segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Coração Modelado em Labareda: autoficção e um certo Portugal de 50 e 60

Como a ficha técnica assinala, o título da obra de Domingos Lobo em apreço parte dum verso de Egito Gonçalves – pertencente à chamada segunda geração neo-realista e associado a uma poesia da resistência ao status quo salazarista, nos primeiros livros do poeta. Coração Modelado em Labareda – Diário marginal de um adolescente no país do “botas” (Lobo, 2022) – é esse o título acrescido de subtítulo – abre as primeiras pistas de leitura, remetendo para a ideia de formação, de modelação de uma personalidade, uma modelação não neutra, morna ou tranquila, mas muito a quente e marcada pela inquietude e pela tensão. Por outro lado, o subtítulo abre a probabilidade de um discurso de primeira pessoa, produzido por um sujeito que narra a sua própria vida durante a adolescência ou até à adolescência. «Marginal» porquê? Um diário à margem da vida, logrando apenas captar, fragmentariamente, parte dela, como todos os diários? À margem da literatura – como sempre estiveram os diários? Escrito por um jovem à margem do seu próprio núcleo familiar ou do establishment escolar fascista? Por último, a referência ao «país do “botas”», ou seja, a Portugal, no tempo do ditador Salazar. Precise-se um aspecto mais: constituído por quarenta e seis capítulos curtos, precedidos de um poema em que se alude a Nagosela («espaço da memória essencial», p. 15), cada título desses capítulos remete o leitor para um ano em particular, havendo sempre, sobre cada ano, mais do que um capítulo. A acção é narrada respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos. Encontramos, portanto, uma acepção alargada de «diário», que reenvia não para dias mas sim para anos ou para partes de anos – embora o narrador nos diga em certo passo do texto que, efectivamente, mantém um diário.

Que nos conta, então, este Coração Modelado em Labareda? Muita coisa. É simultaneamente a história da vida de um rapaz da pequena burguesia lisboeta, entre os seis e os dezanove anos, com relevo maior conferido aos períodos da infância e a adolescência. É ele o protagonista, é ele o narrador, em todos os capítulos, excepto no trinta e nove, no qual é concedida voz à criada Rita, em simultâneo amante do pai. E cresce, forma-se no confronto natural com os que o rodeiam e que são muitos.

Diria que essa história do tempo do «botas» foca dois complexos temáticos fundamentais. Por um lado, o despertar da sexualidade e o seu desenvolvimento, indissociável dum conflito com a «moral» estreitíssima – hipócrita, cheirando a sacristia e a mofo – e com a questão dos costumes, tal como formatados no contexto da ditadura fascista. Por outro lado, a narrativa é a pequena, mas em vários aspectos tensa e dramática, história da família do protagonista e do seu entorno social, ora em meio urbano ora em quadro rural. Uma família que habita na Rua do Arco do Cego (e cujos ancestrais, do lado materno, são de Nagosela): Maria Lobita (mãe), Armando (pai), Ramiro (irmão), o avô materno e ainda Rita (criada e mãe duma criança cuja paternidade é ambiguamente atribuída a Armando); são mencionados ainda dois irmãos mais velhos que não vivem na mesma casa. Amigos ou companheiros do protagonista, como Álvaro (sobretudo este), Pedro, Perneta (em Nagosela, a simbolizar sonhos de voo-escape) e outros ainda, gente como o primo Mário (de Nagosela), o professor Anselmo (cruel e de «ar azedo», p. 99) ou, também em Lisboa, o La Minute, fotógrafo gay, e Fortunato, o marçano assassino, são algumas das outras personagens que rodeiam o herói. Alguém que sabemos ser Lobo, de apelido, tal como o autor.

Temas como a escola salazarista, seus pretensos valores, suas práticas antipedagógicas e desumanas; o anti-salazarismo e a perseguição fascista dos opositores (quer o avô quer o pai são viscerais opositores, no plano estritamente individual, sem qualquer acção organizada contra o regime, ainda que o pai venha a ser preso por algum tempo); a repressão pidesca e a censura; as eleições presidenciais fraudulentas de 1958; o início da Guerra Colonial em 1961; e outros temas ainda marcam o cenário histórico do início da segunda metade do século XX em que decorre a vida deste narrador-personagem e da sua família até à morte do avô, até ao emergir de um rumo vocacional e até à procurada saída para um mundo de liberdade, por via de uma primeira viagem a França por volta dos dezoito-dezanove anos. Será uma das primeiras fugas passageiras à opressão do Deus-Pátria-Família fascista (evocado em vários momentos da narrativa e no capítulo 44, já perto do término da obra) e ao peso de «uma família a desmoronar-se» (p. 155).

Direi, contudo, que o anseio de liberdade é talvez a força motriz quer deste herói «modelado» na «labareda» do seu tempo histórico (labareda sociopolítica e de cariz sexual) quer do próprio romance. E utilizo, finalmente, aqui este termo, porque o vi usado pelo próprio escritor num epitexto (mas já lá iremos à qualificação genológica deste texto). E, a ser assim, parece-me que existem neste livro traços do chamado romance de formação.

