quinta-feira, 6 de maio de 2010

José Afonso: vivo e presente

Desde os seus primórdios coimbrões – marcados pelo benigno ascendente do chamado fado de Coimbra –, as canções de José Afonso sempre foram a simbiose perfeita de três dons: uma poesia singular, uma voz única (de timbre e coloração inconfundíveis) e um inato talento para a melodia. E ao falarmos de melodia, e também de ritmos, não é possível esquecer a fidelidade desta música às raízes mais profundas da música popular portuguesa, mas também a sua dívida em relação aos ritmos da África e do Brasil, para não falar da irmã Galiza – que sempre soube homenagear este nosso cantor com espectáculos, com discos, com versões recriadas das suas canções e até com uma lápide no Auditório da Galiza, em Santiago de Compostela.

Mas, além da sua qualidade musical intrínseca e da perenidade das suas cantigas (reinterpretadas por tantos artistas: Vitorino e Janita, Cristina Branco, Jacinta e tantos outros), também nos toca e nos marca, cada vez mais fundo, a indissipável aura de José Afonso como antifascista, democrata, lutador radical por um Socialismo verdadeiro. Toca-nos e serve-nos de exemplo a sua dimensão humana de companheiro fraterno e solidário, disponível para todo e qualquer combate em prol dos injustiçados deste mundo: os pobres, os sem-terra, os povos em luta pela sua dignidade e independência, os guerrilheiros da esperança. José Afonso ridicularizou como ninguém o salazarismo, mais tarde a rede bombista e a recuperação capitalista após o 25 de Novembro. Mas cantou também o amor, a amizade, os direitos da mulher. E vazou tudo isto em versos e melodias de alta temperatura musical e poética, mesmo naquelas composições em que não renegou a sua intimidade, a sua experiência pessoal e contradições, e se deixou imbuir (e bem) dos influxos do surrealismo, de um aparente nonsense ou do espírito das facécias populares.

Por muito que muitos o prefiram ignorar, a imagem, a voz e a obra de José Afonso converteram-se em símbolos do 25 de Abril (será necessário recordar a «Grândola», o «Venham mais cinco», «Os índios da Meia-Praia», a «Utopia»?), expressão da resistência de um povo em combate pela liberdade e por uma vida digna.

Vinte e três anos após a sua partida (nasceu em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929 e morreu em Setúbal, em 23 de Fevereiro de 1987), a música de José Afonso está mais viva e actuante do que nunca. Venceu, como poucas, a lei da morte e o efémero. Muitos a guardam na memória e em cassetes, velhos discos de vinil e CD. E continuam a escutá-la. Isto porque a rádio, a nossa rádio, a silenciou e só conhece hoje um pacto com a mediocridade, o fácil, o insidioso pensamento único.

José Afonso, esse, está vivo. E bem vivo. A prova é ter-nos deixado alguns recados para o deprimente tempo em que vivemos. Um tempo de «primos convexos» que não parecem aperceber-se das «plantas carnívoras» e dos «corvos» que, cada vez mais, os/nos cercam e «trincam os calos»: os bancos e a alta finança, os grandes grupos económicos, os senhores gestores da riqueza deles e da miséria dos outros, as agências de rating (espécie de rotweilers do capitalismo), os directórios políticos da União Europeia – peritos em garrotear os povos – e os seus representantes em Portugal, que há mais de 30 anos desgovernam este desgraçado país. Termino, por isso, com um poema de José Afonso adequado aos dias de hoje:

Tenho um primo convexo

Tenho um primo convexo

Fadado para amnistias

Em torno dele nadam

Plantas carnívoras

Agitando como plumas

As cordas violáceas

O meu primo dormita

Glu glu entre palmeiras

Suspenso numa rede

De suor e preguiça

Corvos bicam-lhe os pés

Trincam-lhe os calos

Enquanto a tarde jaz

E a mão suspende

O gesto de acordá-lo

E a terra treme

Mas de nada o meu primo se apercebe

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

sábado, 27 de março de 2010

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2010

O Dia Mundial do Teatro é uma oportunidade para celebrar o Teatro nas suas múltiplas formas. O Teatro é uma fonte de divertimento e de inspiração e tem a capacidade de unificar as numerosas populações e culturas existentes no mundo. Mas é mais do que isso e também oferece oportunidades para educar e informar. 



