domingo, 2 de janeiro de 2022

ESCOLHAS LITERÁRIAS DE 2021

Deixei-me levar por um exercício ocioso e odioso: odioso para mim mesmo, porque em geral gerador de incompreensões e inimizades; e ocioso por ser coisa de cariz jornalístico e, por conseguinte, de limitado alcance histórico-crítico. Esse exercício é o de fazer as minhas escolhas literárias de 2021, em vários domínios.

Comecei então a elaborar uma lista. A dado momento, só no capítulo das traduções de poesia para Português, já ia em mais de duas dezenas de títulos que adquiri e li, integral ou parcialmente, e sei que a lista ainda está incompleta. Porque, de facto, 2021 foi um ano particularmente fecundo neste domínio, não só em matéria de antologias de poesia de outros países editadas em Portugal, como no campo da tradução de poetas individuais, quer clássicos (basta dizer que foi o ano Dante) quer contemporâneos. O mesmo drama no capítulo da poesia portuguesa. Da ficção nem se fala. 


Optei, então, por me cingir a um número muitíssimo restrito: duas a quatro obras por género ou modalidade literária. E claro que as minhas listas estão muito incompletas, são subjetivas (como todas as selecções) e valem o que valem, porque não li tudo: há obras de que me esqueci, por razões válidas ou não; há obras que não me chegaram às mãos por défices de distribuição das novidades editoriais; há obras de circulação muito limitada e de que disponho porque me foram oferecidas, etc. Seja como for, sou um compulsivo comprador de livros de vários géneros. A esmagadora maioria das obras escolhidas adquiri-as eu. 

Insisto: a lista inclui duas a quatro obras por cada domínio e envolve muita subjectividade. Reitero também que considero unicamente escritores portugueses. É excepção, pela natureza da poesia traduzida, o apartado de traduções de obras poéticas. 


Notas importantes – (a) procuro, cada vez mais, seguir um princípio: tentar escapar ao frágil consenso mediático que, em geral, relega para a inexistência obras de grande valia e chega a promover obras medíocres. (b) Julgo também que chamar a atenção para poetas e prosadores multipremiados é por vezes chover no molhado. Não pretendo aqui carrear mais água para esse chuveiro. (c) Pela mesma razão, procurei também contornar os escritores que, embora não pareça, trabalham muito, no espaço mediático, para a sua própria promoção, e realçar alguns menos mencionados, mais discretos. (d) Como estou a falar de literatura, não contemplo os 'álbuns' ou picture books só de imagens ou de muito escasso texto ilustrado, para a infância, que, tal como a Banda Desenhada, constituem em geral artes de outro tipo. Também não incluí textos dramáticos, mas por puro desconhecimento das eventuais publicações.


Quanto ao Ensaio coloca-me problemas: tenho para mim – mas não estou certo disto – que o ensaio literário se encontra em crise em Portugal e não só (algumas distintas excepções: João Barrento, Manuel Gusmão, Silvina Rodrigues Lopes, Maria Filomena Molder, António Guerreiro…). Vejamos: com pouquíssimas excepções, a crítica literária deixou praticamente de dispor de espaço em jornais e revistas, eles próprios em declínio (o que aí se publica são, essencialmente, curtos textos de divulgação, muito influenciada pelas agências de comunicação e pelos lobbies editoriais, que chegam a ter jornalistas avençados). A crítica literária encontra-se, por isso, muito confinada ao meio académico, onde se produzem estudos de enorme e reconhecido valor. Mas as centenas de artigos científicos que académicos produzem anualmente em Portugal e no estrangeiro sobre literatura obedecem a uma estrutura e a parâmetros que cada vez menos se ajustam à estrutura e às características do ensaio tal como no passado o conhecemos. Roland Barthes, Óscar Lopes, Eduardo Prado Coelho, Maria Lúcia Lepecki, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço eram académicos, cultivavam o ensaio (e publicavam, não raro, em jornais); muitas das suas recensões críticas eram, em boa verdade, breves e luminosos ensaios. Mas o que publicavam no seu tempo dificilmente se ajustaria hoje aos requisitos das chamadas publicações científicas, universitárias, de literatura. Do mesmo modo, a maioria das chamadas revistas literárias (que no passado albergavam secções de crítica) deixaram de ser o lugar ideal para a publicação dos trabalhos de críticos literários de raiz universitária. Estes encontram-se agora sujeitos à rígida uniformização que, no campo investigativo, lhes é exigida em termos de escrita académica, sem poderem esquecer tão-pouco os parâmetros e critérios de avaliação do seu desempenho docente no capítulo da investigação, de que não cabe aqui falar.


