitada à superficialidade de relações sociais de classe (a burguesia) e condenada a uma existência vazia no plano afectivo. Para conferir autenticidade a estas tensões psicológicas e sociais, a autora adopta um registo confessional, intimista e reflexivo, que a narração autodiegética potencia.
Um romance, pois, a reler, não tanto pela sua arquitectura diegética relativamente elementar, mas mais pelo seu pendor reflexivo, sobretudo no que toca à condição da mulher, em anos em que assumir tal posição constituía ainda um acto de insubmissão e de coragem.


Referência bibliográfica

VASQUES, Eugénia (2003). «Um crime de lesa romance (Maria Lamas 1893-1983)», prefácio a Lamas, Maria. Para além do Amor. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, pp. 7-28.



José António Gomes
NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

sexta-feira, 22 de março de 2013

ÓSCAR LOPES (Leça da Palmeira, 2 de Outubro de 1917, Porto, 22 de Março de 2013)



Abril. Sempre.

A etimologia não resolve nada só por si, mas levanta pistas, às vezes insuspeitas, às vezes óbvias mas esquecidas.
Por exemplo, o título desta colectânea1. Sempre. Na sua origem latina mais antiga, há um elemento sem – que, curiosamente, está também na base de semelhante, de simultâneo e de singular. A noção fundamental que lhe corresponde é a de uma unidade, singularidade ou conjunção, seja no espaço seja no tempo. O segundo elemento, per (em latim a palavra é semper), assinala uma ideia de duração, ou antes perduração, ou trajectória, através de vários lugares, tempos ou vicissitudes. Sempre exprime, portanto, uma unidade perduradoira através (ou apesar) das vicissitudes, uma unidade de mudança, uma unidade dialéctica e não substancial, ou, se preferem, substancialmente dialéctica, sem definição subsistente, porque apenas subsiste em redefinição constante.
Abril era o segundo mês do calendário anual romano. O ano cíclico actual foi adiantado de dois meses, e por isso em Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro assinalam erradamente, na sua designação, respectivamente, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo mês. Segundo uma etimologia popular, registada pelo primeiro grande linguista romano, Varrão, o mês de Abril, em latim Aprilis, teria este nome porque nele ver omnia aperit: «a Primavera abre tudo». Quando Ary dos Santos fala nas «portas que Abril abriu» não está, portanto, a fazer um simples jogo de paronímia, ou semelhança verbal, está (talvez sem dar por isso) a reactivar a carga etimológica tradicional do nome do mês, dando-lhe uma conotação que o liga ao maior (e até hoje melhor) acontecimento histórico do Portugal moderno.
Mas o próprio Varrão aponta que, numa origem mais remota e inaparente, o nome Abril se relaciona com o nome Afrodite, o nome grego da deusa do amor. Os filólogos modernos parecem dar-lhe razão; o nome Abril relaciona, entre si, o abrir das corolas, o abrir dos dias à inundação solar, o abrir às seivas nas veredas vegetais, e o tumultuar do amor no sangue, seiva animal e humana. Num belo poemeto de Os Amantes sem Dinheiro que tem precisamente o nome deste mês e que data de 1947-49, Eugénio de Andrade diz:

Abril anda à solta dos pinhais
Coroado de rosas e de cio,
E num salto brusco, sem deixar sinais,
Rasga o céu azul num assobio