Não se pense, contudo, que esta atmosfera de tensão abafa outras componentes fortes do livro. Bem pelo contrário, tonifica-as e potencia-as. 

Aprecio, em primeiro lugar, o saber detectável na construção das personagens, marcantes e verosímeis figuras de-carne-e-osso e não apenas de papel. Quer as planas, como La Minute ou Fortunato quer as modeladas como a mãe e principalmente o avô (a grande referência-para-a-vida assumida pelo narrador protagonista). 

Refiro-me, em segundo lugar, à dimensão humorística, que é recorrente na obra, e que passa pelas vertentes do cómico de carácter, do cómico de situação e do cómico de linguagem. E também à presença duma estética do grotesco – que mereceria desenvolvimento particular a propósito desta obra e, se calha, doutras de Domingos Lobo –, a qual, por exemplo, me leva a sinalizar a «atracção por cenas mórbidas» (p. 130), pela deformação, pelo hiperbólico em Coração Modelado em Labareda. Outro aspecto, articulado com o que acabo de mencionar, e até com o cinema (amiúde convocado e homenageado neste livro), prende-se com certa inclinação para os episódios rocambolescos de recorte popular. Este aspecto projecta-se depois no plano da própria linguagem, tanto a usada pelo narrador como a que se escuta na boca das personagens (registo, de passagem, o talento de Domingos Lobo enquanto recriador do discurso oral e da linguagem de rua). E, neste ponto ainda, não consigo deixar de evocar alguns antecedentes nobres como o Dinis Machado do extraordinário romance-tão-de-Lisboa O Que Diz Molero (1977), que marca a ficção nacional do pós-25 de Abril; ou o Mário Zambujal da Crónica dos Bons Malandros (1980), aliás convocado numa das epígrafes; ou como certos textos de Aquilino Ribeiro, beirão de cepa (como os Lobos), não por acaso certeiramente lembrado, a páginas 89 deste livro. Termino com uma proposta de leitura do texto enquanto narrativa enquadrável no campo da chamada autoficção. 

Com efeito, temos, neste livro, um sem número de elementos que nos orientam para a aceitação de um pacto autobiográfico, o principal dos quais é a identidade onomástica entre o autor e o narrador-protagonista (autodiegético), para não falar das questões da localização espacial, em que, além de Lisboa e da zona do Arco do Cego, se destaca Nagosela onde o próprio Domingos Lobo nasceu, como o tal espaço de «caminhos de pedra ferida / de lagares de granito / odores antigos / a mosto e a resina no esconso dos assombros» (p. 15), a que alude o poema inicial. Nagosela: para o protagonista, lugar de múltiplas descobertas, lugar do despertar do corpo e do desejo, lugar maternal e matricial por excelência. Mas também evidência da pobreza, do desamparo social e do analfabetismo que grassavam no país, em especial em regiões mais deprimidas do interior.

Por outro lado, o próprio autor, num «Aviso prévio» (p. 11), nos alerta para a condição ficcional da sua obra, «baseada em alguns factos reais e históricos».

Vejamos, então, com o auxílio da estudiosa e crítica brasileira Anna Faedrich, algumas, apenas algumas das diferenças entre autobiografia e autoficção. Na noção de pacto, «a autoficção se diferencia da autobiografia e do romance autobiográfico. Na autoficção, se estabelece com o leitor um pacto oximórico (Jaccomard, 1993), que se caracteriza por ser contraditório, pois rompe com o princípio de veracidade (pacto autobiográfico), sem aderir integralmente ao princípio de invenção (pacto romanesco/ficcional). Mesclam-se os dois, resultando no contrato de leitura marcado pela ambiguidade, em uma narrativa intersticial. A noção de pacto é fundamental para esclarecer o conceito de autoficção, diferenciando práticas distintas dentro do campo da “escrita do eu”.» (Faedrich, 2015: 57)

E a mesma estudiosa prossegue: «a autoficção tem uma forma específica de construção da ambiguidade entre realidade e ficção. Embora a mistura entre realidade e ficção se encontre também em romances históricos e romances autobiográficos, na autoficção é intenção deliberada do autor abolir os limites entre o real e a ficção, confundir o leitor e provocar uma recepção contraditória da obra. A ambiguidade criada textualmente na cabeça do leitor é potencializada pelo recurso frequente à identidade onomástica entre autor, narrador e protagonista, embora existam variações e nuances na forma como este pacto se estabelece» (Faedrich, 2015: 57). 

Não querendo aprofundar neste momento mais o assunto – embora outros aspectos houvesse a considerar –, ouso afirmar que é isto que se passa na narrativa de Domingos Lobo, como penso que o leitor poderá ele próprio comprovar. E por isso Coração Modelado em Labareda talvez deva ser considerado como exemplo de autoficção – aliás uma das tendências mais fecundas da ficção contemporânea. 

Concluo com um convite à leitura deste texto de léxico rico e sugestivo, prenhe de humanidade, de graça e de capacidade de nos pôr a reflectir, de modo aprofundado, sobre o que foram os anos do fascismo e sobre o modo como eles marcaram negativamente muitos e muitos indivíduos, a vida das famílias e dos lugares e a sociedade como um todo.

