quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Quem Pertence a Linha do Horizonte?, de João Pedro Mésseder e Ana Biscaia


Uma entrevista aos autores, por Luís Ângelo Fernandes


Ana Biscaia e João Pedro Mésseder têm concretizado parcerias felizes em diferentes livros: por exemplo Lembro-me (2012) e Clube Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração (2017) (neste trabalharam com a designer Joana Monteiro), obra poética distinguida com um diploma na 12.ª edição do Concurso Internacional de Ilustração e Design de Livros Image of the Book, da Feira Internacional do Livro de Moscovo, na categoria livro de autor. Na área do livro para a infância e a juventude são também diversas as colaborações: O Livro dos Meses (2012), Poemas do Conta-Gotas (2015), Versos que Riem (2016). 
Por seu lado, Que Luz Estarias a Ler? (2014) – nomeado para os XIII Troféus Central Comics / 2015 do Festival de Banda Desenhada de Beja, modalidade: Melhor Publicação Independente – tem como ponto de partida desenhos de Ana Biscaia para os quais Mésseder escreveu um curto texto narrativo. Tanto esta obra – dirigida a crianças, jovens, adultos – como Clube Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração, o primeiro centrado no drama da Palestina ocupada, e o segundo na questão dos refugiados e migrantes do Mediterrâneo, constituem exemplos de uma estética que se não deseja alheada da realidade histórica e de questões sociopolíticas candentes. 
Um novo exemplo disto mesmo encontra-se no recente livro A Quem Pertence a Linha do Horizonte? (Página a Página, 2020), poemas de preferencial destinatário adulto, escritos por João Pedro Mésseder, com vinte e cinco desenhos de Ana Biscaia, além do da capa.

Para o sítio A Inocência Descompensada, do Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto (IEL-C), disponibilizou-se Luís Ângelo Fernandes (LAF) – professor-bibliotecário, promotor/gestor cultural e autor de diversas obras no âmbito da história local – a colocar algumas questões ao autor dos poemas e à ilustradora de A Quem Pertence a Linha do Horizonte?.

LAF – O livro é um grito acerca do drama do povo palestiniano. Que principais  emoções ou atitudes o moveram? Denúncia? Resistência? Combate? Solidariedade?

João Pedro Mésseder – Creio que tudo isso se entretece nestes vinte e sete poemas. Embora eles constituam sobretudo uma reacção humana, política, poética – ao longo dos anos tornada recorrente – ao que ia acontecendo na parte palestina de Jerusalém ocupada por Israel, ou na Cisjordânia, ou na Faixa de Gaza, ou nos campos de refugiados palestinos… Ontem um massacre, hoje não sei quantos adolescentes presos ou feridos; ontem uma manifestação palestina reprimida a tiro, hoje uma escola e um hospital pulverizados pelas bombas israelitas… Enfim, a morte servida dia após dia… Como é dito num dos poemas deste livro: «Gaza: / crescer pouco / e morrer.» (p. 36) ou, num outro, «pois instale-se / na Palestina ocupada / um contador / de mortes provocadas» (p. 28). Para mim, trata-se da impossibilidade de ignorar que isto acontece todos os dias. Não em Israel, mas nos territórios palestinos, seja nos ocupados seja nas zonas cercadas pelas forças militares israelitas, um dos mais poderosos e bem equipados exércitos do mundo. Escrevo também para que ninguém esqueça. Escrevo pela paz. E, embora a poesia disso não fale directamente, procuro intervir para que a ninguém falte a consciência de que este estado há muito actua à margem da legalidade internacional (violando todas as recomendações da ONU) e do respeito pelos direitos humanos.

LAF – O título, A quem pertence a linha do horizonte?, a propósito das restrições israelitas no acesso ao mar de Gaza, pretende ser um desafio acerca do condicionamento do destino, do sonho e da liberdade?

JPM – Sim, penso que pode ser lido dessa forma. A linha do horizonte que se vê da costa é quase sempre uma imagem de liberdade e de sonho. Em Gaza, porém, o horizonte não é palestino, embora devesse ser. A marinha e o exército de Israel não o permitem. Como tal, nem do seu mar os palestinos podem dispor. Logo, a liberdade de o explorarem, dele fazendo uma das bases da economia, está cerceada. Não é possível pescar para lá de um determinado número de milhas. Do mesmo modo que todos os dias a água e a luz são cortadas por Israel em Gaza. A linha do horizonte foi usurpada, neste território. Como se lê no poema «Pergunta» (p. 10), «a linha do horizonte / a quem pertence?».

LAF – Os poemas apresentam várias roupagens, inclusive glosando versos de Camões e da poesia popular. Foi uma forma de exprimir a multiplicidade de estados de alma perante um drama quotidiano e sem fim à vista?

JPM – Sim. Quando se está a escrever, muito do que lemos vem à mente. A intertextualidade é um elemento constitutivo, indissociável do próprio discurso literário. Ao pensar nos judeus abominavelmente, criminosamente perseguidos (designadamente pelo nazi-fascismo hitleriano e mussoliniano e, hoje em dia ainda, por grupos neo-nazis na Europa e nos EUA), ao pensar nesses que agora, em Israel, vêem os poderes por eles próprios eleitos perseguir outra gente, os palestinos (curiosamente semitas, tal como eles), é impossível para mim não pensar na estrutura dum certo verso de Camões: «Transforma-se o amador na cousa amada». Na Palestina, o perseguido parece ter-se transformado em perseguidor. Por outro lado, as mortes de crianças (em Julho de 2014, em Gaza, foram mais de quinhentas), ou aqueles miúdos baleados no decorrer da manifestação da Grande Marcha do Retorno ou todos os que se encontram encarcerados nas prisões israelitas trouxeram-me à memória a lengalenga popular do Tranglomango (que Cesariny também glosou num poema seu). E assim, recriando a sua estrutura, compus o poema «A bandeira» (p. 46), que constitui uma homenagem às crianças e jovens vítimas da violência, e à luta contra a ocupação, pela independência do estado palestino. 
LAF – Os poemas foram escritos ao longo das últimas duas décadas. A razão do lançamento nesta altura relaciona-se com a iminente confirmação por Israel da anexação de parte da Cisjordânia ou foi mera coincidência?