O Teatro é feito por todo o mundo e nem sempre nos espaços tradicionais de teatro. Os espectáculos podem acontecer em uma pequena aldeia de África, no sopé de uma montanha da Arménia, em uma pequena ilha do Pacífico. Só precisa de um espaço e de público. O Teatro tem o dom de nos fazer sorrir, de nos fazer chorar, mas também deve fazer-nos pensar e reflectir. 



O Teatro faz-se com trabalho de equipa. Vêem-se os actores, mas existe um conjunto extraordinário de pessoas que não é visto. Elas são tão importantes como os actores e são as suas competências diversas e específicas que permitem que o espectáculo aconteça. Devem receber parte do triunfo e sucesso que se espera obter. 



O dia 27 de Março é a data oficial do Dia Mundial do Teatro. Mas todos os dias deviam ser considerados, de maneiras diferentes, como um dia de Teatro, pois temos a responsabilidade de continuar essa tradição de divertimento, de educação e de edificação dos nossos públicos, sem os quais nós não poderíamos existir.

Dame Judi Dench 


domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Crónica de uma travessia. A época do Ai-Dik-Funam, de Luís Cardoso

Muitas vezes rotulado como o escritor “oficial” de Timor-leste, Luís Cardoso ultrapassa largamente essa condição de romancista associado a uma literatura emergente, praticamente tão nova como o país com o qual surge conotada. A localização espacial das suas narrativas, em particular os quatro romances, Crónica de uma Travessia – A Época do Ai-Dik-Funam (1997), Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (2001), A Última Morte do Coronel Santiago (2003) e Requiem para o Navegador Solitário (2007), naquele país, cuja história recente serve de pano de fundo a enredos complexos e questionadores, não inibe leituras mais abrangentes, capazes de estabelecerem relações entre o local e o universal, para além de problematizarem questões pertinentes relacionadas com a identidade (nacional, cultural, linguística, religiosa…) ou com o próprio sujeito e com a sua descoberta e afirmação.

É certo que a realidade timorense, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, conhece, nas narrativas de Luís Cardoso, um destaque particular. A paisagem e todas as suas facetas, com especial destaque para o relevo, mas também para a flora e fauna, os habitantes e as diferentes línguas e culturas (incluindo tradições, imaginários e mitos) que convergem no estreito território timorense, manifestações de múltiplas e multifacetadas identidades, a que se juntam miscigenações várias, são revisitados e recriados através de uma perspectiva narrativa que, sem deixar de singularizar cada um destes aspectos, os reenquadra e reequaciona segundo um ponto de vista universal.

No caso do primeiro romance do escritor, Crónica de uma Travessia. A época do Ai-Dik-Funam (1997), assistimos ao cruzamento de uma linha narrativa assumidamente histórica, com referências concretas a factos e a figuras conhecidas, com outra de cariz autobiográfico. É desta intersecção que se constrói – ou se procura construir – uma imagem unificadora de Timor-leste, dando conta da instabilidade e da transitoriedade que marca o território e, consequentemente, as suas gentes, vivendo uma insularidade particular. A memória e a identidade são, deste modo, os eixos coesivos de um romance onde as viagens, realizadas em múltiplas direcções e com distintas finalidades, têm lugar de destaque, estruturando a realidade e a própria organização temporal e espacial. É por isso que ao reescrever a sua história e a da sua família, em particular a do próprio pai, o narrador reflecte sobre a história de Timor-leste e sobre a forma como ela se confunde com a dos seus habitantes. As ocupações, as invasões, as guerras, a independência, os exílios e a diáspora ajudam a construir uma espécie de identidade precária que, um pouco à semelhança das vagas memórias do velho enfermeiro, corre risco de se perder enquanto deambula ao sabor de incontroláveis ventos e marés. A sua morte em Portugal, no final do romance, impossibilitando o regresso a casa, pode ser lida enquanto requiem pela perda de Timor e pelas suas parcas hipóteses de sobrevivência, mas, também, enquanto esperança renovada numa Primavera redentora, de que a cena final é simbolicamente metafórica.

Ficha

Luís CARDOSO, Crónica de uma travessia. A época do Ai-Dik-Funam, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Individualidade e universalidade: notas para uma leitura de Mau Tempo no Canal

Romance dominado, simultaneamente, pela individualidade da pessoa humana e pelo contexto insular em que se integra, Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, frequentemente transborda as fronteiras do pessoal e do regional, já para não dizer do temporal, tratando, afinal, a alma humana, realidades universais e valores intemporais. O romance atribui um relevo muito especial ao Universo feminino, à volta do qual se polariza parte substancial da intriga, com especial destaque para a figura de Margarida Dulmo. É o seu percurso que o narrador acompanha com particular atenção, são os seus sentimentos que analisa com pormenor, são as suas relações afectivas e as opções feitas que são descritas e comentadas com assiduidade. Além disso, a opção pelo destaque ao feminino, além do simbolismo que encerra, permite colocar em cena questões ligadas à condição da mulher, às diferenças sociais existentes, aos condicionalismos que lhe são impostos, frutos de convenções sociais extremamente apertadas e castradoras.

Neste sentido, a personagem Margarida revela simultaneamente (o que atesta a sua grandeza do ponto de vista moral e ético) uma atitude de independência e de revolta em relação a tudo o que lhe é imposto contra a sua vontade (educação, hábitos, comportamentos, posturas, linguagem, etc.), agindo sobretudo de acordo com a sua maneira de ser e adquirindo fama de anti-convencional, ao mesmo tempo que, com o tempo, acabará por aceitar algumas das imposições contra as quais lutara, rendendo-se, ainda que parcialmente, e submetendo-se a rituais e a normas, como é o caso do casamento necessário com André.

Mas Margarida não é a única mulher que aparece no romance. A visão do feminino perpassa diferentes estratos sociais, desde os mais elevados aos mais humildes, sendo a imagem que é construída pelo narrador extremamente abonatória, mesmo quando trata de mulheres humildes ou de algumas cujo comportamento não é o mais abonatório. A questão do pecado, por exemplo, é referida de forma insistente, nomeadamente na questão do adultério feminino e na vivência dos problemas do casamento, como é o caso da infidelidade masculina ou os maus tratos e o abandono. As relações homem/mulher (dentro e fora do casamento) são alvo de uma atenção particular e são dados exemplos de situações claramente diferenciadas, com vista à obtenção de um retrato, tão completo quanto possível, da sociedade açoriana.

O amor que, numa primeira leitura, parece ser a mola impulsionadora da narrativa, acaba por, à medida que o romance avança, revelar mais fraquezas do que virtudes. Nenhuma das personagens centrais do romance se realiza através da concretização amorosa plena. Neste sentido, parece lícito afirmar que no texto pululam relações complicadas e imperfeitas. Dentro das ligações de tipo afectivo, convém não esquecer as relações extraconjugais e a forma como são julgadas quer quando são praticadas por homens quer quando o são por mulheres (ligada a este aspecto temos a presença de filhos fora do casamento) e as alusões à homossexualidade do tio de João Garcia, alvo de comentários críticos e que salientam o seu carácter vicioso (alvo de castigo divino, por acção do fogo redentor) e doentio.

A questão da insularidade é outra das características que são apontadas a propósito do romance de Nemésio com mais insistência. É, contudo, redutor efectuar uma leitura da obra exclusivamente à luz da presença dos elementos insulares, por muito fortes que sejam e condicionem a leitura de Mau Tempo no Canal. A presença de elementos fortemente contextualizados no âmbito de uma cultura particular de tipo regional não limita o romance nem particulariza a interpretação que dele se pode realizar porque, simultaneamente, se estabelecem laços com ideias perfeitamente universais e até intemporais, como é o caso da condição feminina ou das questões afectivas. De qualquer forma, existe claramente uma preocupação de reconstituição de um conjunto de práticas que caracterizam uma vivência específica da sociedade açoriana e que aproximam a narrativa de um documento de valor sociológico, histórico e até cultural, pelo relevo que lhes é atribuído. É o caso da pesca/caça da baleia; são as personagens populares e a recriação fiel das suas características (nomeadamente do seu falar típico); são os passeios pelas ilhas; é a paisagem avassaladora e o peso que revela sobre os Homens; é também o clima e as suas particularidades; enfim, é a reconstituição de todo um conjunto de elementos que pertencem ao passado da ilha e que fazem deste romance também uma leitura da História e das estórias dos Açores. Esta questão da insularidade ultrapassa, no entanto, a mera localização espacial do romance. Mais do que cenário, o ambiente das ilhas açorianas interfere activamente com as personagens, alterando-lhes a forma de pensar e de agir, com os acontecimentos e o seu desenrolar, e até o com ritmo do texto, pautado pelos nevoeiros, as tempestades e as manifestações vulcânicas.

Ana Margarida Ramos

(Universidade de Aveiro; Membro associado do NELA Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dois poemas de Lope de Vega (1562-1635)

Yo vengo de ver 



Yo vengo de ver, Antón, 


un niño en pobrezas tales, 


que le di para pañales 


las telas del corazón.

Lope de Vega

.

Las pajas del pesebre 


Las pajas del pesebre, 


niño de Belén, 


hoy son flores y rosas,

mañana serán hiel.

.

Lloráis entre las pajas 


de frío que tenéis, 


hermoso niño mío, 


y de calor también.

.

Dormid, cordero santo, 


mi vida, no lloréis, 


que si os escucha el lobo, 


vendrá por vos, mi bien.

.

Dormid entre las pajas, 


que aunque frías las veis, 


hoy son flores y rosas, 


mañana serán hiel.

.

Las que para abrigaros 


tan blandas hoy se ven 


serán mañana espinas 


en corona cruel.

.

Mas no quiero deciros, 


aunque vos lo sabéis, 


palabras de pesar 


en días de placer.

.

Que aunque tan grandes deudas 


en paja cobréis, 


hoy son flores y rosas, 


mañana serán hiel.

.

Dejad el tierno llanto, 


divino Emanüel, 


que perlas entre pajas 


se pierden sin por qué.

.

No piense vuestra madre 


que ya Jerusalén 


previene sus dolores, 


y llore con José.

.

Que aunque pajas no sean 


corona para Rey, 


hoy son flores y rosas, 


mañana serán hiel.

Lope de Vega

sábado, 21 de novembro de 2009

Assim são as Algas e Castália e Outros Poemas, de Albano Martins

Albano Martins recolheu toda a sua produção lírica publicada até 2000 em Assim São as Algas (Porto: Campo das Letras, 2000). Foram cinco décadas (1950-2000) de uma poesia de raiz helénica, culta, que, em A Voz do Olhar (1998) por exemplo, soube dialogar fecundamente com a pintura e com outras artes. Alguns textos foram rearrumados, ligeiras alterações introduzidas. O conjunto dá a ouvir uma voz intensa mas sempre depurada, tanto nas estruturas mais tradicionais da primeira fase, como sobretudo no poema em prosa, no haiku ou na versificação aparentemente mais livre dos últimos livros.

Recorde-se que a propensão dialógica da poesia de Albano Martins não se esgota num tu encarado como projecção ou substituto textual do próprio eu lírico; existe, com efeito, uma pulsão comunicante que caracteriza estes versos, vigiados e polidos numa oficina sempre atenta à musicalidade da frase, aos subtis rumores da língua. E é essa orientação que convida à meditação serena sobre a condição humana, potenciada pelo carácter gnómico de muitas composições, como acontece em vários dos livros reunidos em Assim São as Algas. Poesia a reler, para com ela se construir um «espaço partilhado» e para nela se reencontrar também o gosto da reminiscência, esse canto do melro inscrito para sempre na memória: «Há um melro que faz / o ninho na minha memória. Ouço-o / agora. Canta / a flor das giestas / e da cerejeira. Traz, / emoldurados no bico, / os meus dezoito anos.» (p. 142).

No ano que se seguiu ao da reunião em livro de toda a poesia até então publicada, um novo volume: Castália e Outros Poemas (Porto: Campo das Letras, 2001). Como o título indica, tratava-se de uma poesia fixada num espaço matricial: a Grécia, cuja cultura tão fecunda influência teve na obra de Albano Martins. Pela mão do poeta, é o leitor levado num périplo pelo Peloponeso e por algumas ilhas gregas. Viagem que lhe permite descobrir pequenas fulgurações, como esta, dedicada à mítica fonte da juventude, em Delfos: «Castália — Se desta água beberes, / morrerás, sem o saberes.» (p. 17). Na segunda parte do livro, desenham-se outros lugares míticos, os de uma vida; e, na terceira, algumas figuras humanas que nela deixaram seu rasto, através das artes que cultivaram (Carlos Paredes, Ruy Cinatti, David Mourão-Ferreira e outros). Na última secção, cinco poemas aparentemente soltos, cinco poemas de sabedoria, como são frequentemente os de Albano Martins. Quando sinestesicamente desvelam, por exemplo, o mistério de uma flor: «é que / no perfil / duma flor / está também pintado / o seu perfume.» (p. 77).

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)