Estes versos retomam uma vivência de tradição inconsciente e agarrada ao próprio nome do mês, nome que se julga ter nascido de algo como uma redução afectiva, meiga, ou hipocorística, Aphrô, do nome de Afrodite.
Abril, sempre: o borbulhar cíclico da esperança, que se impõe mesmo antes de pensar-se, por impulso genésico incontível, através de todos os meandros da história. A certeza de que viver faz sentido, mesmo que não se saiba qual, e às vezes não pareça. Um sentido tão evidente como é evidente o seu contrapólo: a morte, as mil mortes da limitação individual, da inabilidade, do fiasco, da decrepitude, da doença, da opressão ou exploração, da mentira, da traição, do egoísmo de classe.
Não há amor feliz, disse Aragon, e é verdade. Também não há amor sem a certeza da sua razão, que nunca se conhece. Primeiro vive-se, depois é que se vive – pensando. O próprio prazer é tardio, é já, se calhar, um começo de velhice. O desejo não se liga na sua fonte juvenil a uma fruição: o amor, qualquer amor, urge-nos, e dói. Todo o amor é, não um erro, mas uma errância, e tem a sua imagem clássica nos errores de Ulisses, Eneias ou dos Lusíadas, com passagem por uma (ou mais que uma) ilha Edénica, uma ilha Afortunada, uma ilha da Perfeição, que satura sempre, porque é dada, e não feita, e os humanos não se contentam com menos do que com uma candidatura ao divino. O encanto de uma corola, um rosto, de uma liberdade entrevista, dói-nos, como a ansiedade de fazer o que se não sabe fazer, nem como fazer.
Abril. Sempre. Através de todos os errores. Certo na hora incerta. Como a morte, tal qual. Porque a resgata.
                                                                  
Nota
1 Este texto de Óscar Lopes foi inicialmente publicado em AA VV. Sempre. Porto: Comissão Promotora das Comemorações Populares do XII Aniversário do 25 de Abril, 1986, p. 16.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012) | O Caminho de Casa


Em O Caminho de Casa (Lisboa: Frenesi, 1989), de Manuel António Pina, a tematização da infância (da busca da infância) e da quase impossibilidade de reencontro do sujeito consigo mesmo, descobre-se em «Kindergarten», o décimo primeiro poema, datado de Berlim, do ano de 1983: «Também eu ou alguém brincou há muito tempo / em outro jardim, brincando, / Sem que palavras lá estando? / Fora de que memória não me lembrando?» (p. 16). Essa dificuldade do regresso à infância radica num certo efeito de estranheza relativamente à imagem do sujeito projectada pela memória. Porque este parece não se reconhecer no retrato que a lembrança lhe devolve.
Em articulação com este tópico, emerge o motivo do duplo, tão comum, aliás, na obra narrativa de Pina (veja-se a novela juvenil Os Piratas, de 1986, e as suas histórias infantis): «Aproximam-se as horas do silêncio / e do ruído, e fico só de novo. / Abro a janela e fecho alguma coisa / (provavelmente a infância) dentro d’alma. // Talvez não passe tudo de memória, / de coisas de que Alguém se recordasse, / a minha vida, os dias e as noites, / e a minha própria infância me faltasse.» (p. 11)
Na esteira ainda do primeiro Modernismo (e de Pessoa, é claro), esta poesia coloca-nos, frequentes vezes, na vizinhança daquele sentimento de dispersão com que certos poemas de Mário de Sá-Carneiro também nos confrontam, muito embora dela se encontre ausente a radicalidade do autor de Indícios de Oiro. Recordo o seu célebre poema: «Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.» (Poemas Completos. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 80)
A admitir-se certa radicalidade, ela residirá, antes, numa tentativa antiga de destruição da memória ou de algumas das imagens que ela restitui. No centro dessas imagens, o próprio sujeito. Ou o outro? Recue-se a 1974, ao primeiro livro de Manuel António Pina: «Estou sempre a falar de mim ou não. – O meu trabalho / é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra. / Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal / normalmente regresso a casa tarde, doente.» (Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco Tarde (1974), 2.ª ed., Porto: A Erva Daninha, 1982, p. 17).
O poeta reescreve-se, portanto. Daí, também, a retoma de elementos anteriores, como «o caminho de casa», título do poema que dá nome ao seu livro de 1989. Já não se trata, contudo, de um regresso «doente», como em Ainda Não É o Fim..., mas antes de uma espécie de conformação com a dispersa complexidade de um sujeito que se admite, admitindo o outro em si, fonte inesgotável do autoconhecimento: «Volto de noite para casa. / Tudo é memória fora de mim / ou onde em mim alguém conduz / fisicamente o automóvel. // (...) Subindo as escadas grave e inocente / como quem volta à noite para casa / e voltando para casa inteiramente / e adormecendo em mim como em casa?» (p. 18)
Deixemos, contudo, que o poema nos abandone no limiar de outra dimensão sugerida pelo simbolismo da casa e do adormecimento, o território onde os extremos parecem enfim tocar-se. O regresso a casa é o retorno a um espaço protetor, materno: à terra da infância?, ou ao derradeiro lugar do corpo, após a morte, a terra-mãe?, ou a ambos? Ao leitor de O Caminho de Casa caberá encontrar porventura respostas (?), noutros livros de Manuel António Pina.