Domingos Lobo, romancista, dramaturgo, poeta e crítico reconhecido e várias vezes premiado na poesia, na ficção e no teatro, merece que aceitemos o desafio para a leitura da obra e aprendamos a desfrutar deste livro. 


 

Referências

Faedrich, Anna (2015), «O conceito de autoficção: demarcações a partir da literatura brasileira contemporânea», Itinerários, n. 40, Araraquara, Jan./Jun., pp. 45-60.

Lobo, Domingos (2022), Coração Modelado em Labareda – Diário marginal de um adolescente no país do “botas”, Lisboa, Página a Página.


José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais do InED da ESE do Porto

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Ana Luísa


Ana Luísa Amaral (1956-2022) não foi apenas uma poeta de alta, bela e reconhecida voz, em Portugal e no estrangeiro (a sua poesia está hoje reunida em O Olhar Diagonal das Coisas, 2022), e uma autora de livros para a infância e a juventude que devem ser lidos e apreciados: Gaspar, o Dedo Diferente e Outras Histórias, 1998; A História da Aranha Leopoldina, 2000; Auto de Mofina Mendes de Gil Vicente (adaptação), 2008; uma adaptação de A Relíquia de Eça de Queiroz, 2008; Como Tu, 2012; Lengalenga de Lena, a Hiena, 2019. Publicou ainda o romance Ara, 2013, e foi uma excepcional estudiosa de poesia (conhecedora de poetas das mais diferentes latitudes) e uma divulgadora igualmente excepcional, generosa e persistente. Deste ponto de vista, sinto uma dívida enorme em relação a’«O som que os versos fazem ao abrir», na Antena 2, e ao seu notável trabalho de investigação académica (designadamente no campo dos Estudos Feministas), importando lembrar outras intervenções radiofónicas suas, a par das muitas conferências, cursos e oficinas – era uma incansável e entusiástica trabalhadora das letras. Também como ensaísta e como tradutora (da sua paixão, Emily Dickinson, mas também de Shakespeare, de John Updike, de Louise Glück, de Margaret Atwood e de muitos outros poetas, para não falar das suas traduções de John Locke, de Virgina Woolf e de Wesker) fica o país a dever-lhe imenso. 

Mas Ana Luísa foi, além disso, uma mulher muito corajosa e livre, que ousou pôr publicamente o dedo em muitas feridas – e que, silenciosamente ou não, acabou às vezes sendo penalizada por isso, como sucede com todas as pessoas de coragem. Foi (e ainda bem) uma poeta com intervenção cidadã e política – o que hoje é cada vez mais raro. Para alguns, quase imperdoável. E isto sem nunca perder a doçura e afabilidade do olhar, da voz, da maneira de estar. 

Tive sempre com Ana Luísa um relacionamento muito cordial. Lembro-me de termos sido colegas na faculdade, em Germânicas – embora, nessa fase, apenas nos conhecêssemos de vista. Tínhamos uma amiga comum, Ana Gabriela Macedo, que foi quem primeiro me falou da sua poesia. Há muito, muito tempo. Foi membro do júri das minhas provas de doutoramento, em 2003, na Universidade Nova de Lisboa, e membro do júri das minhas provas para professor coordenador de Literatura Portuguesa, na Escola Superior de Educação do Porto, em 2006. Impecável em qualquer destas duas situações. Colega de irrepreensível trato, correcção e amabilidade. E de enorme qualidade, no plano académico. Devo acrescentar que foi boa e justa professora de ambos os meus filhos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


Escrevi sobre livros seus para a infância e, na minha faceta João Pedro Mésseder, reencontrámo-nos em 2005-2006, com outros escritores portugueses e galegos, no projeto Estafeta do Conto da Xunta de Galicia e da Direção Regional de Cultura do Norte (promovido por Xavier Senín Fernández e Helena Gil Coutinho), o qual deu origem à publicação de duas novelas juvenis bilingues. A de Ana Luísa: Passos de música, caminhos de água/Pasos de musica, camiños de auga (em co-autoria com Fina Casalderrey, Vergílio Alberto Vieira e Xabier Docampo – um grande escritor e amigo também já desaparecido). Tempos bons e luminosos, perdidos (ou ganhos) entre o norte de Portugal e a Galiza. 


Hoje, os leitores de poesia e o país como um todo perderam um ser humano e uma artista de excepção. Saibamos honrar a sua memória e fazer bom uso do muito que nos lega. 

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MÚSICAS, de Ana Luísa Amaral

 

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.

E deito-me a seu lado,

a cabeça em partilha de almofada.

 

Os sons dos outros lá fora em sinfonia

são violinos agudos bem tocados.

Eu é que me desfaço dos sons deles

e me trabalho noutros sons.

 

Bartók em relação ao resto.

 

A minha filha adormecida.

Subitamente sonho-a não em desencontro como eu

das coisas e dos sons, orgulhoso

e dorido Bartók.

 

Mas nunca como eles,

bem tocada

por violinos certos



6-8-2022

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais do inED da ESE do Porto

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Voltar a Luísa Dacosta e à “Pedagogia do Deslumbramento”

Foi há três dias, a 16 de Fevereiro, o aniversário da minha Amiga Luísa Dacosta (completaria 95 anos). E fez há quatro dias sete anos que nos deixou. Era um ser humano de fibra e de palavra livre, intransigente defensora da mulher e dos seus direitos, personalidade afectuosa e terna, refinada e de enorme sensibilidade às artes visuais (escreveu para/sobre diversos artistas), mas sempre fiel às suas raízes transmontanas (nasceu em Vila Real). E fiel igualmente aos seus amigos, mortos ou vivos: Irene Lisboa, Régio, Júlio, Padre Joaquim Alves Correia, David Mourão-Ferreira, António José Saraiva, o bibliotecário Manuel Lopes, Teresa Rita Lopes, Jorge Pinheiro, José da Cruz Santos, Margarida Santos, Elvira Leite, José Manuel Esteves, Bernardette Capelo, Cristina Valadas, Paula Morão, Violante Magalhães… Fiel se manteve também às suas referências literárias: Hans Christian Andersen e os contos de fadas, Dostoievski, Gogol e Tchekhov, Katherine Mansfield, Joseph Bédier (por causa do mito de Tristão e Isolda), Lorca, Fernão Lopes, Sá de Miranda, Camões, Vieira, Eça, Raul Brandão, Pessanha, Aquilino (que ajudou, no Porto, a homenagear ainda em vida do mestre), Irene Lisboa, Graciliano Ramos, Cecília Meireles… Sem falar na Bíblia e n’As Mil e Uma Noites, que toda a vida leu, releu, estudou.

Trás-os-Montes fê-la escrever coisas de forte poder evocativo, comoventes e, aqui e acolá, divertidas até – pois era senhora de uma escrita poeticamente muito trabalhada e sofisticada – como Província (1955), o seu primeiro livro de contos, e obras para a infância como Teatrinho do Romão (1977), Lá Vai Uma… Lá Vão Duas (1993) – Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças –, Robertices (1995), a juntar a admiráveis páginas de diário. Entre Lisboa e Vila Real nasceram os contos de Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu (1969), a tenderem já, aqui e acolá, para o auto-retrato. Em dado momento, graças ao empenho de gente boa e culta como Jorge Ginja e Helena Gil, veio a ser homenageada também na sua terra e, na sequência dessa dinâmica, fui convidado a organizar uma antologia de textos seus de raiz transmontana. Assim nasceu Houve um Tempo, Longe – Vila Real de Trás-os-Montes na Obra de Luísa Dacosta (2005), obra para a qual redigi um breve estudo.

O mar e os seus mitos, a praia de sargaceiros, a terra em redor, e sobretudo as doridas mulheres e as crianças fizeram-na escrever os seus dois melhores livros: as extraordinárias crónicas de A-Ver-O-Mar (1980) e Morrer a Ocidente (1990). 

Mas merecem sempre revisitação os seus “romances truncados”, como gostava de os classificar, Corpo Recusado (1985) e O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui antes de Mim (2000), textos ficcionais de fundo autobiográfico, e os seus dois volumes de diário: Na Água do Tempo (1992) – Prémio Máxima – e Um Olhar Naufragado (2008).

O Príncipe que Guardava Ovelhas (1971), O Elefante Cor de Rosa (1974), A Menina Coração de Pássaro (1978), História com Recadinho (1986), Sonhos na Palma da Mão(1990) e outros títulos impuseram-na também como uma voz singular na nossa escrita literária para a infância. A rendilhada poeticidade da sua prosa e a assumida ou indirecta relação intertextual com mitos gregos e com clássicos (contos de Andersen; Le Petit Prince…) concorreram para essa singularidade, invariavelmente cunhada com uma epígrafe inicial, que era também um princípio existencial: «No sonho, a liberdade…».

Por último, diga-se que, além de poetisa – e de crítica e historiadora da literatura na sua juventude –, Luísa Dacosta foi uma professora de Português de excepção, que apostava, sobretudo, num ensino da língua solidamente assente no recurso à grande literatura e à grande arte (mesmo no 2.º ciclo), na comunicabilidade e na relação humana, buscando aquilo a que gostava de chamar uma «pedagogia do deslumbramento». Nas suas aulas de Português também entravam a música, a pintura, o cinema de Chaplin, a mímica de Marcel Marceau… Deste ponto de vista, e no quadro da educação literária, os seus livros O Valor Pedagógico da Sessão de Leitura (1974) e principalmente as antologias sábia e afectuosamente comentadas (e ilustradas por Jorge Pinheiro), De Mãos Dadas Estrada Fora(4 vols., 1970-2002) continuam a ser do que de melhor se fez em Portugal. 

Costumo dizer: deseja iniciar alguém (criança já leitora, jovem, adulto) no universo do literário? Ponha-lhe nas mãos De Mãos Dadas Estrada Fora.

Sobre a obra de Luísa Dacosta escrevi uma tese de doutoramento que Clara Crabbé Rocha orientou e Paula Morão arguiu. E redigi numerosos ensaios. Foi n'«um tempo longe». 

 

José António Gomes, 19-2-2022

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

domingo, 2 de janeiro de 2022

ESCOLHAS LITERÁRIAS DE 2021

Deixei-me levar por um exercício ocioso e odioso: odioso para mim mesmo, porque em geral gerador de incompreensões e inimizades; e ocioso por ser coisa de cariz jornalístico e, por conseguinte, de limitado alcance histórico-crítico. Esse exercício é o de fazer as minhas escolhas literárias de 2021, em vários domínios.

Comecei então a elaborar uma lista. A dado momento, só no capítulo das traduções de poesia para Português, já ia em mais de duas dezenas de títulos que adquiri e li, integral ou parcialmente, e sei que a lista ainda está incompleta. Porque, de facto, 2021 foi um ano particularmente fecundo neste domínio, não só em matéria de antologias de poesia de outros países editadas em Portugal, como no campo da tradução de poetas individuais, quer clássicos (basta dizer que foi o ano Dante) quer contemporâneos. O mesmo drama no capítulo da poesia portuguesa. Da ficção nem se fala. 


Optei, então, por me cingir a um número muitíssimo restrito: duas a quatro obras por género ou modalidade literária. E claro que as minhas listas estão muito incompletas, são subjetivas (como todas as selecções) e valem o que valem, porque não li tudo: há obras de que me esqueci, por razões válidas ou não; há obras que não me chegaram às mãos por défices de distribuição das novidades editoriais; há obras de circulação muito limitada e de que disponho porque me foram oferecidas, etc. Seja como for, sou um compulsivo comprador de livros de vários géneros. A esmagadora maioria das obras escolhidas adquiri-as eu. 

Insisto: a lista inclui duas a quatro obras por cada domínio e envolve muita subjectividade. Reitero também que considero unicamente escritores portugueses. É excepção, pela natureza da poesia traduzida, o apartado de traduções de obras poéticas. 


Notas importantes – (a) procuro, cada vez mais, seguir um princípio: tentar escapar ao frágil consenso mediático que, em geral, relega para a inexistência obras de grande valia e chega a promover obras medíocres. (b) Julgo também que chamar a atenção para poetas e prosadores multipremiados é por vezes chover no molhado. Não pretendo aqui carrear mais água para esse chuveiro. (c) Pela mesma razão, procurei também contornar os escritores que, embora não pareça, trabalham muito, no espaço mediático, para a sua própria promoção, e realçar alguns menos mencionados, mais discretos. (d) Como estou a falar de literatura, não contemplo os 'álbuns' ou picture books só de imagens ou de muito escasso texto ilustrado, para a infância, que, tal como a Banda Desenhada, constituem em geral artes de outro tipo. Também não incluí textos dramáticos, mas por puro desconhecimento das eventuais publicações.


Quanto ao Ensaio coloca-me problemas: tenho para mim – mas não estou certo disto – que o ensaio literário se encontra em crise em Portugal e não só (algumas distintas excepções: João Barrento, Manuel Gusmão, Silvina Rodrigues Lopes, Maria Filomena Molder, António Guerreiro…). Vejamos: com pouquíssimas excepções, a crítica literária deixou praticamente de dispor de espaço em jornais e revistas, eles próprios em declínio (o que aí se publica são, essencialmente, curtos textos de divulgação, muito influenciada pelas agências de comunicação e pelos lobbies editoriais, que chegam a ter jornalistas avençados). A crítica literária encontra-se, por isso, muito confinada ao meio académico, onde se produzem estudos de enorme e reconhecido valor. Mas as centenas de artigos científicos que académicos produzem anualmente em Portugal e no estrangeiro sobre literatura obedecem a uma estrutura e a parâmetros que cada vez menos se ajustam à estrutura e às características do ensaio tal como no passado o conhecemos. Roland Barthes, Óscar Lopes, Eduardo Prado Coelho, Maria Lúcia Lepecki, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço eram académicos, cultivavam o ensaio (e publicavam, não raro, em jornais); muitas das suas recensões críticas eram, em boa verdade, breves e luminosos ensaios. Mas o que publicavam no seu tempo dificilmente se ajustaria hoje aos requisitos das chamadas publicações científicas, universitárias, de literatura. Do mesmo modo, a maioria das chamadas revistas literárias (que no passado albergavam secções de crítica) deixaram de ser o lugar ideal para a publicação dos trabalhos de críticos literários de raiz universitária. Estes encontram-se agora sujeitos à rígida uniformização que, no campo investigativo, lhes é exigida em termos de escrita académica, sem poderem esquecer tão-pouco os parâmetros e critérios de avaliação do seu desempenho docente no capítulo da investigação, de que não cabe aqui falar.


Inclusive, o livro de um só autor deixou, como se sabe, de constituir o espaço ideal de publicação desses trabalhos, que passou a ser o periódico científico escrutinado e indexado em bases de dados desse tipo de publicações. Como sobrevive o Ensaio a isto? Estas razões, e não são as únicas, contribuem também para a relativa escassez de novidades no campo do ensaísmo literário.  