Inclusive, o livro de um só autor deixou, como se sabe, de constituir o espaço ideal de publicação desses trabalhos, que passou a ser o periódico científico escrutinado e indexado em bases de dados desse tipo de publicações. Como sobrevive o Ensaio a isto? Estas razões, e não são as únicas, contribuem também para a relativa escassez de novidades no campo do ensaísmo literário.  

 

PROSA NARRATIVA PORTUGUESA, TEXTOS AFINS E OUTRAS PROSAS 

  • Henrique Manuel Bento Fialho – Micróbios, Abysmo
  • Mário de Carvalho – De Maneira Que É Claro…, Porto Editora
  • Rita Cruz – No País do Silêncio, Página a Página

PROSA NARRATIVA PORTUGUESA E OUTRA (REEDIÇÕES IMPORTANTES E INÉDITOS)

  • Carlos de Oliveira – Alcateia, Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Fernando Namora – Deuses e Demónios da Medicina, Editorial Caminho – grupo LeYa
  • Mário Dionísio – Passageiro Clandestino I 1950-1957 (diário), Casa da Achada (é acompanhado de outro volume: Eduarda Dionísio – Notas – Passageiro Clandestino I de Mário Dionísio, Casa da Achada)
  • Sophia de Mello Breyner Andresen – Prosa (fixação de texto, prefácio de Carlos Mendes de Sousa e posfácio de Maria Andresen Sousa Tavares), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora

DIÁRIO

  • Gonçalo M. Tavares – Diário da Peste – O Ano de 2020, Relógio d’Água

POESIA PORTUGUESA

  • Alberto Pimenta – Ilhíada, Edições do Saguão
  • A. M. Pires Cabral – Caderneta de Lembranças, Tinta da China
  • Manuel Silva-Terra – Pó Sobre Pó, Urutau
  • Rita Taborda Duarte – Pequeno Livro das Pedras, Nova Mymosa

POESIA PORTUGUESA REUNIDA 

  • Adília Lopes – Dobra (nova edição ampliada), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • António Aragão – OBRA (Re)ENCONTRADA, Edições do Saguão
  • António Franco Alexandre – Poemas, Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Albano Martins – Por Ti Eu Daria – Toda a Poesia, Glaciar

POESIA (TRADUÇÕES PARA PORTUGUÊS)

  • Friedrich Hölderlin – Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética (tradução, introdução, comentários e notas de João Barrento), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora
  • Giuseppe Ungaretti – Vida de Um Homem – Toda a Poesia (tradução de Vasco Gato), IN-CM
  • Luís Cernuda – Ocnos (tradução e apresentação de Miguel Filipe Mochila), Língua Morta
  • Masaoka Shiki – Aves Dormindo Enquanto Flutuam – haikus (introdução, notas e versões portuguesas de Joaquim M. Palma), Assírio & Alvim – grupo Porto Editora

LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE E DE RECEPÇÃO TRANSGERACIONAL – NARRATIVA 

  • António Mota – A Gaveta Mágica (ilustrações: Cátia Vidinhas), ASA – grupo LeYa
  • Augusto Baptista – A Senhora Prestável (ilustrações de Emelie Ostergren), Xerefé Edições
  • José Viale Moutinho – A Máquina do Tempo do Professor Candeias (sobre a vida e a obra de Camilo Castelo Branco), Imprensa Académica
  • Margarida Gil Moreira (texto e ilustrações) – A Estrela da Serra, Cordel d’Prata

LITERATURA PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE – POESIA 

  • Maria Judite de Carvalho – Felizmente as Árvores São Grandes (ilustrações de Cátia Vidinhas), Minotauro – grupo Almedina
  • Nuno Higino – O Livro de Benício – Poesia para a Infância (ilustrações de Kassandra Júlio)
ADAPTAÇÃO DE CLÁSSICOS PARA OS MAIS JOVENS
  • Carlos Ascenso André – A Eneida de Virgílio adaptada para jovens, Quetzal – grupo Bertrand/grupo Porto Editora

NOVELA GRÁFICA 

  • Joana Estrela (texto e ilustrações) – Pardalita, Planeta Tangerina

ENSAIO LITERÁRIO E AFINS (OBRAS DE AUTORES PORTUGUESES)

  • António Guerreiro – Zonas de Baixa Pressão – Crónicas Escolhidas, Edições 70 – grupo Almedina *
  • Carina Infante do Carmo – A Noite Inquieta, Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Política e Memória, Húmus
  • Manuel Frias Martins – A Lágrima de Ulisses – Regimes da Cultura Literária, Editora Exclamação
  • Silvina Rodrigues Lopes – O Nascer do Mundo nas Suas Passagens, Edições do Saguão

 

*Embora ostentem o subtítulo de “crónicas”, considero que os textos desta obra são, na sua maioria, pequenos ensaios. Acrescente-se que extravasam muito o domínio específico da literatura.

 

BIOGRAFIA E ENTREVISTA

  • Álvaro Magalhães – Para Quê Tudo Isto – Biografia de Manuel António Pina, Contraponto
  • Joana Meirim (ed., org. e intr.) – Diz-lhe Que Estás Ocupado – Conversas com Alexandre O’Neill, Tinta da China 

ANTOLOGIA

  • Vários – A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XX), Vol.1 (sel., org. e introd. de Carina Infante do Carmo), Arranha-Céus
  • Vários – A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XX-XXI), Vol. 2 (sel., org. e introd. de Carina Infante do Carmo), Arranha-Céus

 

João Pedro Mésseder

domingo, 31 de outubro de 2021

VIALE MOUTINHO: DADO O ADIANTADO DA HORA

José Viale Moutinho (Funchal, 1945) terá este ano um novo livro publicado em Itália: In Causa Propria (Em causa própria), edição bilingue, traduzida pelo poeta Emilio Coco. Raffaelli Editore, de Rimini, publica. 

O texto português integra o volume Os Cimentos da Noite 1975-2018 (Afrontamento, 2020), que recebeu o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, de Vila Real, o qual foi entregue em 31 de Outubro de 2021.

Como leio a poesia de Viale Moutinho, eu que a não conheço suficientemente bem, mas reconheço, ao deambular por ela, detendo-me aqui e ali, uma poética de indesmentível qualidade de escrita e de singularidade inegável? Pois leio-a como um discurso em que o fundo dramático jamais deixa escapar a possibilidade da ironia, e em que a tensa meditação da voz que escutamos balança entre a sua própria existência-e-condição-no-tempo e a dos outros. Detecta-se um sentido emotivo eficazmente contido pela inteligência das estratégias verbais, designadamente a sintaxe, pelo modo hábil de usar/organizar a versificação (incluindo aqui o enjambement) e por pontuais desvios de atenção para os cenários em que o sujeito surge inscrito. Uma apreciação brevíssima, esta, que se centra em especial nos últimos livros. 

E é de uma dessas secções de Os Cimentos da Noite (“Dado o Adiantado da Hora – inéditos e dispersos”, pp. 342-343) que extraio este poema com algo de tempestuoso, mas que tanto me agrada. Recordo que a vírgula é a pontuação por excelência da poética de Viale Moutinho e que é com vírgula que o poema remata (remata?).  

 

___________________________

 

Todas as noites percorro a casa

em busca do quarto secreto

onde a tempestade guarda

os seus ovos de reserva,

 

ou o assobiar dos ventos, 

vejo como cai a chuva

grossa e se envolve a terra

nos seus mais densos rios,

 

ouço as palavras de meu 

pai, são sábias, loucas, belas, 

levando-me para onde serei

um dia um corredor de fundo,

 

a casa, às escuras, permite-me

ver os despojos do dia morto,

abro as portas dos quartos e nada,

nunca encontrei esse quarto

 

 

João Pedro Mésseder

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A escrita de Domingos Lobo e Origens e Derivações do Neo-realismo Literário Português


Domingos Lobo (n. 1946) é natural de Nagozela, Santa Comba Dão. Em 1982 recebeu o Prémio de Melhor Encenador, do Festival de Teatro de Lisboa, distinção que se liga a uma das forças motrizes da sua vida: a actividade teatral, quer como encenador e actor quer como dramaturgo, adaptador de textos para teatro, crítico teatral e de cinema e membro de colectivos de jograis.

 

Director do jornal A Voz do Operário, Domingos Lobo é actualmente um dos poucos colaboradores da imprensa que se dedicam com assinalável regularidade à divulgação crítica, nas páginas do semanário Avante!, no quinzenário As Artes entre as Letras, na Vértice, na Gazeta Literária e noutros periódicos, tendo reunido, por exemplo no volume Palavras que Respiram – 30 olhares sobre a literatura portuguesa (Página a Página, 2016), uma selecção dos seus textos de crítica literária publicados nos últimos anos. 

 

No campo da história e da crítica literárias, Domingos Lobo publicou ainda, recentemente, com a chancela da Página a Página e o apoio da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (da qual é indissociável o nome do Presidente da Direcção, António Mota Redol), a obra fundamental Origens e Derivações do Neo-realismo Literário Português – Percursos de Leitura (2021). Neste volume, reúnem-se textos vários, desde os que abordam a influência do marxismo no Neo-realismo português, até aos artigos sobre Redol, Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Cochofel, Joaquim Namorado, Romeu Correia, Orlando da Costa, Manuel da Fonseca, Egito Gonçalves, Cardoso Pires e muitos outros, incluindo precursores do Neo-realismo como Aquilino, ou alguns dos seus críticos principais (Óscar Lopes) a par daqueles em cujas criações literárias se projecta ainda a luz do Neo-realismo (Sttau Monteiro, Ary, Fernando Miguel Bernardes, entre outros). 

 

Não me lembro de nenhuma recolha de artigos em volume que reúna um conjunto tão significativo e diverso (isto é, abrangendo tantos escritores e escritoras) de análises e leituras sobre esse movimento incontornável da literatura portuguesa do século XX. Por isso e por outros motivos, é esta uma obra fundamental para quem queria conhecer em maior profundidade as poéticas neo-realistas e os seus protagonistas.

 

Domingos Lobo é, além do que fica dito, um autor de ficções e de textos para teatro. No primeiro caso (ficcionalizando amiúde a partir do que foi a sua vivência angolana) editou Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando (1993, Prémio de Ficção Cidade de Torres Vedras), Pés Nus na Água Fria (1997), As Máscaras Sobre o Fogo (2000), As Lágrimas dos Vivos (2005), Território Inimigo (2009) e Largo da Mutamba (2015, Prémio Literário Alves Redol 2013).

No domínio teatral, é autor de Cenas de Um Terramoto (2010), Não Deixes que a Noite se Apague (2009, Prémio Nacional de Teatro Bernardo Santareno) e A Fome dos Corvos e Outros Pretextos Teatrais (2020). 

 

Lobo possui ainda uma obra vasta no campo da criação poética: Voos de Pássaro Cego (1998); As Mãos nos Labirintos (2003); Para Guardar o Fogo (2010, Prémio Literário Cidade de Almada 2009); Lisboa, Modos de Habitar (2014); A Pele das Sombras (2011); Os Dias Desarmados (2018); O Rosto em Ruínas (2020); e Quotidianos e Outras Noites (2020). 

 

Em síntese, uma obra ampla e com múltiplas facetas, que abarca os três modos literários fundamentais e que importa conhecer e reconhecer. 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

NERVO N.º 12 – REVISTA DE POESIA A LER E A SEGUIR

Aí está o número 12, Setembro-Dezembro de 2021, da Nervo, a bela revista de poesia dirigida pela poetisa Maria F. Roldão, que principia com o editorial “Desobedecer ao cânone: a coragem da edição”. Entre outras coisas refere esses dois ‘heróicos’ editores/escritores que foram Vítor Silva Tavares (& etc.) e Luís Pacheco, o inesquecível autor de “Comunidade” e doutras pérolas (oh, como me lembro bem de, nos idos de 75 ou 76, o ver a tentar vender pedras da calçada no café Piolho, do Porto, estava eu nos alvores da juventude e a revolução na rua…). Se o título do texto de Maria F. Roldão remete para a pretensa “desobediência” a cânones destes senhores já é coisa mais discutível, porque na verdade todos os grandes autores que editaram já eram praticamente canónicos quando foram por eles publicados (Cesariny, Herberto, Natália e muitos outros). E se não eram, em breve o vieram a ser. Além do mais, a & etc. editou inúmeros clássicos do século XX e não só. Verdade também que ambos deram a conhecer autores novos e não canónicos, em especial Vítor Silva Tavares. No que talvez tenham sido menos “canónicos”, mais irreverentes foi nos modos de editar e distribuir, e nas belas aventuras editoriais que nos legaram (e louvados sejam por isso, ou também por isso). Isto mesmo destaca, e bem, Maria F. Roldão.


A capa de Cristina Troufa parece-me extremamente sugestiva, assim como os desenhos da mesma artista que ilustram esta Nervo, que continua a trazer-nos diversidade de latitudes linguístico-culturais: temos poetas portugueses e poetas traduzidos: Amparo Parra (Cuba), vertida por Zetho Cunha Gonçalves, menos interessante talvez que Hans Wap (Holanda), traduzido por Fernando Venâncio; e Ronaldo Cagiano, poeta brasileiro radicado em Portugal. São todos eles poetas que reclamam leitura, mas diferentes. Cagiano termina a sua série com esta graciosa “Dialética”: “Foi nos outlets do afeto / que ele encontrou um amor / sem defeitos.” Os poemas de Wap, que é também artista plástico, atraíram em especial a minha atenção de leitor – e a versão de Venâncio (a mim que não sei Neerlandês mas leio um pouquinho em Alemão) parece-me conseguida e convincente enquanto poema-em-português.


Acho muito bons os poemas de Maria Azenha (não obstante o tom depressivo mas cortante e a questão da morte que os assombram) – poetisa que integra, nesta “Nervo”, um leque de vozes já conhecidas e mais antigas da poesia portuguesa. Dele fazem parte Isabel de Sá, Nuno Dempster, Nunes da Rocha ou José Luís Borges de Almeida que exibem registos distintivos, o terceiro no poema em prosa. Nos mais jovens (chamemos-lhes assim, por comodidade de expressão), encontramos Amândio Reis, Cláudia Capela, João Cardoso Vilhena, João Silveira – todos eles poetas merecedores de leitura atenta (guardo para já uma certa vibração – incluindo um toque de erotismo – e um registo muito pessoal que me captaram o ouvido e não só em Cláudia Capela). Denominador comum a quase todas estas poéticas: o carácter egóico dos discursos e, em vários casos, uma linha de referencialidade a remeter para quotidianos-de-agora, mais ou menos depressivos, de vivências e coloração diversas, aqui e acolá com aspectos de ironia e humor subtis. Quanto a Amândio Reis, e como é sabido, foi considerado por António Guerreiro (a cujas opiniões importa sempre estarmos atentos) uma das revelações da literatura contemporânea, figurando aqui com um texto de difícil catalogação, entre o poema e a narrativa (a reler). Ah, e retenho, entre muitas outras passagens, estes versos na ‘mouche’ de João Cardoso Vilhena: “Demoro anos a perceber um poema / Ler é uma actividade alucinatória / O sentido chega como uma visão”.


Muito bem-vindo também é o ensaio final sobre Teixeira de Pascoaes, de Sofia A. Carvalho, estudante de doutoramento a ultimar tese sobre o poeta amarantino. Em boa hora. Intitula-se o texto “Teixeira de Pascoaes – ‘O Pobre Tolo’ e as ‘três pessoas dum poeta’ ”.

Caso para dizer: no meio dos dias agressivos e regressivos que vivemos, a Nervo é um oásis de cultura e de poesia, um bocadinho ao lado das capelas do costume (sem exagerar, porque já lá temos visto também um ou outro capelão). E vale mesmo a pena ser lida, ser seguida e divulgada.

 

João Pedro Mésseder

 

sábado, 18 de setembro de 2021

Pó Sobre Pó, de Manuel Silva-Terra: livro de poesia irrecusável

 

Leio este belo Pó Sobre Pó, recolha de poemas de Manuel Silva-Terra, graficamente muito cuidado, com a chancela da editora brasileira Urutau (Cotia – SP, 2021), e pergunto-me: como dizer, em poucas palavras, algo que abra uma frincha para esta escrita sem provocar pisadura na auréola do livro? 

Poemas sem título que se sucedem uns aos outros nas cerca de 74 páginas do livro, um em cada página, e com uma reconhecível unidade temática e de registo vocal, eu diria que Pó Sobre Pó quase pode constituir um poema único, que principia com a noite, a ela sucedendo a manhã diluindo-se depois as marcas do tempo, sem que o tempo deixe de estar no centro de todo o poemário.

Com ecos hölderlinianos e rilkeanos (e há qualquer coisa de Wanderung – «fez do caminho a sua morada», p. 42 – nesta sucessão de textos), trata-se duma poesia de reflexão existencial, de pensar solitário sobre o(s) lugar(es)/tempo(s) do sujeito no mundo – como se tal solidão fosse condição de aprofundamento do pensar. Mas esta é também a escrita duma busca: uma alternativa ao desgaste, à tensão, à «ferida», cuja sombria presença de algum modo se pressente. 

Ora essa saída descobre-se numa espécie de reatar da ligação umbilical à Natureza, uma religação ao natural a que vários poemas dão expressão («Regressas pois à harmonia dos sons / Ao eco na montanha / À luz dourada dos frutos», p. 29). E uso o termo religação, porque, aqui e acolá, se dá conta dum tom quase religioso no dizer desta poesia tão intensa e tão parca (o que muito me agrada) em referências directas ao eu. E também por isso, e pela viagem, nos vêm à mente a tradição nipónica do haiku e do haibun (embora aqui não haja prosa) e a lição do Bashô viandante.

Cometerei a ousadia de me apropriar de um poema do livro para tentar aludir à demanda deste sujeito poético:

 

Este foi salvo pela poesia das coisas

Pelas palavras iluminadas e iluminantes

Pelas brasas que cauterizam a ferida

 

Aquele outro foi salvo pelo recolhimento

que praticou junto das sementes

e dos animais e das árvores

 

Outro foi salvo pela acção

Pelo desapossamento de si

Pela sua entrega aos outros (p. 67)

 

Lendo a totalidade de Pó Sobre Pó (a poeira que se levanta do caminho e torna a pousar?; a poeira que todos somos?) e lendo estas três imagens de caminhos de vida patentes na composição que acabo de citar, ousaria dizer, a terminar, que o livro de Manuel Silva-Terra corresponde porventura à expressão de uma demanda situável entre o que, no poema, é dito no primeiro terceto e o que é dito no segundo.

E desta maneira tento uma síntese, empobrecedora é claro, dum livro em boa verdade irresumível e imparafraseável, que proporcionará, estou certo, intensos momentos de leitura.

Com, até ao momento, cerca de uma dúzia de livros publicados, belos e singulares, e diversas antologias de poesia «de outros séculos e lugares» (p. 73), Manuel Silva-Terra continua a ser um poeta que urge ler, sendo Pó Sobre Pó, talvez, uma das suas melhores obras.

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto 

 

 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Pitões das Júnias, de Aurelino Costa e Anxo Pastor

Que livro bonito este que mão amiga me fez chegar às mãos: Pitões das Júnias (2.ª ed., Porto: Blue Book, 2020). Diz-nos o paratexto da capa (sugestiva capa) esta curiosa coisa: «Tões» de Aurelino Costa com Anxo Pastor. E, na sua ignorância, mesmo depois de pesquisar a etimologia de Pitões e de Júnias, o leitor procura construir sentido(s): sugere-se que «tões» é poemas (os quais são sempre combinação de som e sentido)? Aponta-se para tons? Para pequenas pinceladas de som (passe a sinestesia) vinculadas ao topónimo com que «tões» intencionalmente rima?

Apego-me a esta última acepção para dizer que o que nos propõe este livro são, precisamente, pequenas notas em verso inspiradas por esse belíssimo território comunitário do Gerês que dá título ao livro – notas que configuram uma poética pontilhista cujo visualismo nos cativa. Mas também um modo muito peculiar de sentir a terra, a montanha e os seus sortilégios, sentir homens, mulheres e bichos, sentir as casas: «Pela trave / Ciranda / A aranha // E um fio / Da teia / Une // O que rareia» (p. 37). 


Estamos, pois, como estes versos evidenciam, ante uma escrita próxima das brevidades poéticas orientais, que procura captar a essência dos instantes. E o que Mário Cláudio afirma, num comentário de apresentação citado a fechar o livro, a leitura o confirma: «(…) brevíssimos poemas, aliás compondo um poema único, constituem uma lição de telurismo e espontaneidade, de contenção e de limpidez» (p. 61).


Os micro-poemas de Aurelino Costa (poeta, conhecido diseur e advogado, nascido em Argivai, Póvoa de Varzim em 1956) dialogam, em Pitões das Júnias, com as aguarelas doutro poeta também pintor, Anxo Pastor, originário da Galiza, onde nasceu em 1959.


As aguarelas são um elemento fundamental da beleza dum livro graficamente muito cuidado. Um verde tendencialmente escuro contrasta com pequenas notas de castanho claro, amarelo e azul, buscando a aproximação às cores da terra que a poesia intenta capturar. Apostando na sugestividade e em traços dos quais se valorizou a espontaneidade expressiva, as imagens de Anxo Pastor fazem deste objecto um lindíssimo álbum marcado pela unidade duma paixão comum pela terra. 


A terminar, um dos poemas mais longos do livro (p. 55), mesmo assim breve, com o qual a obra encerra (mais um dos textos em que as liberdades gramaticais do poeta se nos impõem como verdadeiras liberdades poéticas):

 

Vem a Primavera

Tira-se o esterco

Para semear a batata e o milho

 

Vem a satcha

E depois o feno 

 

O centeio corta-se a punho

Atam-se as messes

É carrá-lo

 

Relincham as galochas nos pés

É inverno

 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Jorge Palma, Diane di Prima e a Poesia Beat – “Por ti mandava arranjar os dentes / e comprava um colchão”



Gosto especialmente do Palma’s Gang ao vivo no Johnny Guitar, em 1993. Pegarei numa das suas mais conhecidas canções: “Cara d’anjo mau”. E porquê? Por, a propósito desta canção, Jorge Palma escrever em nota, no folheto do CD: “Tinha que fazer alguma coisa, depois de encontrar a Jane do Toulouse-Lautrec e de abusar da Diane di Prima, com mais ou menos poemas de amor. Tinha que fazer alguma coisa.”

Descontado o episódio autobiográfico, este apontamento diz-nos de onde vem o Jorge Palma-leitor. O tal “abuso” de Diane di Prima (Nova Iorque, 1934 – São Francisco, 2020), poeta da beat generation, reside na circunstância de se escutar na última estrofe da letra: “Por ti mandava arranjar os dentes / e comprava um colchão / por ti mandava embora o gato / por quem tenho tanta afeição / por ti deixava de meter o dedo / no meu nariz / por ti eu abandonava / o meu país”. 


Palma utiliza aqui uma anaforização estilística e sobretudo cita, nos 1.º, 2.º, 5.º e 6.º versos, quase ipsis verbis, dois pequenos fragmentos de um poema semelhante de Diane di Prima, incluído na série intitulada “Mais ou menos poemas de amor”. E onde a leu o nosso cantor? Pois bem, numa histórica Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana (pp. 93-95), que tinha foto de Ginsberg na capa, e que havia sido publicada pela Futura em 1973, com organização, prefácio e tradução de Manuel de Seabra (1932-2017). Seabra foi um contista, romancista, poeta e tradutor injustamente esquecido, que viveu grande parte da sua vida em Barcelona, primeiramente exilado, e que teve um relevante papel na tradução para Português de poesia catalã, russa (por exemplo Maiakovski) e de outras latitudes geolinguísticas.


A sua Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana foi muito lida e comentada, antes e logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, e alguns poemas que nela figuram tiveram influência indiscutível em textos concretos de vozes como Jorge Sousa Braga, Jorge Fallorca, Artur Rockzane, José Soares Martins, José Pinto Leite e outros. Talvez também em escritos de Manuel Resende, de Paulo da Costa Domingues e de Carlos Tê. A partir dela, muitos foram à descoberta das edições norte-americanas ou francesas de Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder, Frank O’Hara e outros. Um exemplo: O “Portugal”, de Jorge Sousa Braga, publicado em 1981 no seu livro de estreia De Manhã Vamos Todos Acordar com uma Pérola no Cu,  descende em linha directa do “América” de Ginsberg, que figurava a pp. 30-35 dessa célebre antologia. No Brasil, Paulo Leminski (1944-1989) e Ana Cristina César (1952-1983) são apenas dois dos poetas influenciados pelo mesmo tipo de leituras.


Feminista e lutadora pelos Direitos Humanos, Diane di Prima – que atraía, além do mais, pela sua beleza juvenil e pela liberdade de costumes que a faria desaguar no movimento hippie – foi igualmente imitada. Tal aconteceu, por exemplo, por via do seu livro Revolutionary Letters, de 1971 (capa de Ferlinghetti) – que adquiri na Shakespeare & Company de Paris, talvez em 1973 ou 1975, e de que cheguei a traduzir um par de poemas. A di Prima devemos ainda, entre muitos livros, Memórias de uma Beatnick (Memoirs of a Beatnick), publicado pela Teorema, em 1999, com tradução de Maria Augusta Júdice e com uma bonita foto da autora na capa. Vale a pena ler, para conhecer Diane di Prima, o olhar dela sobre os seus companheiros de geração e o que veio a seguir.


Jorge Palma, cujas letras iniciais muito devem também a este clima literário, artístico e sociocultural beat, já tardio, de inícios de 70, leu Diane di Prima na velha e preciosa antologia (e tradução) de Seabra. E ainda bem que assim foi. Gosto imenso da sua canção. E guardo uma certa ternura pela escrita de Diane di Prima.

 

Pode escutar aqui a canção de Jorge Palma.

 

João Pedro Mésseder