José António Gomes
(Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Maria Keil (1914-2012)


MARIA E MATILDE

À memória de Maria Keil e da sua amiga Matilde Rosa Araújo

O desenho é um passo,
é um salto, é uma asa;
a palavra é um fio
de azul melodia.
E ei-las que dançam,
Matilde e Maria,
lá onde os seus livros
pousarem no colo
e se abrirem aos olhos
- uns olhos que sonhem -
de qualquer menina.

Bruxelas-Porto, 11-6-2012 (o dia a seguir àquele em que Maria Keil nos deixou)

João Pedro Mésseder

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Do “aguaceiro de espanto”

Conheço poucas cidades tão convertidas (ia a dizer: embebidas) em literatura como o Porto, esse “aguaceiro de espanto”, para usar a expressão de José Efe. E manter uma cidade nessa substância conservante, assuma ela a forma que assumir, tem óbvias consequências. Mais do que preservar a urbe, mitifica-a, inscreve-a, indissipável, no nosso imaginário – cada uma das vozes que se erguem a coser novas folhas aos cadernos dessa bíblia interminável. Sem querer ser exaustivo, lembro alguns dos que mais contribuíram para o maravilhoso livro-do-Porto-e-redondezas: Fernão Lopes, Garrett, Camilo, Júlio Dinis, Nobre, Raul Brandão, Pascoaes, José Gomes Ferreira, Ruben A., Sophia, Sena, Eugénio de Andrade, Agustina, Rebordão Navarro, Luísa Dacosta, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, Mário Cláudio, Viale Moutinho, Carlos Tê e tantos outros. E isto para não falar dos que, a seu modo mais historicizante ou cronístico, acrescentam novas páginas a esse grande livro, como Germano Silva ou Hélder Pacheco. Ou dos que, como Sérgio Godinho, deram em tempos à cidade a forma de canção.

No seu Porto sem Filtro seguido de onze histórias extra ordinárias (Mosaico, 20111), José Efe vem juntar o seu nome a este ilustre cortejo, fazendo-o de modo singular ao tecer aquilo a que chamarei pequenas vinhetas em prosa quase sempre poética, que logram mesmo, em alguns casos, atingir a quinta-essência do poema em prosa. No final, o conjunto arquiva ainda onze crónicas breves a que o Autor – num divertido jogo semântico – chama, e bem, “histórias extra ordinárias”. Porque o são de facto, ao resgatarem do esquecimento certos tipos e figuras que raiam a lenda; ou ao cristalizarem em texto, noutros casos, “aves raras” ainda hoje reconhecíveis nos esconsos meandros do Porto. Gente singular como o Dominó, a Lili Balboa ou o Anselmo Fragateiro, com que o burgo portuense enriquece a galeria dessa inesquecível fauna humana, situada entre o cómico, o comovente e o grotesco, que povoa todas as cidades dignas de tal nome. (E sublinhe-se, desde já, a qualidade e variedade de estilos patentes na série de ilustrações que, assinadas por diferentes artistas, iluminam esta secção do livro.)