JPM – Foi coincidência, embora o plano do governo israelita com a cobertura de Trump tenha vindo conferir uma dramática actualidade ao livro. Refiro-me, em primeiro lugar, à provocatória transferência da embaixada norte-americana para Jerusalém, e agora à anunciada anexação de partes da Cisjordânia, incluindo os blocos de colonatos ilegais, em mais uma violação flagrante do direito internacional. Em relação ao livro A Quem Pertence a Linha do Horizonte?, os poemas na verdade foram sendo escritos desde 2002. É terrível pensar que passaram dezoito anos desde o primeiro. Desejaria muito não continuar a escrevê-los nos dias de hoje. Significa que, neste momento, o drama do povo palestino continua sem solução e que a sementeira diária de mortos e de violência não conheceu ainda um termo. Porque a paz continua a ser um sonho dos palestinos e de muitos israelitas que contestam o belicismo e a actuação ilegal do seu governo. Tal como é aspiração da maioria dos portugueses, representados pela Assembleia da República, que o nosso governo reconheça o estado da Palestina, como foi recomendado, numa decisão maioritária, pelo parlamento.

LAF – As ilustrações apresentam uma forte presença do negro. A Ana Biscaia
procurou, assim, tornar mais explícita a densidade dramática dos poemas e da realidade palestiniana?

Ana Biscaia – O negro é de carvão, material que é fácil de manusear para desenhar. A linha do pau de carvão é uma linha claramente assumida – vê-se, tem espessura, contrasta com o branco do papel, que tem textura e torna o exercício do desenho numa experiência sensorial, pois o carvão a marcar o papel encontra atrito e uma leve resistência. Isso é audível quando desenho. Para mim, mais do que ilustrações, estas imagens são desenhos, e alguns deles (poucos) não são ancorados em nenhum poema, mas nas ideias que os atravessam. 
O dramatismo de alguns desenhos tenta simbolizar o que sei e o que ouço e o que leio sobre a Palestina. Mais do que pensar no efeito de densidade dramática, pensei na urgência e na rapidez com que se pode fazer um desenho. No desenho como símbolo, no desenho como resposta ao poema escrito por João Pedro Mésseder. A realidade palestina, apesar de longínqua (a vários níveis) pode ser transmitida através do desenho, mas não creio que os desenhos sejam explícitos, nem explorem a realidade palestina. São, na minha opinião, mais simbólicos uns, mais expressivos outros, o da capa é claramente surrealizante, mas todos eles são muito gráficos.

LAF – Que questionamentos pretendeu lançar?

AB – Como se nasce com uma pedra na mão? Floresce nela a pedra? E como, como se semeia? Quais os objectos de resistência daquele povo? A quem pertence a linha do horizonte? O que é uma chave e para que serve? O que são colonatos? Porque se derrubam e matam oliveiras? Que leis protegem os algozes? NAKBA (que palavra é esta?). Porque é que aquele povo é tão forte? – questionamento pessoal. Como é possível uma injustiça tão grande? 
Pensei, quando desenhei, no elogio daquele povo, nos seus símbolos, nas suas memórias, nas suas casas devoradas e nas chaves que guardam para si como objectos mágicos. 

LAF – Já são várias as obras publicadas em conjunto com João Pedro Mésseder, algumas delas premiadas. Como nasceu e como caracteriza esta cumplicidade estética?


AB – A cumplicidade não é só estética, é sobretudo de outra ordem: tem raízes numa palavra preciosa. Somos amigos. E partilhamos ideias e valores de uma humanidade que ainda está por vir, que precisa ser ganha. Creio que esta identificação nos permitiu fazer juntos livros, como por exemplo o Que Luz Estarias a Ler? e outros. É esta cumplicidade, que vai para além dos livros, que nos permite ultrapassar a questão do livro por si só. Ou que nos permite contagiar o trabalho que fazemos com o lastro oriundo da amizade que sentimos. A contaminação é um corpo vivo. O sangue corre dentro das veias do mar e há vícios que são comuns, como por exemplo o vício de rio. (Julgo que posso falar pelos dois, quando escrevo estas palavras). Conhecemo-nos  em 2009, na Feira do Livro do Porto, onde apresentámos o livro Poesia de Luís de Camões para Todos – organizado e seleccionado por José António Gomes,  com ilustrações minhas. 

Luís Ângelo Fernandes


Pode adquirir um exemplar deste livro através da editora Página a Página:



quarta-feira, 24 de junho de 2020

Falemos de frutos – e de poesia: a de Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes

Aos frutos qual o poeta, qual o pintor capazes de resistir? Entre a beleza das formas e o sabor, há um complexo de sensações que passa pela percepção da(s) cores(s), pela avaliação da madurez do fruto ou da sua dureza ainda verde, pela apreciação da frescura, ou pela degustação dos açúcares e do sumo (do suco, dir-se-á no Brasil). O fruto é um inesgotável exemplo do poder de metamorfose, de transfiguração da natureza. A terra que através da árvore se transforma em folha, em flor e em fruto firma um dos prodígios da vida natural. Apetece chamar-lhe magia, mas não é. Porque a realidade é quase sempre mais extraordinária que a fantasia. E, por estas e outras razões, os frutos marcam presença constante na arte. E representam, frequentemente, a abundância, o desejo, as erogenous zones (vêm-me à memória os versos cantados por Peter Gabriel, em «Counting out time», dos Genesis: «Erogenous zones I question you / Without you, what would a poor boy do?»). 

Por estranho que possa parecer, escutamos a música dos frutos na música do «Verão» e do «Outono» das Quatro Estações, de Vivaldi (1678-1741). Na pintura – e passe o oxímoro – as naturezas-mortas imortalizaram os frutos. A escultura e a ourivesaria não resistiram a usá-los como temas ou motivos. Arcimboldo (1527-1593) utilizou-os, juntamente com as verduras e as flores, para compor as fisionomias humanas que pintou. E seria, certamente, possível organizar mil antologias de poesia do mundo centradas nos frutos, começando pelos romances tradicionais de origem popular, com as suas meninas sentadas à sombra de laranjais.

