João Pedro Mésseder
Poesia, prosa e não só...
João Pedro Mésseder
Referências bibliográficas
Rodrigues, David F. (2021), O Rito do Pão, 2.ª ed. reescrita e acrescida, Porto: Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Rodrigues, David F. (2022), O Que É Feito de Nós, 2.ª ed. actualizada, Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo (ilustrações de Francisco Trabulo).
Ponte de Lima, 19-11-2022
José António Gomes
Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais (IELC) do INED da Escola Superior de Educação do Porto
Referências
Faedrich, Anna (2015), «O conceito de autoficção: demarcações a partir da literatura brasileira contemporânea», Itinerários, n. 40, Araraquara, Jan./Jun., pp. 45-60.
Lobo, Domingos (2022), Coração Modelado em Labareda – Diário marginal de um adolescente no país do “botas”, Lisboa, Página a Página.
José António Gomes
IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais do InED da ESE do Porto
Mas Ana Luísa foi, além disso, uma mulher muito corajosa e livre, que ousou pôr publicamente o dedo em muitas feridas – e que, silenciosamente ou não, acabou às vezes sendo penalizada por isso, como sucede com todas as pessoas de coragem. Foi (e ainda bem) uma poeta com intervenção cidadã e política – o que hoje é cada vez mais raro. Para alguns, quase imperdoável. E isto sem nunca perder a doçura e afabilidade do olhar, da voz, da maneira de estar.
Tive sempre com Ana Luísa um relacionamento muito cordial. Lembro-me de termos sido colegas na faculdade, em Germânicas – embora, nessa fase, apenas nos conhecêssemos de vista. Tínhamos uma amiga comum, Ana Gabriela Macedo, que foi quem primeiro me falou da sua poesia. Há muito, muito tempo. Foi membro do júri das minhas provas de doutoramento, em 2003, na Universidade Nova de Lisboa, e membro do júri das minhas provas para professor coordenador de Literatura Portuguesa, na Escola Superior de Educação do Porto, em 2006. Impecável em qualquer destas duas situações. Colega de irrepreensível trato, correcção e amabilidade. E de enorme qualidade, no plano académico. Devo acrescentar que foi boa e justa professora de ambos os meus filhos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Escrevi sobre livros seus para a infância e, na minha faceta João Pedro Mésseder, reencontrámo-nos em 2005-2006, com outros escritores portugueses e galegos, no projeto Estafeta do Conto da Xunta de Galicia e da Direção Regional de Cultura do Norte (promovido por Xavier Senín Fernández e Helena Gil Coutinho), o qual deu origem à publicação de duas novelas juvenis bilingues. A de Ana Luísa: Passos de música, caminhos de água/Pasos de musica, camiños de auga (em co-autoria com Fina Casalderrey, Vergílio Alberto Vieira e Xabier Docampo – um grande escritor e amigo também já desaparecido). Tempos bons e luminosos, perdidos (ou ganhos) entre o norte de Portugal e a Galiza.
Hoje, os leitores de poesia e o país como um todo perderam um ser humano e uma artista de excepção. Saibamos honrar a sua memória e fazer bom uso do muito que nos lega.
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MÚSICAS, de Ana Luísa Amaral
Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.
Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.
Bartók em relação ao resto.
A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.
Mas nunca como eles,
bem tocada
por violinos certos
6-8-2022
José António Gomes
IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais do inED da ESE do Porto
Trás-os-Montes fê-la escrever coisas de forte poder evocativo, comoventes e, aqui e acolá, divertidas até – pois era senhora de uma escrita poeticamente muito trabalhada e sofisticada – como Província (1955), o seu primeiro livro de contos, e obras para a infância como Teatrinho do Romão (1977), Lá Vai Uma… Lá Vão Duas (1993) – Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças –, Robertices (1995), a juntar a admiráveis páginas de diário. Entre Lisboa e Vila Real nasceram os contos de Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu (1969), a tenderem já, aqui e acolá, para o auto-retrato. Em dado momento, graças ao empenho de gente boa e culta como Jorge Ginja e Helena Gil, veio a ser homenageada também na sua terra e, na sequência dessa dinâmica, fui convidado a organizar uma antologia de textos seus de raiz transmontana. Assim nasceu Houve um Tempo, Longe – Vila Real de Trás-os-Montes na Obra de Luísa Dacosta (2005), obra para a qual redigi um breve estudo.
O mar e os seus mitos, a praia de sargaceiros, a terra em redor, e sobretudo as doridas mulheres e as crianças fizeram-na escrever os seus dois melhores livros: as extraordinárias crónicas de A-Ver-O-Mar (1980) e Morrer a Ocidente (1990).
Mas merecem sempre revisitação os seus “romances truncados”, como gostava de os classificar, Corpo Recusado (1985) e O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui antes de Mim (2000), textos ficcionais de fundo autobiográfico, e os seus dois volumes de diário: Na Água do Tempo (1992) – Prémio Máxima – e Um Olhar Naufragado (2008).