Como mestre do olhar que é, Gaspar de Jesus conhece a complexidade das cores e luzes deste Porto e, talvez por isso, tenha optado pelo preto-e-branco nas suas fotografias de invulgar factura. É que o claro-escuro deste registo é, talvez, o modo único de captar tal complexidade, deixando ao observador a liberdade de imaginar os matizes cromáticos da cidade às diferentes horas do dia; mas levando-o, ao mesmo tempo, a fixar-se nas “coisas antigas” do Porto, no pormenor surpreendente, que convida o leitor a firmar a consciência de um património único. Por outro lado, tais instantâneos inserem-se numa linhagem – a que vem dos primórdios de uma fotografia que, desde o século XIX, não cessou de tentar captar a-preto-e-branco – cores do sonho e da memória – os poéticos contornos, umas vezes fantasmáticos, outras vezes de leveza inigualável, desta cidade, ela também feita de sombras e de luzes. De facto, e por razões que não consigo explicar bem (ou talvez conseguisse, noutro espaço que não este), o Porto da minha infância, a cidade inscrita nas minhas lembranças, quando dela me distancio, é sempre um pouco este Porto de Gaspar de Jesus, que ora se deixa seduzir pelos cinzas do seu granito antigo, ora pelos brancos que vibram sobre um fundo de céu de chuva, ora ainda pela humidade especular do pavimento.

É com tais imagens que se casam as vinhetas em prosa de José Efe – um cultor da brevidade que, desde 1999, nos vem dando a ler pequenos livros de uma poesia depurada e estimável, como No Teu Rosto Quase Ileso (1999), Fenda Acesa (2001) e Seiva Rugosa (2006). A leitura progride e, repentinamente, a prosa cede lugar, por uma única vez, ao poema em verso, numa das mais belas composições do livro, dedicada a um “rosto” paradigmático da cidade, o Douro: “Sobre o Douro / em cinza / flutua o casario / esgrouviadas ruelas / de pedra puída / cerzidas pelas sombras / dos rabelos / – o rosto da cidade.”

À semelhança do que acontecia nos títulos de poesia citados, a demanda da essência prossegue neste Porto sem filtro, cujo título – resultante de um jogo irónico e feliz, de tabágicas ressonâncias – nos remete para a singularidade de dois olhares sem mediação. Olhares próprios, diria: o do fotógrafo e o do escritor, capazes de nos dar a conhecer mais um Porto, o seu Porto. Uma essência, em suma, resultante da apropriação e recriação a que ambos procedem de alguns dos mais emblemáticos lugares e criaturas da cidade.

Outros Portos existem, sem dúvida, como o do aprazível jardim da agitada Praça Marquês de Pombal junto à casa de Marques da Silva; o das quintas agrícolas de Paranhos (ou o que resta delas); ou o Porto operário e popular da Fontinha e do Bonjardim (tão decrépito), a juntar ao de S. Roque, Corujeira e Campanhã, com o seu belo vale a traçar com doçura a fronteira que separa este de outros concelhos; ou ainda o Porto oitocentista de Cedofeita, e o Porto burguês, de verniz moderno e cosmopolita (sê-lo-á?), que principia na Boavista – e cujos motes são hoje a Casa da Música e o museu de Serralves. Mas, em busca da essência, José Efe e Gaspar de Jesus inclinam-se para o coração da cidade, o centro histórico e seus prolongamentos: margens do Douro, pontes aladas, Sé, Ribeira, a camiliana Rua das Flores (a mais bela do Porto, onde o caminhante se detém e medita: “preciso dar tempo ao meu tempo”), a que se juntam a colmeia comercial de Santo Ildefonso, a sala de visitas que é a Praça da Liberdade, a Lapa, a zona do Palácio de Cristal, o eixo que termina na Rotunda da Boavista, com o leão e a águia a inspirarem o texto “Estátua”…