 

PROSA NARRATIVA PORTUGUESA, TEXTOS AFINS E OUTRAS PROSAS 

  • Henrique Manuel Bento Fialho – Micróbios, Abysmo
  • Mário de Carvalho – De Maneira Que É Claro…, Porto Editora
  • Rita Cruz – No País do Silêncio, Página a Página

PROSA NARRATIVA PORTUGUESA E OUTRA (REEDIÇÕES IMPORTANTES E INÉDITOS)

  • Carlos de Oliveira – Alcateia, Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Fernando Namora – Deuses e Demónios da Medicina, Editorial Caminho – grupo LeYa
  • Mário Dionísio – Passageiro Clandestino I 1950-1957 (diário), Casa da Achada (é acompanhado de outro volume: Eduarda Dionísio – Notas – Passageiro Clandestino I de Mário Dionísio, Casa da Achada)
  • Sophia de Mello Breyner Andresen – Prosa (fixação de texto, prefácio de Carlos Mendes de Sousa e posfácio de Maria Andresen Sousa Tavares), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora

DIÁRIO

  • Gonçalo M. Tavares – Diário da Peste – O Ano de 2020, Relógio d’Água

POESIA PORTUGUESA

  • Alberto Pimenta – Ilhíada, Edições do Saguão
  • A. M. Pires Cabral – Caderneta de Lembranças, Tinta da China
  • Manuel Silva-Terra – Pó Sobre Pó, Urutau
  • Rita Taborda Duarte – Pequeno Livro das Pedras, Nova Mymosa

POESIA PORTUGUESA REUNIDA 

  • Adília Lopes – Dobra (nova edição ampliada), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • António Aragão – OBRA (Re)ENCONTRADA, Edições do Saguão
  • António Franco Alexandre – Poemas, Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Albano Martins – Por Ti Eu Daria – Toda a Poesia, Glaciar

POESIA (TRADUÇÕES PARA PORTUGUÊS)

  • Friedrich Hölderlin – Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética (tradução, introdução, comentários e notas de João Barrento), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Giuseppe Ungaretti – Vida de Um Homem – Toda a Poesia (tradução de Vasco Gato), IN-CM
  • Luís Cernuda – Ocnos (tradução e apresentação de Miguel Filipe Mochila), Língua Morta
  • Masaoka Shiki – Aves Dormindo Enquanto Flutuam – haikus (introdução, notas e versões portuguesas de Joaquim M. Palma), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora

LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE E DE RECEPÇÃO TRANSGERACIONAL – NARRATIVA 

  • António Mota – A Gaveta Mágica (ilustrações: Cátia Vidinhas), ASA – grupo LeYa
  • Augusto Baptista – A Senhora Prestável (ilustrações de Emelie Ostergren), Xerefé Edições
  • José Viale Moutinho – A Máquina do Tempo do Professor Candeias (sobre a vida e a obra de Camilo Castelo Branco), Imprensa Académica
  • Margarida Gil Moreira (texto e ilustrações) – A Estrela da Serra, Cordel d’Prata

LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE – POESIA 

  • Maria Judite de Carvalho – Felizmente as Árvores São Grandes (ilustrações de Cátia Vidinhas), Minotauro – grupo Almedina
  • Nuno Higino – O Livro de Benício – Poesia para a Infância (ilustrações de Kassandra Júlio)
ADAPTAÇÃO DE CLÁSSICOS PARA OS MAIS JOVENS
  • Carlos Ascenso André – A Eneida de Virgílio adaptada para jovens, Quetzal – grupo Bertrand/grupo Porto Editora

NOVELA GRÁFICA 

  • Joana Estrela (texto e ilustrações) – Pardalita, Planeta Tangerina

ENSAIO LITERÁRIO E AFINS (OBRAS DE AUTORES PORTUGUESES)

  • António Guerreiro – Zonas de Baixa Pressão – Crónicas Escolhidas, Edições 70 – grupo Almedina *
  • Carina Infante do Carmo – A Noite Inquieta, Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Política e Memória, Húmus
  • Manuel Frias Martins – A Lágrima de Ulisses – Regimes da Cultura Literária, Editora Exclamação
  • Silvina Rodrigues Lopes – O Nascer do Mundo nas Suas Passagens, Edições do Saguão

 

*Embora ostentem o subtítulo de “crónicas”, considero que os textos desta obra são, na sua maioria, pequenos ensaios. Acrescente-se que extravasam muito o domínio específico da literatura.

 

BIOGRAFIA E ENTREVISTA

  • Álvaro Magalhães – Para Quê Tudo Isto – Biografia de Manuel António Pina, Contraponto
  • Joana Meirim (ed., org. e intr.) – Diz-lhe Que Estás Ocupado – Conversas com Alexandre O’Neill, Tinta da China 

ANTOLOGIA

  • Vários – A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XX), Vol.1 (sel., org. e introd. de Carina Infante do Carmo), Arranha-Céus
  • Vários – A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XX-XXI), Vol. 2 (sel., org. e introd. de Carina Infante do Carmo), Arranha-Céus

 

João Pedro Mésseder

domingo, 31 de outubro de 2021

VIALE MOUTINHO: DADO O ADIANTADO DA HORA

José Viale Moutinho (Funchal, 1945) terá este ano um novo livro publicado em Itália: In Causa Propria (Em causa própria), edição bilingue, traduzida pelo poeta Emilio Coco. Raffaelli Editore, de Rimini, publica. 

O texto português integra o volume Os Cimentos da Noite 1975-2018 (Afrontamento, 2020), que recebeu o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, de Vila Real, o qual foi entregue em 31 de Outubro de 2021.

Como leio a poesia de Viale Moutinho, eu que a não conheço suficientemente bem, mas reconheço, ao deambular por ela, detendo-me aqui e ali, uma poética de indesmentível qualidade de escrita e de singularidade inegável? Pois leio-a como um discurso em que o fundo dramático jamais deixa escapar a possibilidade da ironia, e em que a tensa meditação da voz que escutamos balança entre a sua própria existência-e-condição-no-tempo e a dos outros. Detecta-se um sentido emotivo eficazmente contido pela inteligência das estratégias verbais, designadamente a sintaxe, pelo modo hábil de usar/organizar a versificação (incluindo aqui o enjambement) e por pontuais desvios de atenção para os cenários em que o sujeito surge inscrito. Uma apreciação brevíssima, esta, que se centra em especial nos últimos livros. 

E é de uma dessas secções de Os Cimentos da Noite (“Dado o Adiantado da Hora – inéditos e dispersos”, pp. 342-343) que extraio este poema com algo de tempestuoso, mas que tanto me agrada. Recordo que a vírgula é a pontuação por excelência da poética de Viale Moutinho e que é com vírgula que o poema remata (remata?).  

 

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Todas as noites percorro a casa

em busca do quarto secreto

onde a tempestade guarda

os seus ovos de reserva,

 

ou o assobiar dos ventos, 

vejo como cai a chuva

grossa e se envolve a terra

nos seus mais densos rios,

 

ouço as palavras de meu 

pai, são sábias, loucas, belas, 

levando-me para onde serei

um dia um corredor de fundo,

 

a casa, às escuras, permite-me

ver os despojos do dia morto,

abro as portas dos quartos e nada,

nunca encontrei esse quarto

 

 

João Pedro Mésseder

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A escrita de Domingos Lobo e Origens e Derivações do Neo-realismo Literário Português


Domingos Lobo (n. 1946) é natural de Nagozela, Santa Comba Dão. Em 1982 recebeu o Prémio de Melhor Encenador, do Festival de Teatro de Lisboa, distinção que se liga a uma das forças motrizes da sua vida: a actividade teatral, quer como encenador e actor quer como dramaturgo, adaptador de textos para teatro, crítico teatral e de cinema e membro de colectivos de jograis.

 

Director do jornal A Voz do Operário, Domingos Lobo é actualmente um dos poucos colaboradores da imprensa que se dedicam com assinalável regularidade à divulgação crítica, nas páginas do semanário Avante!, no quinzenário As Artes entre as Letras, na Vértice, na Gazeta Literária e noutros periódicos, tendo reunido, por exemplo no volume Palavras que Respiram – 30 olhares sobre a literatura portuguesa (Página a Página, 2016), uma selecção dos seus textos de crítica literária publicados nos últimos anos. 

 

No campo da história e da crítica literárias, Domingos Lobo publicou ainda, recentemente, com a chancela da Página a Página e o apoio da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (da qual é indissociável o nome do Presidente da Direcção, António Mota Redol), a obra fundamental Origens e Derivações do Neo-realismo Literário Português – Percursos de Leitura (2021). Neste volume, reúnem-se textos vários, desde os que abordam a influência do marxismo no Neo-realismo português, até aos artigos sobre Redol, Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Cochofel, Joaquim Namorado, Romeu Correia, Orlando da Costa, Manuel da Fonseca, Egito Gonçalves, Cardoso Pires e muitos outros, incluindo precursores do Neo-realismo como Aquilino, ou alguns dos seus críticos principais (Óscar Lopes) a par daqueles em cujas criações literárias se projecta ainda a luz do Neo-realismo (Sttau Monteiro, Ary, Fernando Miguel Bernardes, entre outros). 

 

Não me lembro de nenhuma recolha de artigos em volume que reúna um conjunto tão significativo e diverso (isto é, abrangendo tantos escritores e escritoras) de análises e leituras sobre esse movimento incontornável da literatura portuguesa do século XX. Por isso e por outros motivos, é esta uma obra fundamental para quem queria conhecer em maior profundidade as poéticas neo-realistas e os seus protagonistas.

 

Domingos Lobo é, além do que fica dito, um autor de ficções e de textos para teatro. No primeiro caso (ficcionalizando amiúde a partir do que foi a sua vivência angolana) editou Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando (1993, Prémio de Ficção Cidade de Torres Vedras), Pés Nus na Água Fria (1997), As Máscaras Sobre o Fogo (2000), As Lágrimas dos Vivos (2005), Território Inimigo (2009) e Largo da Mutamba (2015, Prémio Literário Alves Redol 2013).

No domínio teatral, é autor de Cenas de Um Terramoto (2010), Não Deixes que a Noite se Apague (2009, Prémio Nacional de Teatro Bernardo Santareno) e A Fome dos Corvos e Outros Pretextos Teatrais (2020). 

 

Lobo possui ainda uma obra vasta no campo da criação poética: Voos de Pássaro Cego (1998); As Mãos nos Labirintos (2003); Para Guardar o Fogo (2010, Prémio Literário Cidade de Almada 2009); Lisboa, Modos de Habitar (2014); A Pele das Sombras (2011); Os Dias Desarmados (2018); O Rosto em Ruínas (2020); e Quotidianos e Outras Noites (2020). 

 

Em síntese, uma obra ampla e com múltiplas facetas, que abarca os três modos literários fundamentais e que importa conhecer e reconhecer. 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

NERVO N.º 12 – REVISTA DE POESIA A LER E A SEGUIR

Aí está o número 12, Setembro-Dezembro de 2021, da Nervo, a bela revista de poesia dirigida pela poetisa Maria F. Roldão, que principia com o editorial “Desobedecer ao cânone: a coragem da edição”. Entre outras coisas refere esses dois ‘heróicos’ editores/escritores que foram Vítor Silva Tavares (& etc.) e Luís Pacheco, o inesquecível autor de “Comunidade” e doutras pérolas (oh, como me lembro bem de, nos idos de 75 ou 76, o ver a tentar vender pedras da calçada no café Piolho, do Porto, estava eu nos alvores da juventude e a revolução na rua…). Se o título do texto de Maria F. Roldão remete para a pretensa “desobediência” a cânones destes senhores já é coisa mais discutível, porque na verdade todos os grandes autores que editaram já eram praticamente canónicos quando foram por eles publicados (Cesariny, Herberto, Natália e muitos outros). E se não eram, em breve o vieram a ser. Além do mais, a & etc. editou inúmeros clássicos do século XX e não só. Verdade também que ambos deram a conhecer autores novos e não canónicos, em especial Vítor Silva Tavares. No que talvez tenham sido menos “canónicos”, mais irreverentes foi nos modos de editar e distribuir, e nas belas aventuras editoriais que nos legaram (e louvados sejam por isso, ou também por isso). Isto mesmo destaca, e bem, Maria F. Roldão.


A capa de Cristina Troufa parece-me extremamente sugestiva, assim como os desenhos da mesma artista que ilustram esta Nervo, que continua a trazer-nos diversidade de latitudes linguístico-culturais: temos poetas portugueses e poetas traduzidos: Amparo Parra (Cuba), vertida por Zetho Cunha Gonçalves, menos interessante talvez que Hans Wap (Holanda), traduzido por Fernando Venâncio; e Ronaldo Cagiano, poeta brasileiro radicado em Portugal. São todos eles poetas que reclamam leitura, mas diferentes. Cagiano termina a sua série com esta graciosa “Dialética”: “Foi nos outlets do afeto / que ele encontrou um amor / sem defeitos.” Os poemas de Wap, que é também artista plástico, atraíram em especial a minha atenção de leitor – e a versão de Venâncio (a mim que não sei Neerlandês mas leio um pouquinho em Alemão) parece-me conseguida e convincente enquanto poema-em-português.


Acho muito bons os poemas de Maria Azenha (não obstante o tom depressivo mas cortante e a questão da morte que os assombram) – poetisa que integra, nesta “Nervo”, um leque de vozes já conhecidas e mais antigas da poesia portuguesa. Dele fazem parte Isabel de Sá, Nuno Dempster, Nunes da Rocha ou José Luís Borges de Almeida que exibem registos distintivos, o terceiro no poema em prosa. Nos mais jovens (chamemos-lhes assim, por comodidade de expressão), encontramos Amândio Reis, Cláudia Capela, João Cardoso Vilhena, João Silveira – todos eles poetas merecedores de leitura atenta (guardo para já uma certa vibração – incluindo um toque de erotismo – e um registo muito pessoal que me captaram o ouvido e não só em Cláudia Capela). Denominador comum a quase todas estas poéticas: o carácter egóico dos discursos e, em vários casos, uma linha de referencialidade a remeter para quotidianos-de-agora, mais ou menos depressivos, de vivências e coloração diversas, aqui e acolá com aspectos de ironia e humor subtis. Quanto a Amândio Reis, e como é sabido, foi considerado por António Guerreiro (a cujas opiniões importa sempre estarmos atentos) uma das revelações da literatura contemporânea, figurando aqui com um texto de difícil catalogação, entre o poema e a narrativa (a reler). Ah, e retenho, entre muitas outras passagens, estes versos na ‘mouche’ de João Cardoso Vilhena: “Demoro anos a perceber um poema / Ler é uma actividade alucinatória / O sentido chega como uma visão”.


Muito bem-vindo também é o ensaio final sobre Teixeira de Pascoaes, de Sofia A. Carvalho, estudante de doutoramento a ultimar tese sobre o poeta amarantino. Em boa hora. Intitula-se o texto “Teixeira de Pascoaes – ‘O Pobre Tolo’ e as ‘três pessoas dum poeta’ ”.

Caso para dizer: no meio dos dias agressivos e regressivos que vivemos, a Nervo é um oásis de cultura e de poesia, um bocadinho ao lado das capelas do costume (sem exagerar, porque já lá temos visto também um ou outro capelão). E vale mesmo a pena ser lida, ser seguida e divulgada.

 

João Pedro Mésseder