O Príncipe que Guardava Ovelhas (1971), O Elefante Cor de Rosa (1974), A Menina Coração de Pássaro (1978), História com Recadinho (1986), Sonhos na Palma da Mão(1990) e outros títulos impuseram-na também como uma voz singular na nossa escrita literária para a infância. A rendilhada poeticidade da sua prosa e a assumida ou indirecta relação intertextual com mitos gregos e com clássicos (contos de Andersen; Le Petit Prince…) concorreram para essa singularidade, invariavelmente cunhada com uma epígrafe inicial, que era também um princípio existencial: «No sonho, a liberdade…».
Por último, diga-se que, além de poetisa – e de crítica e historiadora da literatura na sua juventude –, Luísa Dacosta foi uma professora de Português de excepção, que apostava, sobretudo, num ensino da língua solidamente assente no recurso à grande literatura e à grande arte (mesmo no 2.º ciclo), na comunicabilidade e na relação humana, buscando aquilo a que gostava de chamar uma «pedagogia do deslumbramento». Nas suas aulas de Português também entravam a música, a pintura, o cinema de Chaplin, a mímica de Marcel Marceau… Deste ponto de vista, e no quadro da educação literária, os seus livros O Valor Pedagógico da Sessão de Leitura (1974) e principalmente as antologias sábia e afectuosamente comentadas (e ilustradas por Jorge Pinheiro), De Mãos Dadas Estrada Fora(4 vols., 1970-2002) continuam a ser do que de melhor se fez em Portugal.
Costumo dizer: deseja iniciar alguém (criança já leitora, jovem, adulto) no universo do literário? Ponha-lhe nas mãos De Mãos Dadas Estrada Fora.
Sobre a obra de Luísa Dacosta escrevi uma tese de doutoramento que Clara Crabbé Rocha orientou e Paula Morão arguiu. E redigi numerosos ensaios. Foi n'«um tempo longe».
José António Gomes, 19-2-2022
IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto
Deixei-me levar por um exercício ocioso e odioso: odioso para mim mesmo, porque em geral gerador de incompreensões e inimizades; e ocioso por ser coisa de cariz jornalístico e, por conseguinte, de limitado alcance histórico-crítico. Esse exercício é o de fazer as minhas escolhas literárias de 2021, em vários domínios.
Comecei então a elaborar uma lista. A dado momento, só no capítulo das traduções de poesia para Português, já ia em mais de duas dezenas de títulos que adquiri e li, integral ou parcialmente, e sei que a lista ainda está incompleta. Porque, de facto, 2021 foi um ano particularmente fecundo neste domínio, não só em matéria de antologias de poesia de outros países editadas em Portugal, como no campo da tradução de poetas individuais, quer clássicos (basta dizer que foi o ano Dante) quer contemporâneos. O mesmo drama no capítulo da poesia portuguesa. Da ficção nem se fala.
Optei, então, por me cingir a um número muitíssimo restrito: duas a quatro obras por género ou modalidade literária. E claro que as minhas listas estão muito incompletas, são subjetivas (como todas as selecções) e valem o que valem, porque não li tudo: há obras de que me esqueci, por razões válidas ou não; há obras que não me chegaram às mãos por défices de distribuição das novidades editoriais; há obras de circulação muito limitada e de que disponho porque me foram oferecidas, etc. Seja como for, sou um compulsivo comprador de livros de vários géneros. A esmagadora maioria das obras escolhidas adquiri-as eu.
Insisto: a lista inclui duas a quatro obras por cada domínio e envolve muita subjectividade. Reitero também que considero unicamente escritores portugueses. É excepção, pela natureza da poesia traduzida, o apartado de traduções de obras poéticas.
Notas importantes – (a) procuro, cada vez mais, seguir um princípio: tentar escapar ao frágil consenso mediático que, em geral, relega para a inexistência obras de grande valia e chega a promover obras medíocres. (b) Julgo também que chamar a atenção para poetas e prosadores multipremiados é por vezes chover no molhado. Não pretendo aqui carrear mais água para esse chuveiro. (c) Pela mesma razão, procurei também contornar os escritores que, embora não pareça, trabalham muito, no espaço mediático, para a sua própria promoção, e realçar alguns menos mencionados, mais discretos. (d) Como estou a falar de literatura, não contemplo os 'álbuns' ou picture books só de imagens ou de muito escasso texto ilustrado, para a infância, que, tal como a Banda Desenhada, constituem em geral artes de outro tipo. Também não incluí textos dramáticos, mas por puro desconhecimento das eventuais publicações.