E é esta peregrinação – a um tempo trabalho do olhar, da memória e do sonho – que comovidamente nos permite revisitar-recriar recantos, cenários, monumentos; restaurantes históricos e tascas; barbearias, feirinhas e cheirosas mercearias de fachada e montra antigas; cafés provectos onde os vivos dão descanso convivial ao corpo e à mente, e cemitérios onde os mortos “escuta[m] o silêncio” (leia-se, a propósito, o micro-conto “Cemitérios”, pequeno prodígio de humor-negro)…

Mas, nestes espaços e edifícios, estão quase sempre as gentes (ou a recordação delas) e as suas festas mais profanas do que sacras (como o S. João), gerações que umas às outras se sucedem, mantendo os lugares vivos, habitados e habitáveis. Gente que os povoa (como os Mimos da baixa e os gaiatos da Ribeira) ou povoou num passado ainda recente (como o Duque da Ribeira e os doutores das lápides do Piolho), gente que arquitectou, construiu, deixou um nobre recorte (como Nasoni)… Neste Porto que é tempo e memória, passado e presente, não poderiam faltar os animais, em especial essa tribo dilecta dos poetas que é a dos gatos, tão essenciais à fisionomia da cidade que ela própria com um felino se confunde, num sugestivo passo que é também apontamento aforístico sobre a sua identidade: “O Porto, gato vadio, de quando em quando perde o norte: nunca o rumo.”

Gosto, em suma, destas vinhetas que me trazem o Porto, o meu e o de outros, mas que deixam sempre aberta uma janela para a deriva pessoal e para um olhar mais atento (não por acaso, vários são os textos que terminam com uma interrogação, explícita ou implícita).

Gosto deste Porto indefinível, ou apenas dizível por imagens, sinestesias, exclamações emotivas, jogos de palavras: “O Bolhão é a seiva rugosa do Porto.”; “O Porto é templo de igrejas.”; “Quando batem as horas e os sinos tangem, o silêncio estremece. Eco molhado, cor de frio, tece a memória do burgo nas suas sombras tristes”.

Gosto deste Porto que me transporta ao tempo da meninice e da ilusão de liberdade, em prosas como “Eléctricos” e “Palácio de Cristal” (“Recordar o velho Chico e o exaurido leão é voltar à infância.”)

Gosto, enfim, deste Porto-sem-filtro dos sentidos, este Porto à flor da pele, à flor do ouvido, das narinas e dos olhos inebriados.

Nota

1 O presente texto constitui o prefácio escrito para a obra.

FOTOGRAFIA de José Paulo Andrade | Ribeira, Fevereiro de 2007.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A propósito do 94.º aniversário de Óscar Lopes

No passado 2 de Outubro de 2011, celebrou-se o 94.º aniversário de Óscar Lopes, figura ímpar das nossas letras e ensaísta de reconhecido prestígio a quem – recorde-se –, por iniciativa do infatigável editor José da Cruz Santos e da Cooperativa Árvore, se prestou, entre os dias 10 e 14 de Outubro de 2007, um tributo à altura da dimensão científica, cívica e pessoal do homenageado. Indissociável da valiosíssima obra realizada, a trajetória da vida de Óscar Lopes impõe-se-nos como um exemplo de verticalidade e inteireza moral. Até porque ela se distingue, desde logo, pelo modo como soube alicerçar um excepcional percurso de investigação e docência – em áreas como as Ciências da Linguagem, a Historiografia e a Crítica Literárias – numa visão mais ampla do mundo, determinada pela condição de marxista e de militante comunista de longa data.

Neste momento – e em jeito de breve homenagem – limito-me, pois, a duas notas. Ler o autor de Ler e Depois, assistir às suas conferências (ouvi-o falar de Aquilino, Torga, Eugénio de Andrade e de tantos outros) ou escutar as palavras por ele proferidas em ocasiões em que é objeto de homenagens públicas (palavras que não hesitam, quando necessário, em fazer luz sobre o estado do mundo) constitui uma aventura. A aventura de seguir o rasto de uma inteligência que a todo o momento convoca elementos das mais inesperadas áreas do saber (filosofia, história, economia, física e química, linguística, história da língua, etc.), a fim de lançar luz sobre as tessituras literárias. Escutar e ler Óscar Lopes é testemunhar um pensamento que se desdobra e expande com rigor e coerência, de modo lúcido (palavra cuja remota raiz é a lux, lucis latina) e irradiante. É testemunhar um sentido que se constrói na pista de outro sentido e uma inteligência verbal sem paralelo. É dar graças por estar vivo e poder pensar com as palavras do outro. E é sentir que certos gestos de partilha e de procura de diálogo não têm retribuição possível.