Nessas antologias reencontraríamos, com grande probabilidade, a célebre «Arte Poética III» de Sophia de Mello Breyner Andresen com o seu inesquecível início: «A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.»

Com ilustrações de José Emídio, o belo livro infantil de Nuno Higino, A Maçã Vermelha: Viagem à infância de Sophia de Mello Breyner Andresen (2008) evoca esta relação da poeta de Livro Sexto com a eloquência de um real representado pela maçã vermelha pousada numa mesa. Nuno Higino, ainda, em A Rainha do País dos Frutos (2000) oferece aos leitores, com ilustrações também de José Emídio, uma poética narrativa em torno dos frutos e da sua rainha: a romã. Também João Pedro Mésseder dedica ao mirtilo e a outros frutos a obra de poesia para a infância, O Pequeno País dos Frutos (2018), que Paul Hardmann ilustrou admiravelmente, anunciando para breve a publicação de um livro de Poemas Tangerinos, ilustrados por Helena Mancelos. 

Mas na hipotética antologia atrás referida reencontraríamos certamente ainda Eugénio de Andrade, que tantas vezes recorreu ao fruto-metáfora e ao fruto-símbolo, a ponto de ter dado o título As Mãos e os Frutos (1948) a um dos seus livros, que marcaria a história da poesia portuguesa do século XX posterior a Pessoa, e de ter incluído a composição «Frutos» na colectânea de poemas para a infância, Aquela Nuvem e Outras (1986), onde, sobre uma ilustração em aguarela de Júlio Resende, se pode ler:

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.


Aqui, mais do que um fruto no sentido literal do termo, a tangerina é um fruto da Língua, uma palavra que sinestesicamente cativa «pelo sabor, pela cor, / pelo aroma das sílabas».

Foi justamente esse fruto e a palavra que o designa que Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes elegeram como objecto principal do seu livro de poesia pequena lua cheia de sol (Eufeme, 2020, colecção Poetas da Eufeme, série II).

Por constituir, por encerrar em si um pequeno mundo, o fruto facilmente se converte em símbolo e em matéria de metáfora e, naturalmente, de sinestesia (embora, e muito bem, um texto sentencioso trazido para a contracapa nos lembre, neste livro, que «uma tangerina / vale por mil metáforas»). 

E esses, a metáfora e a sinestesia, são talvez – ou não estivéssemos ante um livro de poesia – os principais caminhos expressivos desta escrita, trilhados numa imensa e luminosa liberdade: «A luz da tangerina é tangível» (p. 11); «Tangerina é uma rã bebé» (p. 18); «O gomo da tangerina / desenha um sorriso / na mão do poeta» (p. 27). Os exemplos poderiam multiplicar-se. Textos que inevitavelmente exploram todo esse poder de sugestão do signo, na sua materialidade significante, que já havia seduzido Eugénio de Andrade e que imediatamente faz pensar em música, quando o escutamos, quando o vemos escrito: «Jovem deusa da música» (p. 17) é de facto a tangerina.

Luminosa janela (repita-se, sem pejo, o adjectivo) aberta em tempos sombrios, como são aqueles que atravessamos, irrecusável espaço de liberdade, fantasia e graça, pleno de humanidade e de amor à Natureza e às suas oferendas, o pequeno livro de Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes é daqueles cuja leitura nos pode salvar o dia. 

Investindo, com naturalidade, em recursos como a metáfora, a comparação, a sinestesia, os quarenta poemas, quase todos sem título (há cinco excepções), propõem-nos, apesar da brevidade e da contenção/contensão que os caracteriza, uma assinalável variedade de formas poéticas, em que se destacam os poemas formados por um dístico ou um monóstico; aqueles outros que lembram o haiku; os provérbios poéticos e as greguerías; o texto em forma de canção («Canção da tangerina», pp. 48-49); ou ainda a composição com um pouco mais de fôlego, em verso branco e livre («Debaixo da tangerineira…», p. 35 – irrecusável declaração de amor ao «enredo íntimo» da árvore, a essa «alquimia de fazer húmus / na alegria alada»).

Escrito sobretudo no Inverno (como sugere o texto de abertura), dialogando, assumida e criativamente, com outras poéticas, tais como a lírica popular, a de Luís Veiga Leitão, a de Éluard (o seu famoso poema que alude à terra «azul como uma laranja»), pequena lua cheia de sol é uma boa surpresa e uma leitura alternativa, escrita ao arrepio de modas e tendências, e em contraciclo. Aos fantasmas e às sombras opõe a claridade. A luz da tangerina.

Aceite-se, pois, o convite para ler e degustar este livrinho – pequeno baú cujos principais tesouros deixo escondidos – publicado por uma das poucas chancelas militantes da poesia que vamos tendo: a muito interessante Eufeme, que edita também uma revista. Resta guardar um elogio para a sobriedade e o bom gosto gráficos do livro que, a páginas 51, inclui um desenho de Francisco Duarte Mangas e, na capa, um outro de Sérgio Ninguém, o editor.

A obra (7€) pode ser adquirida em http://eufeme.weebly.com  


José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Politécnico do Porto)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Para os 90 anos de Albano Martins – um poeta a reler

No próximo dia 6 de Agosto, comemorar-se-ão noventa anos do nascimento do poeta Albano Martins (Fundão, 1930 – V. N. de Gaia, 2018). E, a 6 de Junho de 2020, passarão dois anos sobre a sua partida.

A publicação, em 2017, de Poemas Escolhidos – 99 poemas (A.23 Edições, 2017) revelava-nos toda a beleza da sua poesia sóbria, elegante, mas apaixonada – uma antologia que o próprio autor de Secura Verde (1950) e de Rodomel, Rododendro (1989) ainda organizou, com um espírito desafiadoramente matemático: três poemas por livro anteriormente publicado (exceto no caso do último, de que apenas são selecionadas duas composições). No fundo, 99 poemas no total. O três é esse número suscetível de sugerir “uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no cosmos ou no homem”, como apontam Chevalier e Gheerbrant. Estruturado, pois, sob a égide do simbolismo triádico (mas também, noutra ótica, sob o signo da dualidade), o livro e as circunstâncias da sua organização permitem intuir como a escrita de Albano Martins sempre se situou nessa irresolúvel tensão entre Eros e Thanatos, e, no plano metafórico, se alimentou da concretude natural, sem nunca se dissociar da música – que seduz e preenche a voz do sujeito poético, tanto no domínio do diálogo intertextual como no plano fónico e rítmico. 

Esta poesia manifestou sempre, por outro lado, quer a sua dívida em relação à poesia grega arcaica e a alguns clássicos do helenismo (que nutrem também o seu modus dicendi moral) quer a atração por alguma poesia oriental, em especial pelas formas breves japonesas (de Bashô e outros). 

Uma primorosa antologia, em suma, ilustrada com desenhos de José Rodrigues em torno do motivo da cereja, que bem evidencia a singularidade desta escrita tão vinculada à natureza e à sua vitalidade.

Fundão, Vila Nova de Gaia, Porto (seus lugares de vida e de escrita), o país como um todo nunca conseguirão saldar a dívida de gratidão relativamente a este escritor, quer como grande poeta que foi, e co-organizador das folhas de poesia “Árvore” (era autor de prosas também elas límpidas e cativantes), quer como insigne e premiado tradutor, a quem ficaremos a dever a leitura, em português, da poesia grega arcaica, de Ovídio, de Catulo, de Neruda, de vários poetas italianos (por exemplo Leopardi) e espanhóis, do palestino Mahmoud Darwich, de tantos outros. Um património inestimável que não deixará de acentuar a nossa saudade. Até porque Albano Martins, além de reconhecido professor, era também um homem bom, cultíssimo, de grande elegância espiritual e de reconhecida estatura ética.

Recordemos então um poema de Albano Martins, de cenário portuense:

                Entardecer na Praia da Luz

                Espreguiçados, os ramos
                das palmeiras filtram
                a luz que sobra
                do dia. É já noite
                nas folhas. O branco
                das paredes recolhe
                o sangue e o vinho
                de buganvílias
                e hibiscos. Bebe-os
                de um trago: saberás
                que, mais do que cegueira, a noite
                é uma embriaguez perfeita.


                Castália e Outros Poemas, Campo das Letras, 2001


José António Gomes
IEL-C (Núcleo de Estudos Literários e Culturais da ESE do Politécnico do Porto)

domingo, 24 de maio de 2020

Mésseder: cor e ilha – A Doença das Cores seguido de Ilhas de Deus

Tem sido muito evidente, nos livros de João Pedro Mésseder, a herança do poeta brasileiro Mário Quintana, com os seus poemas curtos, aforísticos, mas de uma enorme complexidade no modo de perspectivar pormenores do vastíssimo mundo que nos rodeia, povoado de ângulos e arestas. João Pedro Mésseder, em A Doença das Cores seguido de Ilhas de Deus (Poética Edições, 2016), revela-se também mestre na arte do poema curto, suficientemente lúcido, para representar não uma faceta do mundo, mas para propor, instituir mesmo, um prisma de visão sobre ele, que necessariamente transfigura a nossa percepção. Este novo livro prossegue nesta linha poética, quase fenomenológica, que pensa as coisas do mundo não como elas supostamente são, mas como se apresentam ao sujeito, que necessariamente lhes acrescenta persuasivo poder metamórfico.

A perplexidade sobre as cores que o mundo nos oferece ocupa a primeira parte do volume, associando um significado metafórico a cada uma delas, tantas vezes adoptando uma preocupação social, fazendo jus à ideia de que toda a escrita é, afinal, necessariamente uma escrita política, mesmo quando os seus meandros são necessariamente subtis. Leia-se, a propósito o poema citado: «Se é negra /a fome // porque é branca / a cor / do que não come?» ou «Deus / não tem cor. // Repartiu-a / em mil pigmentos / pelos homens.». Com um dos poemas desta primeira parte dedicado à Guerra Civil de Espanha, outros com referências literárias especificadas (José Gomes Ferreira, Rimbaud, Alexandre O’Neill), esta primeira parte do livro expõe-se como uma perplexidade perante a cor e perante a palavra que a diz, numa procura de sentidos sinestésicos, a descobrir símbolos novos, mostrando que a capacidade de ter um olhar de estranheza sobre o mundo é o que distingue o olhar do poeta:

              Não há cor
              que mais emigre
              do que o negro. 

              Não há cor
              mais expulsa
              do que o negro. 

              Não há cor
              que mais se afogue
              do que o negro.

              Nem cor
              que o mar
              mais devore.

A segunda parte do livro, «Ilhas de Deus» prossegue nesta perplexidade de um olhar sobre o mundo e na exímia capacidade de dizer o máximo com o mínimo, através de poemas que atingem a proeza de iluminar percepções sobre pequenos pormenores de espaços, de sítios únicos, individualizados, que se tornam ilhas, pontos únicos na percepção do poeta. Leia-se, a título de exemplo, o curto poema dedicado ao parlatório da prisão de Peniche: 

               O parlatório
               da prisão
               de Peniche
               tão perto
               do mar
               que não se aquieta.

Rita Taborda Duarte

domingo, 10 de maio de 2020

Medula, um livro diferente, de Manuel Silva-Terra

«O poeta não escreve. O poeta anula a linguagem. (…) O poeta é o sacerdote de uma religião sem Deus.» Assim principia em tom aforístico, a pp. 11, Medula (Licorne, 2019), de Manuel Silva-Terra (n. Orvalho, Beira Baixa, 1955).  

Pouco tempo decorrido após ter trazido a lume a primeira edição deste livro, o escritor publica a segunda, inserindo, na página de rosto, esta curiosa (e bem-humorada) nota em contra-corrente, a qual muito diz sobre quem a redige e sobre o modo como encara o exercício da criação literária: «2.ª edição corrigida, transformada e diminuída».

O título, por outro lado, configura todo um programa, conotando ideias de âmago, essencialidade, interioridade e abrindo pistas para a leitura de uma escrita que se distingue não apenas pela busca da beleza e da singularidade expressiva, mas também pelo elemento meditativo. E já agora, acrescente-se, por uma espécie de (auto)pedagogia do olhar, e por uma defesa da condição da arte e do artista dignas de nota, isto sem esquecer a ligação à terra (que o nome utilizado pelo autor aliás sugere) e a um certo imaginário meridional. 

Cruzamento de poesia e discurso filosófico, e até sapiencial, Medula é um livro belíssimo, que assume o seu cunho fragmentário e poliédrico como uma poética à-vista-de-todos, sendo semanticamente denso mas, em simultâneo, de uma textualidade aberta – o que torna a leitura especialmente desafiadora e cortejadora do desejo de ler.   

A um certo tipo de leitores, será grato encontrar aqui uma procurada diversidade formal: poemas médios-curtos, alguns próximos do tanka, haikus, aforismos, poemas em prosa muito breves e tudo isto dialogando com um mosaico de citações de nomes referenciais (Bashô, Angelus Silesius, Camões, S. João da Cruz, Hölderlin, Emily Dickinson, Melville, Nietzsche, Rilke, Kafka, Unamuno, Machado, Wittgenstein, Cioran, Camus… – aqueles talvez que o sujeito da escrita tira da mochila, como afirma a pp. 20, os que de algum modo lhe servirão de companhia e, porventura, de farol). Integram ainda a ossatura textual de Medula narrativas breves, por vezes com algo de parábola. Um fragmento (p. 12):

Um homem sem idade, porque os pedintes e os sem-abrigo, como é este homem, não tem dias. Só têm rugas, barba e cabelos grandes. Cabelos brancos e desgrenhados, barba branca por aparar.
Cruzaram-se os dois homens ao final do dia, nos subúrbios da cidade. 
O homem bem vestido regressava a casa, depois de mais um dia de trabalho no escritório. 
O homem dito sem-abrigo empurrava um carrinho de supermercado cheio de caixotes com os seus poucos haveres. Havia uma semana que estava em viagem. Tinha atravessado a ponte a pé, com os seus sacos às costas. Foi mandado parar e identificado pela Guarda. Continuou. No primeiro supermercado que encontrou à beira da estrada, tranquilamente encheu um carrinho de compras vazio com os seus sacos e caminhou durante uma semana. 
– Assim se imaginou o homem de fato e gravata.

Leia-se outro fragmento, bem diverso, do ponto de vista formal (na sequência de um poema (p. 122) escrito após o desaparecimento físico de Leonard Cohen), um belo texto em verso que muita coisa pode evocar, começando pelo caminho que lhe é aberto pela isotopia musical, mas que é muito sugestivo e expressivo no seu lirismo e na sua aparente simplicidade discursiva: «Tocas as cordas mais sensíveis / fazes sangrar a madeira / tão antiga com seus veios quentes / sua resina translúcida.» (p. 123). 

Neste livro, talvez mais do que noutros do autor, parece existir uma vontade intensa de problematização existencial, de meditação centrada no modo-humano-de-ser-sujeito-no-tempo – um eixo que não abdica de certas fontes do conhecimento antropológico e do pensamento religioso. 

Trata-se ainda de um livro muitas vezes – não sempre – tocado pelo desencanto, mas, repita-se, desafiador. Um dos aspectos mais insinuantes prende-se com aquele que é o modo de olhar a que dá expressão, o seu imaginário poético e a maneira como ele se traduz em formulações e estruturas imagéticas e discursivas muito próprias, às quais não falta certa dimensão gnómica.

De referir, já agora, muito de passagem, o influxo orientalizante desta escrita, tanto através do diálogo com textos sagrados de diversas tradições, como por via dos vários haikus (ou textos próximos do haiku) que aqui descobrimos, incluindo uma versão de Bashô (p. 109):

Divino é aquele
que perante o relâmpago
nada sabe.

A propósito desta última nota, direi que Manuel Silva-Terra é também tradutor, ou antes, autor de versões de textos orientais, como confirmam as suas belíssimas antologias As Cigarras Vão Morrer – haiku: uma antologia (Casa do Sul, 2008) e Primeiro Amor e Outros Poemas (Licorne, 2013), selecção de haikus de um dos mestres nipónicos, Yosa Buson (1716-1783); bem como versões/recriações de grande poesia chinesa, como a de Wang Wei (699-759), em Habitar o Vazio (Licorne, 2018), e de Tu Fu (712-770), em Entre Céu e Terra – Transgressões de Manuel Silva-Terra (Licorne, 2020). Saliente-se ainda O Círculo do Amor(Licorne, 2016), de Rumi (1207-1273), nascido em Balkh, no actual Afeganistão.

Professor de Filosofia, editor, antologiador – relembre-se ainda o belo E o Céu Tão Baixo – uma antologia poética sobre o Alentejo (Casa do Sul, 1999) – e com catorze títulos editados, Manuel da Silva-Terra é uma das vozes da poesia portuguesa contemporânea que não podem ser ignoradas. Últimos títulos vindos a lume: )Condomínio( (2013), Pastor de Pedras(Licorne, 2014), Canto Chão (Licorne, 2016) e Medula (Licorne, 2019). 

A terminar, fique registado o link para uma das principais chancelas editoriais portuguesas de poesia, a Editora Licorne: https://editoralicorne.blogspot.com/

José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)





sexta-feira, 1 de maio de 2020

Efémero mas incandescente – a poesia breve de Flor Campino



Pintora conhecida, autora de várias obras narrativas destinadas à infância (algumas por si ilustradas), Flor Campino (n. Tomar, 1934) é também poeta, como atestam os seus livros A Aresta das Folhas (2000), O Crivo dos Dedos(2006), Pérolas de Vidro / Perles de Verre (2008), O Lume dos Dias (2011) e, agora, Elogio do Efémero: Incandescências / Éloge de l’Ephemère: Incandescences (2017) 1, introduzido por um «Pequeno exercício de apresentação e louvor», da autoria do poeta e ensaísta Diogo Alcoforado, que é, ele próprio, um desafiador texto pontilhista, de natureza poética.

Alguns destes livros possuem um traço comum: a brevidade textual; e dois deles partilham a condição de livros bilingues. Em Português e em Francês nos são apresentados Pérolas de Vidro e Elogio do Efémero, revelando a afeição de Flor Campino à língua francesa, a que não são alheias a sua longa permanência em França, e uma natural e forte ligação à cultura e à poesia deste país. Creio eu que, além do interesse em disponibilizar estes textos a leitores de ambos os idiomas, existe, sobretudo, o desejo de compartir o efectivo manejo poético de uma língua que, tendo raízes no latim, como a nossa, a ouvidos portugueses soa em geral como uma língua de grande beleza e expressividade rítmico-musical. Estamos a falar da língua de Claudel, Éluard, Guillevic – para apenas referirmos poetas que também fizeram incursões nas formas breves – e de outras grandes vozes. E, naturalmente, estamos a falar de uma cultura que, durante séculos, exerceu enorme influência na produção cultural portuguesa. 

Mas centremo-nos neste livro e escutemos o que, na Nota introdutória, a própria autora tem a dizer sobre o assunto. Começando por declarar que por vezes os poemas lhe surgem, na sua primeira forma, em Português e, outras vezes, em Francês, acrescenta: «em qualquer dos casos tenho curiosidade de ver o que se passa no segundo caso, motivada pela plasticidade e musicalidade próprias de cada língua. Agrada-me o diálogo entre elas e o que cada uma pode trazer por vezes de inesperado, longe da tradução linear.» (p. 5)

Eu diria que este diálogo, no livro de Flor Campino, resulta sempre numa interacção sugestiva (também eu sinto o apelo musical da língua de Racine), estimulando, aqui e acolá, uma leitura em voz alta. Por outro lado, as variações semânticas e fónico-rítmicas entre texto em português e texto em francês constituem um segundo desafio de leitura a que a obra permanentemente convida. Um pequeno exemplo que, na versão francesa, cria uma saborosa ambiguidade permitida pela palavra air, a qual, na sua polissemia, tanto pode significar ar como melodia:

Fonte de sonho:
a luz da manhã
e um fio de música
brincam na cortina.

Source de rêve:
la lumière du matin
et un air très lointain
jouent dans le rideau. (p. 67)
  
Elogio do Efémero é composto por 157 poemas muito breves, sem títulos, sendo primeiramente apresentada, em cada página, a versão portuguesa e depois, em itálico, a francesa (esta última foi revista pelo poeta e tradutor Max de Carvalho). Segue-se, desta maneira, um preceito desejável neste tipo de livros: um poema por página com muito espaço branco à volta, o que em si possui um valor intrínseco. Ou seja, o texto vê-se sublinhado na sua inteireza lapidar, pode ser de imediato relido ou lido terceira e quarta vez, sendo o espaço em branco como que um convite a essa releitura e à reflexão por parte do leitor. Finalmente, insuladas, as palavras dir-se-ia ganharem uma vibração material e de sentidos favorecida pela grande superfície branca e vazia – o que de certa maneira representa visualmente um espaço prestes a ser preenchido por essa subjectividade interpretativa do leitor, muito concentrada, que é própria da leitura de poesia e da construção da significação poética a que esse leitor procede. 

Este tipo de disposição gráfica é comum nos livros de haiku mais bem editados. E é evidente que algo na escrita de Flor Campino é devedor da poética do haiku. Tal não significa, porém, que possamos chamar haikus à maioria dos poemas – nem a poeta o deseja –, isto se nos ativermos às regras mais tradicionais e antigas de composição desta forma breve, que Flor Campino, aliás, afirma não lhe interessarem: as dezassete sílabas métricas; a presença da palavra-estação ou kigo; a sujeição ao princípio de o poema, na sua referencialidade, remeter para uma particular estação do ano.

Mas permito-me recordar ainda outros traços do haiku, pois, apesar de tudo, alguns deles (apenas alguns) encontramo-los na poesia de Flor Campino.

«Essencialmente descritivo», afirma Anthero Monteiro (2002), «o haiku alude a coisas concretas com existência física, reporta-se a um presente geralmente vinculado ao kigo, ou seja à estação do ano, e é expressão do efémero e da transitoriedade de um mundo em permanente mudança. Baseando-se nas sensações físicas, que podem eventualmente fazer disparar o sentimento ou a recordação, sem que seja quase nunca possível o processo inverso, o haiku é uma espécie de instantâneo fotográfico».

Para muitos, a essência do haiku é o «corte» (kiru). Isto é geralmente representado pela justaposição de duas imagens ou ideias e um kireji («palavra que corta») entre elas. Esta marca sinaliza o momento da separação e destaca o modo como os elementos justapostos são relacionados. Possui outros traços: o último verso, por exemplo, tende a ser uma síntese/conclusão e a funcionar como uma revelação.

Expressão de uma atitude contemplativa/reflexiva, o haiku, no Japão, foi influenciado pelo budismo zen e está ligado, muitas vezes, à errância do sujeito pelo mundo, em profunda irmanação com a natureza. Recordo de passagem que Matsuo Bashô (1644-1694), reconhecido como influente poeta, foi um dos mestres do género. Outros foram Taigui (1709-1771), Buson (1716-1783), Enomoto Seifu (mulher – 1732-1815), Ryokan (1758-1831), Issa (1763-1827), Shiki (1869-1902) e Kioshi (1874-1959).

Além de evidenciar o gosto japonês pela caligrafia e pela miniatura, o haiku não tem rima; avesso à metáfora e a excessos retóricos, faz uso do jogo de palavras e da onomatopeia e não recusa o humor.

Nos dias de hoje, o leque temático deste género poético é quase infinito, não apenas no Japão mas também no ocidente, onde foi descoberto entre meados e finais do século XIX.

Ora, ao ler-se Elogio do Efémero, observa-se que constituem traços comuns ao haiku e aos poemas, aliás belíssimos, de Flor Campino, a contenção e a predominância de poemas de três versos (embora existam também dísticos e composições de quatro e cinco versos) e, por outro lado, a atenção extremamente sensível, ao mundo natural (flores, árvores, animais…), a atitude contemplativa (mas igualmente reflexiva) e a arte de captação do instante – do efémero (como refere o título), daquilo que, sendo passageiro, é no entanto essencial reter, porque, na perspectiva do eu, arde.

Deve-se, aliás, acrescentar que, nesta ou naquela composição de Flor Campino, o haiku, no plano formal (dezassete sílabas métricas), é respeitado, mas noutros aspectos – o imagístico, por exemplo – é subvertido. Vejamos um caso:

Com o ouro furtado
a abelha filigrana
a charneca em flor. (p. 16)

Efémero é o que dura pouco. É esse momento da realidade, esse diamante de tempo na sua peculiar vibração, o que o poema tenta capturar e fixar. E por se tratar de pequenas fulgurações, é compreensível que o subtítulo fale em incandescências

Embora breves, do ponto de vista temático, os poemas de Flor Campino são diversos, e permitem ao leitor uma viagem intensa por dentro de uma subjectividade mais que susceptível de o interessar e seduzir. A conferir-lhes unidade, além dos aspectos formais e de um registo poético pessoalíssimo, está uma certa implicação que me permitiria chamar autobiográfica. Ela é sugerida (os textos de Flor Campino sugerem mais do que dizem) no poema da p. 23, e confirma-se nos que se lhe seguem e que se reportam a flores:

Que o corpo
– êxtase e ascese em harmonia –
me guarde inteiro o nome vegetal. (p. 23)

De que fala este sujeito de «nome vegetal» devotado à escuta do mundo? Do espaço íntimo que o rodeia (a casa, a criança, os objectos, as imagens que observa – podem ser as de um pintor, como Klee…), do mundo exterior mais ou menos próximo, que escuta e contempla, que o extasia (ar e céu, jardins, espaços naturais, povoados de plantas, aves, insectos, gatos…). Depois, um tópico, capital nesta poesia: a relação do eu com um tu – a questão do amor, da dor da separação, da falta, da procura, da perda. Uma dimensão que, não raro, se articula com outro eixo essencial do livro: tempo e memória.

O que acabo de apontar não faz, porém, desta escrita, um discurso poético sombrio. Talvez seja até, sobretudo, um discurso serenamente extasiado, ainda que aqui e acolá, dolorido. É que há dias «brunidos de alegria». Mas é, seguramente, um discurso preparado para a sombra: 

Andar os caminhos
sabendo que os dias
brunidos de alegria
nos ocultam o cortejo de sombra. (p. 74)

Vejamos uma dessas sombras que, na sua formulação, respeita quase a regra métrica do haiku:

No avesso sedoso 
do teu casaco, minhas mãos
afagam tua pele. (p. 72)

Outra linha deste mapa poético é a aforística, discretamente gnómica ou sentenciosa, muito própria de algumas formas breves, por vezes articulada com a auto-analítica (ex. p. 99). São traços em que estes micropoemas, aliás, se distanciam efetivamente da poética tradicional do haiku. Eis três exemplos:

Os muros que levantarmos
irão connosco
aonde quer que vamos. (p. 33)

Insuflemos
à simetria do previsível
a graça de uma brisa. (p. 35)

A solidão? Há quem a vista
tão bem cosida à pele
que nem a si mesmo se enxergue. (p. 135)

Apenas dei a conhecer meia dúzia da mais de centena e meia de curtíssimas composições deste poemário de Flor Campino, sensível e poliédrico, mas uno, que me fez companhia durante uns poucos dias, proporcionando-me momentos de fruição poética. Lamentei ter de terminar a leitura inaugural, pois desejava prolongá-la, conviver com esta escrita enraizada no vivido, contida e rigorosa, espécie de breviário da terra, de especiosa delicadeza espiritual, impressivo visualismo e bom gosto – ou não estivéssemos ante a escrita poética de uma pintora e ilustradora.

Nota

1 Flor Campino. Elogio do Efémero: Incandescências / Éloge de l’Ephemère: Incandescences. Porto, Afrontamento: 2017. Todas as citações de textos do livro são retiradas desta edição, indicando-se as respectivas páginas entre parênteses.


Referência bibliográfica

MONTEIRO, Anthero (2002). «À Noite as Estrelas Descem do Céu: João Pedro Mésseder abre à juventude mais uma porta para a poesia», suplemento «Das Artes das Letras», O Primeiro de Janeiro, 30/12.


José António Gomes



IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Géneros e formas breves: uma reflexão também ela breve

Com longa tradição na literatura – a qual remonta a tempos tão antigos que nem mesmo a palavra literatura era ainda utilizada –, com um número de cultores que surpreende, os géneros breves têm merecido estudos diversos. De que falamos quando nos referimos a estes géneros? De modalidades em verso ou em prosa como as que enumeraremos, e que podem pertencer à literatura escrita institucionalizada ou provir do património literário oral de raiz popular. Mas podem também alguns desses textos não ser dotados de uma intencionalidade estética, mas deles ser feita uma leitura, digamos, literária. Traço comum a tais composições: a brevidade textual, com todo um conjunto de implicações (formais, semântico-pragmáticas, intertextuais…), que não serão abordadas porém neste curto texto.

Em verso, mencionemos o epigrama da Antiguidade Clássica (presente na Antologia Palatina, com poemas dos períodos clássico e bizantino da literatura grega; leia-se também a poesia latina de um Catulo ou de um Marcial…), o epitáfio ou epicédio (com origem também na Antiguidade Clássica) e ainda o haiku japonês (começando pelos quatro mestres: Bashō, Issa, Buson, Shiki…).

Mas refira-se, já agora, o haiku tal como o cultivaram os ocidentais, depois de o terem descoberto em finais do século XIX. Exemplos: os espanhóis Antonio Machado, José Luis Parra, Susana Benet, Juan Kruz Iguerabide (basco); os argentinos Jorge Luis Borges e Andrés Neuman, e tantos outros hispano-americanos como o uruguaio Mario Benedetti e os mexicanos José Juan Tablada e Octavio Paz; o sueco Tomas Tranströmer; os canadianos Leonard Cohen e George Swede; os norte-americanos Ezra Pound, Richard Wright, Steve Sanfield, Kerouac e outros escritores da Beat Generation; os franceses Paul Claudel, Julien Vocance, Paul Éluard, Eugène Guillevic, Paol Keineg (bretão); os brasileiros Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Paulo Leminski, Millôr Fernandes, Paulo Franchetti e muitos outros. E, pensando em Portugal, teríamos igualmente de apontar muitos nomes de poetas que deliberadamente cultivaram o haiku ou que se abeiraram do género e da sua forma tradicional, mesmo sem o assumirem de forma directa. São os casos de Celestino Gomes, Fernando Pessoa, David Mourão-Ferreira, Luís Pignatelli, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Albano Martins, Liberto Cruz, Luísa Freire, Pedro Tamen, Casimiro de Brito, Yvette K. Centeno, João Carlos Raposo Nunes, Flor Campino, Bernardette Capelo, Francisco José Craveiro de Carvalho, Vergílio Alberto Vieira, David Rodrigues, Leonilda Alfarrobinha, Hercília Agarez, Ana Mafalda Leite, Manuel Silva-Terra, José Soares Martins, José Pinto Leite, João Pedro Mésseder, Adília Lopes, Jorge Sousa Braga, Francisco Duarte Mangas, João Rasteiro, José Tolentino Mendonça, Inês de Barros Baptista, João Bosco, José Efe, Catarina Nunes de Almeida, João Manuel Ribeiro, e outros. Mesmo na própria escrita preferencialmente destinada à infância e à juventude, será possível encontrar exemplos em livros de Teresa Guedes, Jorge Sousa Braga, Nuno Higino ou João Pedro Mésseder.

Mas géneros breves, em verso, são-no ainda o tanka japonês – que igualmente tem os seus cultores no ocidente –, o limerick de origem popular, oriundo das “nursery rhymes”, mas depois cultivado por esse mestre do “nonsense” vitoriano que foi Edward Lear (igualmente ilustrador) e por muitos outros poetas. Próximos do haiku encontram-se o senryū (que vai buscar o nome ao do poeta japonês do século XVIII, Senryū Karai) ou mesmo o poetrix, criado pelo brasileiro Goulart Gomes e, em Portugal, cultivado por Anthero Monteiro.

Consideremos também a quadra, não enquanto tipo de estrofe, que é, mas enquanto poema uno com essa forma (Pessoa e as suas quadras de cariz popularizante; os poemas de quatro versos compostos por Emily Dickinson ou por José Bergamín – poeta espanhol da Geração de 27; as quadras de António Aleixo; as quadras populares…). Ao mesmo nível do poema com a forma de quadra única, encontram-se os de apenas uma quintilha, ou um terceto, ou um dístico ou mesmo um monóstico (quer no espanhol Bergamín quer em Luís Veiga Leitão ou nos últimos livros de Alberto de Lacerda e de Adília Lopes encontramos exemplos destes poemas de muito curta extensão).

As “rimas infantis” mais breves do património literário oral (certos trava-línguas, adivinhas, canções de berço, rimas de jogos e outras) podem ser também consideradas como géneros poéticos breves, assim como muitas fábulas em verso (por exemplo de La Fontaine ou de Bocage – quase sempre versões das de outros fabulistas), ainda que neste caso estejamos perante textos do modo narrativo, ao passo que, na maioria dos exemplos antes apontados, o modo dominante é o lírico.Embora coloquem por vezes em questão a própria noção de verso, muitos poemas concretistas e visuais, por seu lado, têm a brevidade em comum com as modalidades poéticas que mencionámos.

Passemos aos géneros breves em prosa. Embora possa, por vezes, recorrer a uma estratégia narrativa, lírico é também, em geral, o poema em prosa breve – leiam-se os de Almada, Carlos de Oliveira, Luís Veiga Leitão, Eugénio de Andrade, Ana Hatherly, Luís Miguel Nava ou Mário Castrim (na escrita para a infância) –, género que tem no Baudelaire de Le Spleen de Paris um dos seus fundadores. E possuem igualmente certo cunho lírico todas aquelas práticas discursivas de entrecruzamento da filosofia e da moral com a literatura, em cuja esfera se inscrevem o aforismo (veja-se em Portugal o caso de Marcello Duarte Mathias), nomeadamente o aforismo poético (Pessoa, Drummond, António Osório, Eugénio Roda…), a máxima (o magnífico La Rochefoucauld), o pensamento (Marco Aurélio, Pascal) ou a greguería – esta inventada pelo espanhol Ramón Gómez de la Serna, mas cultivada também por autores como Enrique Jardiel Poncela, Mário Quintana ou José Jorge Letria (neste caso, na escrita para a infância). É sabido que abundam os filósofos (Nietzsche, Wittgenstein, Cioran…) que fizeram uso do aforismo como forma expressiva preferencial de reflexão. E muitos são também aqueles prosadores em cujas narrativas e textos dramáticos se encontram segmentos aforísticos, alguns deles brilhantes (Oscar Wilde, Pascoaes, Vergílio Ferreira, Saramago, Agustina…), dos quais, amiúde, se organizam recolhas antológicas – neste caso, não de textos unos mas de fragmentos.

Também podem ser englobados neste conjunto o provérbio, prática de sabedoria do património literário oral muito usada em contextos argumentativos, e com estrutura semântico-formal característica, bem como o provérbio reinventado no âmbito da escrita para a infância e a juventude (Francisco Duarte Mangas, Vergílio Alberto Vieira, Teresa Marques…). Porém, no caso dos aforismos, pensamentos, máximas, provérbios, importará distinguir textos de intenção literária de outros que, não a tendo à partida, não deixam de possuir amiúde elementos de fruição estética.

Frequente, por outro lado, é deparar com narrativas breves ou muito breves situadas na fronteira entre conto e poema em prosa. São os casos de certos micro-contos e contos breves de autores como Augusto Monterroso (guatemalteco de origem hondurenha), Eduardo Galeano (Uruguai), Mário Quintana e muitos outros latino-americanos. E, em Portugal, de um Mário-Henrique Leiria – ligado ao segundo grupo surrealista de Lisboa –, de um António Torrado, de um Henrique Manuel Bento Fialho, e de um Augusto Baptista, cartoonista e fotógrafo além de notável autor de contos breves e micro-contos.


José António Gomes


IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)