Quanto ao Ensaio coloca-me problemas: tenho para mim – mas não estou certo disto – que o ensaio literário se encontra em crise em Portugal e não só (algumas distintas excepções: João Barrento, Manuel Gusmão, Silvina Rodrigues Lopes, Maria Filomena Molder, António Guerreiro…). Vejamos: com pouquíssimas excepções, a crítica literária deixou praticamente de dispor de espaço em jornais e revistas, eles próprios em declínio (o que aí se publica são, essencialmente, curtos textos de divulgação, muito influenciada pelas agências de comunicação e pelos lobbies editoriais, que chegam a ter jornalistas avençados). A crítica literária encontra-se, por isso, muito confinada ao meio académico, onde se produzem estudos de enorme e reconhecido valor. Mas as centenas de artigos científicos que académicos produzem anualmente em Portugal e no estrangeiro sobre literatura obedecem a uma estrutura e a parâmetros que cada vez menos se ajustam à estrutura e às características do ensaio tal como no passado o conhecemos. Roland Barthes, Óscar Lopes, Eduardo Prado Coelho, Maria Lúcia Lepecki, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço eram académicos, cultivavam o ensaio (e publicavam, não raro, em jornais); muitas das suas recensões críticas eram, em boa verdade, breves e luminosos ensaios. Mas o que publicavam no seu tempo dificilmente se ajustaria hoje aos requisitos das chamadas publicações científicas, universitárias, de literatura. Do mesmo modo, a maioria das chamadas revistas literárias (que no passado albergavam secções de crítica) deixaram de ser o lugar ideal para a publicação dos trabalhos de críticos literários de raiz universitária. Estes encontram-se agora sujeitos à rígida uniformização que, no campo investigativo, lhes é exigida em termos de escrita académica, sem poderem esquecer tão-pouco os parâmetros e critérios de avaliação do seu desempenho docente no capítulo da investigação, de que não cabe aqui falar.
Inclusive, o livro de um só autor deixou, como se sabe, de constituir o espaço ideal de publicação desses trabalhos, que passou a ser o periódico científico escrutinado e indexado em bases de dados desse tipo de publicações. Como sobrevive o Ensaio a isto? Estas razões, e não são as únicas, contribuem também para a relativa escassez de novidades no campo do ensaísmo literário.
PROSA NARRATIVA PORTUGUESA, TEXTOS AFINS E OUTRAS PROSAS
PROSA NARRATIVA PORTUGUESA E OUTRA (REEDIÇÕES IMPORTANTES E INÉDITOS)
DIÁRIO
POESIA PORTUGUESA
POESIA PORTUGUESA REUNIDA
POESIA (TRADUÇÕES PARA PORTUGUÊS)
LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE E DE RECEPÇÃO TRANSGERACIONAL – NARRATIVA
LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE – POESIA
NOVELA GRÁFICA
ENSAIO LITERÁRIO E AFINS (OBRAS DE AUTORES PORTUGUESES)
*Embora ostentem o subtítulo de “crónicas”, considero que os textos desta obra são, na sua maioria, pequenos ensaios. Acrescente-se que extravasam muito o domínio específico da literatura.
BIOGRAFIA E ENTREVISTA
ANTOLOGIA
João Pedro Mésseder
O texto português integra o volume Os Cimentos da Noite 1975-2018 (Afrontamento, 2020), que recebeu o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, de Vila Real, o qual foi entregue em 31 de Outubro de 2021.
Como leio a poesia de Viale Moutinho, eu que a não conheço suficientemente bem, mas reconheço, ao deambular por ela, detendo-me aqui e ali, uma poética de indesmentível qualidade de escrita e de singularidade inegável? Pois leio-a como um discurso em que o fundo dramático jamais deixa escapar a possibilidade da ironia, e em que a tensa meditação da voz que escutamos balança entre a sua própria existência-e-condição-no-tempo e a dos outros. Detecta-se um sentido emotivo eficazmente contido pela inteligência das estratégias verbais, designadamente a sintaxe, pelo modo hábil de usar/organizar a versificação (incluindo aqui o enjambement) e por pontuais desvios de atenção para os cenários em que o sujeito surge inscrito. Uma apreciação brevíssima, esta, que se centra em especial nos últimos livros.
E é de uma dessas secções de Os Cimentos da Noite (“Dado o Adiantado da Hora – inéditos e dispersos”, pp. 342-343) que extraio este poema com algo de tempestuoso, mas que tanto me agrada. Recordo que a vírgula é a pontuação por excelência da poética de Viale Moutinho e que é com vírgula que o poema remata (remata?).
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Todas as noites percorro a casa
em busca do quarto secreto
onde a tempestade guarda
os seus ovos de reserva,
ou o assobiar dos ventos,
vejo como cai a chuva
grossa e se envolve a terra
nos seus mais densos rios,
ouço as palavras de meu
pai, são sábias, loucas, belas,
levando-me para onde serei
um dia um corredor de fundo,
a casa, às escuras, permite-me
ver os despojos do dia morto,
abro as portas dos quartos e nada,
nunca encontrei esse quarto
João Pedro Mésseder