Ao lembrar, por outro lado, o resistente antifascista (que a ditadura salazarista e marcelista prendeu, perseguiu e prejudicou profissionalmente), ao lembrar o homem de bem, o combatente pela liberdade, pela democracia e pela justiça social, direi contudo que «revolucionário» continua a ser aquela palavra incómoda, ou quase, quando se aborda, no aconchego dos salões e dos auditórios académicos, a personalidade e a obra ímpares de Óscar Lopes. (Neste ponto, nada de diferente do que ocorre ou ocorreu com outras figuras, como Maria Lamas, José Gomes Ferreira ou Fernando Lopes-Graça, para apenas citar dois exemplos.)

Quando o registo mais pessoal e íntimo ganha primazia, muitos dos seus discípulos e colegas evocam, e bem, o homem bom e íntegro, o lutador coerente e generoso, atento em permanência ao outro, animado de uma curiosidade ilimitada (reverso da sua simplicidade e natural modéstia). E falam então do homem doce e de olhar vivo, que ama as crianças, os gatos, o chá e as camélias. Do apaixonado pela música (Bach, Mozart, Corelli…) e pela pintura (Paul Klee…). E eis-nos aqui, no terreno da unanimidade. Tudo isto – e não seria pouco – bastaria para dar sentido a uma vida. E ninguém ousará negar a excecionalidade deste complexo de humanas qualidades. Em que, no entanto, os dons e o talento intrínsecos se viram não só modelados por um contexto familiar e local (recorde-se a pobre gente de Leça da Palmeira, onde Óscar Lopes nasceu, e que tantas vezes evoca em entrevistas), mas também afeiçoados por uma educação e um percurso de socialização, em convivência e aprendizagem com os outros. Importa por isso que aquele discurso dos afetos não sirva – como tantas vezes sucede – para deixar na sombra outras realidades: a do homem que assim é e assim se fez porque, neste ponto, a sua personalidade é comparável à própria literatura enquanto criação humana. E, «na literatura, como em geral na cultura, pode sempre distinguir-se uma ideologia, quer dizer, um conjunto de intenções historicamente determinadas, uma visão geral e discutível da realidade e das aspirações humanas» (faço questão de citar palavras da primeira edição que conheci da História da Literatura Portuguesa, 6.ª ed., Porto Editora, s.d., p. 9). Ora, a condição de comunista que Óscar Lopes afirmou desde jovem, com a naturalidade, simplicidade e coragem que lhe são próprias, constitui o fundamento de uma ética, de uma certa maneira de estar na crítica e na investigação, como na vida e na acção política. Porque o seu tempo – não o esqueçamos – é ainda o tempo de Bento de Jesus Caraça, Abel Salazar, Mário Sacramento, Maria Lamas, Ruy Luís Gomes, Armando de Castro ou Fernando Lopes-Graça. Figuras inesquecíveis do século XX português, que nunca dissociaram a cultura científica da cultura humanística e artística. Nem a investigação e a intervenção cultural do exercício de uma cidadania corajosa ao lado do povo com o qual quiseram e souberam aprender. Também por isso, Óscar Lopes é um exemplo para os dias por vir, porque sempre se situou nos antípodas de um modo individualista e egocêntrico, imodesto e oportunista de estar na vida e na academia, na crítica, na cultura. Modo este que não poucos dos seus discípulos e confrades das letras lamentavelmente preferiram adoptar.

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto