segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

José Régio – um par de memórias: crónica

Tinha treze anos quando a notícia da morte de José Régio chegou aos meus ouvidos. Frequentava o então 4.º ano do Liceu de Alexandre Herculano, no Porto, e os meus interesses escolares centravam-se na disciplina de Português. Leccionava-a (estávamos em 1969) Lucinda Araújo – poetisa estimável 1, o que só viria a saber mais tarde. (Não resisto a um parêntesis para recordar que, pela primeira vez no meu percurso de estudante, tivera a sorte de um professor aconselhar, para eventual leitura de férias, uma lista de romances e contos de autores portugueses. Em alguns dos adolescentes que então éramos, este conselho foi semente que deu fruto. A Lucinda Araújo o devemos.)

Desde muito cedo a leitura me ajudara a preencher os tempos livres. Mas a 8.ª edição da Selecta Literária (1968) organizada por Júlio Martins e Jaime da Mota, publicada pela Didáctica Editora e adoptada como manual de leitura para os então 4.º e 5.º anos do liceu, não oferecia apenas textos dos grandes autores do passado. Pela primeira vez, abriam-se-nos as portas da modernidade, já que a selecta dava a ler também textos de Pascoaes, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Aquilino, Torga, Sebastião da Gama e outros. Cada nota biográfica vinha acompanhada de um rosto – e os olhos de Régio interpelavam-nos, olhando-nos fixamente por trás das lentes dos seus óculos de aros grossos.

Nesse mesmo ano — em que simultaneamente começara a interessar-me por música, por política e a trocar versos com amigos –, lembro-me da intensa impressão provocada pela leitura da «Balada de Coimbra» (do livro Fado) e do poema «Nossa Senhora» (de Mas Deus é Grande). E também de ter deparado, um par de vezes, com a figura de Régio na televisão. Seduzia-me, nessa altura, a coloquialidade de alguns dos seus decassílabos, tão diversa da pompa neo-clássica a que me tinham habituado alguns setecentistas lidos pouco tempo antes: «Tenho ao cimo da escada, de maneira / que logo, entrando, os olhos me dão nela, / uma Nossa Senhora de madeira / arrancada a um Calvário de capela.» (Júlio Martins e Jaime da Mota, op. cit., p. 421).

Quando enfim dispus de um magro pecúlio para adquirir, por minha livre inciativa e escolha, literatura «a sério», e desse modo começar uma verdadeira biblioteca de romances e poesia, vi-me na contingência de escolher dois dos livros menos caros que então encontrei na livraria. A minha opção recaiu em Eça (A Cidade e as Serras) e no menos volumoso livro de poemas que então descobri entre as obras de Régio – esse poeta de rosto conhecido, cujo falecimento, noticiado meses atrás, deixara pesarosa a minha adolescência. Guardo religiosamente esse pequeno volume – a 2.ª edição de Filho do Homem (1.ª ed., 1961; 2.ª, Portugália, 1970) –, pois com ele dei início à minha colecção de livros de poesia. E a bela e estranha ave que João da Câmara Leme desenhara para a capa conquistou para sempre um poiso na minha memória.

Cada poema era precedido do nome do ciclo em que se inseria, dando assim a conhecer, desde logo, alguns dos tópicos recorrentes da poética regiana: Deus e o Homem («O Pólo Sumo»), o amor, o erotismo e a morte («O Amor e a Morte» e «Os Epitáfios»). Mais do que todos, me fascinavam porém os poemas do «Cancioneiro de João Bensaúde» – onde alguns terão querido ler uma manifestação heteronímica, semelhante às do poeta que Régio trouxera para as luzes da ribalta literária, nos primeiros números da presença: Fernando Pessoa 2.

Com aquela ousadia (e sua ponta de irresponsabilidade) de quem não é assíduo frequentador do autor de A Chaga do Lado, direi que João Bensaúde se me afigura antes como um sujeito lírico peculiar na poesia de Régio — aquele que lhe permitia cultivar uma certa «simplicidade» e leveza de expressão (alguns críticos achá-la-iam problemática), por vezes uma construída ingenuidade de vagas ressonâncias caeirianas. Pensando nas gerações mais jovens, encontro hoje, nesses traços, uma das possíveis portas de entrada no universo poético de José Régio: «Meus versos que afinal sois naturais / Como as rosas, os montes, as nascentes, / De que abismos chegais? / Desceis de que vertentes? // (…) Sou eu que vos componho, ou vós que me criais, / Meus versos hoje nus e secos, / Meus versos que afinal sois naturais, / – Rosas e estrume, águas e lodo, montes, ecos…?» (Filho do Homem, ed. cit, pp. 82-83).

Fugiria, por outro lado, à verdade se dissesse que a minha adolescência ficara indiferente ao poderoso erotismo que se desprende dos poemas do ciclo «O Amor e a Morte» (e, em geral, de muita da grande poesia de Régio). Na realidade, a beleza (e sensualidade) de alguns destes versos não mais me abandonaram: «A mulher que eu amo, que impressão me faz! / De cabelos rasos, parece um rapaz. (…) Com seu riso aéreo nos lábios vermelhos, / Ela, então, recebe-me, entre os nus joelhos, / Sobre o longo corpo inteiramente franco… / E os seus olhos mortos boiam só em branco.» (Filho do Homem, p. 10).

Que dizer por outro lado das glosas do tema do poeta morto que «Os Epitáfios», entre o terno e o amargo, nos propõem: «As asas não lhe cabem no caixão! / A farpela de luto não condiz / Com seu ar grave, mas, enfim, feliz; / A gravata e o calçado também não. (…) Não vêem que ele, nu, faz mais figura, / Como uma pedra ou uma estrela? / Pois atirem-nos assim à terra dura, / Ser-lhe-á conforto: / Deixem-no respirar ao menos morto!» (Filho do Homem, p. 20).

A plasticidade destes versos, a frescura e coloquialidade de muitos deles, o torturado mas fino olhar poético que revelam ainda hoje surpreendem. Razões de sobra para regressar a esta poesia e a Filho do Homem – pequeno grande livro que ainda guarda, nas suas páginas amarelecidas, o rasto de um deslumbrado olhar adolescente. O meu – aqui lembrado em honra e louvor de José Régio, arrebatado pela morte no ano em que, pela mão dos seus versos, me iniciei na palavra dos poetas.

Notas

1 Lucinda Araújo publicou Nunca mais Amanhece – Poesia (Porto: [Inova imp.], 1968), O Sabor das Amoras – Poesia 2 (Vila Nova de Gaia: [Tipografia Rocha], 1973) e Calendário Egípcio – Poesia 3 (Porto: Figueirinhas, 1985). Sobre Calendário Egípcio, leia-se Luísa Dacosta (1992). Na Água do Tempo. Lisboa: Quimera, pp. 334-336.

2 Sobre esta questão, leia-se, por exemplo, «João Bensaúde: heterónimo ou alter-ego de José Régio», de Albano Martins, texto incluído no seu livro A Letras e as Tintas (Famalicão: Quasi, 2006), pp. 9-12.

José António Gomes

(NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Maresia e o Sargaço dos Dias, de Luísa Dacosta

Comum às crónicas de A-Ver-o-Mar (Porto: Figueirinhas, 1981) e aos poemas de A Maresia e o Sargaço dos Dias (Porto: ASA, 2002, col. “Pequeno formato”), de Luísa Dacosta, é a presença obsidiante do mar e da praia. Estes funcionam como o universo do qual emergem a matéria verbal e os processos estilístico-retóricos dos poemas, mas sobretudo como mapa pessoal no qual se foram inscrevendo lugares de uma geografia íntima, como a mitificada aldeia de A-Ver-O-Mar, matriz de figurações míticas construídas pela própria Autora.

Nas crónicas, é recorrente a cena das mulheres-Penélopes esperando os seus homens embarcados, espelho da situação do “eu” retomado em A Maresia e o Sargaço dos Dias. Por isso essas mulheres marcam também presença nos poemas, que permitem por outro lado ler referências à dura faina dos sargaceiros. Até porque Luísa Dacosta conheceu por dentro esta comunidade cujo declínio, em tom de despedida, é evocado no prefácio. Mas esta poesia configura sobretudo um discurso de amor naufragado que deixa perceber a sua genealogia literária: as vozes femininas das marinhas galaico-portuguesas e do cancioneiro popular. Uma escrita que se reinventa para lembrar e ser lembrada, a fim de que a memória da que escreve vença o tempo, um pouco à semelhança do sujeito feminino do poema “Entalhe” (p. 70) que logrou transformar em “lembrança viva” a sua própria imagem pretérita: “Era uma lembrança viva. / Mas a realidade tinha passado, / como um barco, ao deixar para trás / a linha do horizonte.(…)” (p. 70).

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

David Mourão-Ferreira: “O grande leitor” (Eduardo Prado Coelho) e “Ladainha dos póstumos Natais”

O grande leitor

Foi com a minha avó Deolinda, que era professora do primário da época, que aprendi a ler, mas foi com David Mourão-Ferreira que aprendi verdadeiramente a ler um texto. O David era um leitor extraordinário. Partia de dois princípios: primeiro, que era necessário traduzir um texto, não por alto, mas em todas as suas articulações, para o começar a compreender (traduzir um poema é uma tarefa fascinante); em segundo lugar, que era preciso aprender a dizê-lo em voz alta para continuar a perceber o que o poema queria dizer (ou, se preferirem, aquilo que ele dizia sem querer). Como se diz num poema de Zeca Baleiro aproveitado para uma canção por Simone, "eu não sei dizer / o que quer dizer / o que vou dizer". O que se verifica é que este querer dizer é uma decisão de ninguém. Do dizer em si mesmo.
O David chegava à aula e pegava num poema barroco. Lia-o e nós entendíamos como uma voz dá corpo ao poema. Ficávamos deslumbrados. Mas, para além desse momento de arrebatamento, havia toda a fase analítica. Porque amar implica trabalho. E nisso é que David era um leitor admirável – e único. Grande poeta, grande tradutor, era também um grande intérprete vocal dos poemas. (…)

Eduardo Prado Coelho, “O grande leitor”, Público, 1-11-2005

Ladainha dos póstumos Natais
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
.
David Mourão-Ferreira
Obra Poética

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Requiem para o Navegador Solitário, de Luís Cardoso

Dez anos depois do seu romance de estreia, Crónica de uma travessia. A época do Ai-Dik-Funam (1997), Luís Cardoso dá à estampa um livro onde voltam a cruzar-se as linhas estruturantes da sua obra, a questão da identidade, entendida em termos individuais e nacionais, e da História, ficcionalmente recriada como uma espécie de mola que faz movimentar os homens, controlando e definindo as suas acções.

Protagonizada por Catarina, uma jovem chinesa iludida por sonhos de príncipes encantados e histórias de amores felizes, que se desloca para Timor onde espera reunir-se ao seu noivo, a narrativa dará conta do processo de crescimento e de amadurecimento da personagem, feito à custa de desilusões, desgostos, injustiças e muito sofrimento, uma espécie de metáfora da história do próprio território que simultaneamente a acolhe e renega.

Apanhada numa encruzilhada histórica particularmente difícil, mesmo antes do início da 2.ª Guerra Mundial, a protagonista e o território timorense, que com ela se confunde, parecem sofrer as violentas ondas de choque de todos os conflitos latentes num mundo cuja ordem e equilíbrio se revelam precários.

A rejeição do noivo seguida da sua violação física abrem as portas para uma sucessão de pequenas tragédias pessoais que a obrigam a crescer muito rapidamente, destruindo-lhe os sonhos infantis e a inocência, mas também a submeter-se a vários homens para sobreviver. O rapto do filho, a ostracização da comunidade e a perseguição dos habitantes locais destroem-lhe todas as ilusões e obrigam-na a viver numa nova realidade e a construir uma nova identidade. Mesmo o aparecimento do navegador solitário, Alain Gerbault, cujo livro a acompanhara desde a casa da família, uma espécie de derradeira esperança de felicidade pela qual aguardara desde a chegada a Timor, depressa se desvanece com a morte deste. A ocupação japonesa e os difíceis anos da guerra vividos num território aparentemente neutral marcarão indelevelmente a personagem, conduzindo-a a uma espécie de auto-exílio voluntário no barco do navegador.

A partilhar o protagonismo (e o fascínio que a caracteriza) com Catarina está o próprio território timorense. Complexo e contraditório, personificando várias tensões internas e sofrendo consequências das pressões externas, Timor parece uma embarcação oscilando ao sabor das marés, ora perseguindo os habitantes nativos, ora se revoltando sucessivamente contra as vagas de ocupadores. Recriado ficcionalmente como uma espécie de território à deriva, Timor parece determinado numa demanda difícil pela sua afirmação. Violentado sucessivamente por diferentes invasores, assemelha-se a Catarina pela forma como parece manter uma dignidade original, reconstruindo-se sucessivamente, adoptando novas facetas e alguns disfarces, construindo uma identidade frágil, destinada à sobrevivência mais imediata.

O motivo do duplo, de presença assídua no romance, é sintomático da centralidade da reflexão sobre a identidade, verdadeiro fio coesivo da história. Várias personagens surgem divididas ou assumem posições contraditórias, exprimindo uma dualidade aparentemente irresolúvel. É o caso do administrador Malisera e do sipaio Marcelo, duas faces da mesma moeda da resistência ao poder branco; de Catarina, a Grande…, e a Outra, a gata de jade que também conquista Alberto Sacramento Monteiro e os outros capitães do porto que vão passando pela sua vida; mas também de Catarina e Madalena, as duas mães dos filhos de Alberto, duas penélopes tecedoras de sonhos e coleccionadoras de gatos que esperam marinheiros perdidos no mar; da própria figura do capitão do porto que se desdobra em várias personagens que, afinal, são variações da mesma; de Alain Gerbault, o navegador solitário do livro e da imaginação de Catarina e o seu fantasma doente que regressa para morrer em Díli; dos australianos e dos japoneses, facções rivais da guerra, ocupantes violentos do território e das gentes; de Diogo e Esperança, o filho roubado e a filha morta, símbolos do futuro incerto que espera o território timorense.

A opção de Catarina de abandonar o veleiro e o tesouro, única forma de escapar a Timor, ao passado e às consequências da guerra, em troca da ténue esperança de rever o filho, ficando cativa do território que a persegue e critica, revela bem a mudança operada no íntimo da personagem, uma vez aberta a caixa de Pandora e revelado o seu destino:

«O destino de uma mulher é uma caixa de Pandora. Nunca se sabe o que tem dentro. A sorte pode ditar um príncipe encantado. Nem sempre o desejado. Apaixonar-se por um marinheiro pode ser uma aventura sem retorno, como quando se entra pelo mar, quando as tempestades recomendam que se fique em terra. Sujeita-se a ser largada ao primeiro toque de rebate. Depois deambula à espera de ser resgatada por um coração de manteiga. Que o têm também os marinheiros solitários, viajantes em busca de outros ares, caçadores de fortunas, olheiros de mundos mágicos, músicos à procura de novas sonoridades, místicos no encalço do maravilhoso, escritores de histórias trágico-marítimas e pintores de paraísos que se vão apagando com o tempo» (pp. 12-13).

Ana Margarida Ramos

(Universidade de Aveiro; membro associado do NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Ficha

Luís Cardoso,

Requiem para o Navegador Solitário

Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007

sábado, 18 de setembro de 2010

José Gomes Ferreira: a juventude aos 110 anos

«Parece que faz parte das leis da literatura alguns grandes autores terem de passar por um período de imersão, não sei em que águas paradas, para ganharem lá no fundo os louros, com que regressam para sempre à superfície.» Assim se refere Mário de Carvalho 1 a José Gomes Ferreira, poeta nascido há cento e dez anos em Santo Ildefonso, no coração da cidade do Porto e do velho bairro popular da Fontinha, palco de alguns dos primeiros passos do movimento operário portuense em meados do século XIX. Não obstante as suas origens burguesas, viu a luz no meio da que viria a ser a «sua» gente: esses pobres que invectiva no poema «Pobres, gritai comigo: / Abaixo o D. Quixote (…)» («A Morte de D. Quixote», Poeta Militante, I, 4.ª ed., pp. 74-5), ou seja, os explorados e oprimidos pelos quais combateria, por palavras e actos, ao longo da vida. Curiosamente a rua em que nasceu tem o nome de Rua das Musas, lugar que dir-se-ia ter fadado este homem para se tornar voz marcante da poesia portuguesa do século XX. Apesar de, em 1904, se ter mudado com os pais para Lisboa, não esqueceu nunca o lugar de origem que evoca por mais do que uma vez na sua escrita: «Na rua das Musas / onde nasci já aos gritos / (que nunca acordaram / ninguém); / foi na Rua das Musas / onde ainda hoje as lágrimas / fabricam lama / nas lajes de granito / que jurei por ti, mãe, / tornar o sol menos imundo» (Poeta Militante, III, 4.ª ed., p. 202).

Morreu, em 1985, então «com a idade do século». Para trás ficara uma vida de diplomata (entre 1926 e 1930, após concluir em 24 o curso de Direito), de colaborador na imprensa, cronista e tradutor (trabalhou na legendagem de filmes) mas, sobretudo, uma vida de escritor e «vagabundo de sonhos», de democrata e lutador antifascista que, tendo convivido com muitas das principais figuras intelectuais do século XX português, foi grande amigo e por vezes colaborador de artistas como Ofélia e Bernardo Marques, Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Mário Dionísio, Augusto Abelaira, Maria Velho da Costa e tantos outros. Além da poesia (hoje reunida nos três volumes de Poeta Militante, da Dom Quixote), publicou ficções, crónica, diário, teatro, ensaios e literatura infantil. Refiro-me, neste caso, a esse «panfleto mágico em forma de romance» que é As Aventuras de João Sem Medo.

Em 1933, num tempo em que vivia sobretudo de colaborações na imprensa escrita assinadas com os mais diversos pseudónimos (aquilo a que mais tarde vem a chamar «literatura alimentícia») e durante um período de intensa convivência com figuras como Eduardo Chianca Garcia ou Ofélia e Bernardo Marques (seus compadres), José Gomes Ferreira aceita um convite de António Lopes Ribeiro para colaborar semanalmente num conhecido jornal infantil da época chamado O Senhor Doutor.

Nessas páginas viu a luz a primeira versão de As Aventuras de João Sem Medo, assinada com o pseudónimo «O Avô do Cachimbo» e ilustrada por Ofélia Marques, obra que o poeta apenas editaria em livro, após revisão profunda, em 1963, com uma dedicatória aos filhos, o arquitecto Raul Hestnes Ferreira e o poeta Alexandre Vargas, este último ainda criança no início dos anos sessenta.

Sujeito a posteriores revisões de título, subtítulo e texto, o livro tornar-se-ia a obra mais lida de José Gomes Ferreira (em Abril de 1999, atingira a 19.ª edição, na Dom Quixote) e alguns críticos, como Alexandre Pinheiro Torres, considerá-lo-iam até a obra-prima do autor. Este nutria por ela particular ternura e, nas revisões do texto, feitas já depois dos sessenta anos, sempre se esforçara «por lhe conservar toda a frescura do improviso dos 30 anos», aquela mistura dos seus dois retratos de Fred Kradolfer e de Ofélia Marques: «o dos “passarinhos” e o do “lobo”» – como afirma na Nota Final da 2.ª edição.

E o livro é com efeito notável, evidenciando o tão injustamente esquecido talento de José Gomes Ferreira para a escrita de ficção. Os conhecedores da sua obra lírica (em particular, das inventivas imagens e da rêverie poética de-pés-assentes-na-terra que tornam modernos e inesquecíveis muitos dos seus versos) não estranham o poder de reinvenção verbal, a cativante oralidade do discurso narrativo, a metáfora surpreendente, a arte de contar e o humor desarmante que singularizam a escrita de As Aventuras de João Sem Medo.

A matriz da obra encontramo-la no maravilhoso popular que o autor conhecia bem (nos anos cinquenta, organizou com Carlos de Oliveira uma imprescindível antologia de Contos Tradicionais Portugueses em quatro volumes, ilustrados por Maria Keil). Invertendo e subvertendo a lógica desse maravilhoso, propõe uma narrativa que constitui, em simultâneo, uma sátira social (por vezes vêm à memória Jonathan Swift e Lewis Carroll), uma alegoria política (numa das versões o subtítulo escolhido é «panfleto político em forma de romance») e um libelo contra o conformismo. Figuração desse conformismo é a aldeia de «Chora-Que-Logo-Bebes», de onde o indómito João Sem Medo resolve esgueirar-se, cansado da «chorinquice» e «da miséria que gelava as casas» e cobria «de verdete» os homens que viviam na povoação – grotesca imagem do Portugal amordaçado e bafiento do salazarismo.

A viagem empreendida pelo herói permite-lhe viver uma série de movimentadas aventuras (nas quais se confronta com figuras tão estranhas como o homem sem cabeça, a árvore dos dez braços, o gramofone com asas, o príncipe das orelhas de burro, o ciclope, o João Medroso – duplo do protagonista – e a menina dos pés ocos), aventuras que terminam com o regresso a Chora-Que-Logo-Bebes, onde «provisoriamente» e enquanto espera pela ocasião propícia para «secar as lágrimas» da terra, João Sem Medo «montou uma fábrica de lenços e enriqueceu».

Conhecedor das estruturas do conto maravilhoso, José Gomes Ferreira (muito antes da divulgação de A Morfologia do Conto de Vladimir Propp) cria situações que são «quase sempre doutrinariamente, o reverso ou “avesso” delas», como assinalou Alexandre Pinheiro Torres; e «a série de interdições características no conto tradicional não deixa de se encontrar representada (…), sendo transgredidas por automatismo, mas enquanto no conto tradicional de raiz folclórica as “propostas enganosas” dos variados inimigos que o Herói tem de enfrentar são sempre aceites (segundo nos declara Propp), João Sem Medo nunca as aceita» 2. Pinheiro Torres mostra ainda como, partindo do tema do «desconcerto do mundo» e do topos do «mundo ao revés», de larga tradição literária, Gomes Ferreira constrói a sua alegoria, virando do avesso, por assim dizer, símbolos mítico-populares ou étnico-proverbiais ou mesmo «seres literários ou do mundo da fábula» (a Fada representada como um homem vestido de mulher, as «inversões de funções do tipo dos travestis dos pares Eurídice-Orfeu, D. Quixote-Dulcineia, ou a Cigarra e a Raposa, a Rã e o Boi, a Raposa e o Corvo, etc.») 3.

Alegoria política «da má-consciência que aflige o cidadão português apolitizado, mas que aceita sem rebelião activa a sua imanência como objecto», João Sem Medo suplanta, na opinião de Pinheiro Torres 4, outras narrativas alegóricas de fundo político, como as de Karel Capek ou Animal Farm de Orwell.

Com notáveis incursões na novela, no romance (O Sabor das Trevas, 1976), na narrativa curta (entre o irónico e o comovido – lê-se em testemunho 5 de Urbano Tavares Rodrigues) e na crónica-conto (O Mundo dos Outros, 1950), José Gomes Ferreira legou-nos ainda saborosas páginas quer de memórias (A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, 1965, e outros títulos) quer de diário e, vale a pena lembrá-lo, deu-nos um dos mais sentidos relatos da manhã do 25 de Abril de 1974 – que hoje podemos ler no terceiro volume de O Poeta Militante (4.ª ed., 1998, pp. 319-22).

A escrita de Gomes Ferreira pertence a uma linhagem que entronca em vozes tão diversas como as de Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, mas passa também pelo neo-realismo de que foi contemporâneo (e a que também estiveram vinculados alguns dos seus amigos dilectos, como Carlos de Oliveira, que a seu modo romperia os limites dessa corrente estética). No hoje mal tolerado neo-realismo quiseram alguns, apressadamente, arrumar a obra de José Gomes Ferreira, sem atentarem no encanto e na graça de uma prosa alicerçada no vivido, e na sua permanente e já referida rêverie poética traduzida em inventivas imagens e cachos de metáforas que, de algum modo, ligam também a sua poesia à escrita surrealista, como bem notou Jorge de Sena em carta dirigida ao poeta: «(…) pelo carácter intempestivo e visual das suas constantes imagísticas, em que como que um surrealismo nominalista surge a evocar, a fixar, a definir, a tornar significativos os momentos líricos que outra poesia menos rica se limitaria a registar com embevecida melancolia. É isto mesmo, a recusa ao embevecimento perante o próprio lirismo que mais caracteriza o seu e lhe dá uma força simultaneamente moderna e clássica» 6.

Pensando nas palavras de Sena, direi que essa «mulher de carne azul, / semeadora de luas e de transes» que «atravessou o vidro / e veio, voadora, / sentar-se ao meu colo / na nudez reclinada / dum desdém de espelhos» (Poeta Militante, I, 4.ª ed., p. 313), essa imagem de sonho cantada no belíssimo conjunto de poemas que é Eléctrico (1956), assumiria outras e variadas formas ao longo do singular percurso poético de José Gomes Ferreira. Tal caminho, feito de ousadas imagens inscritas no onírico, não o impediu de manter bem assentes na terra os seus pés de homem e de escritor, incapaz de dissociar a sua actividade de criador dos seus compromissos morais e cívicos, mas tendo sempre presente que «a poesia não é um dialecto / para bocas irreais. / Nem o suor concreto / das palavras banais» (Poeta Militante, II, 4.ª ed., p. 307).

Comprovam esta atitude, entre muitos outros, os versos que escreveu a partir de numerosos acontecimentos sociais e políticos do seu tempo e também, por exemplo, na sequência da prisão, em 1955, do filho, Raul Hestnes Ferreira, encarcerado nos calabouços da PIDE à Rua do Heroísmo. Aí o visitava o pai, experiência dolorosa de que falam os poemas da série «Comboio», «canto de amor (…) pelo Porto e pela liberdade», no dizer de Manuel António Pina, esse Porto que é «presença constante na poesia de José Gomes Ferreira» 7: «Porto / – cidade de luz de granito. // Tristeza de luz viril / com punhos de grito.» (Poeta Militante, II, 4.ª ed., 1991, p. 285).

Em Janeiro de 1971, escreve no seu diário: «Confesso o meu pecado: tenho utilizado a Poesia como arma de combate, a minha única arma possível, embora sem ilusões, pois sempre a considerei uma débil espada de papel. Mas com esta sinceridade que nunca me larga, quero também ter a franqueza de dizer que, na maioria dos casos, a poesia-arma-de-combate me tem soado muitas vezes como um estratagema – inconsciente, claro – para evitar os verdadeiros combates e fingir que não se foge.» 8. Sabemos, no entanto, que José Gomes Ferreira não era dos que fugiam. Quem apaixonadamente atravessou o século, experimentando angústias e júbilos, mas também com sentido crítico e auto-crítico e espírito revolucionário; quem, como o poeta, viveu os sobressaltos da 1.ª República e fez a travessia da longa noite salazarista/marcellista; ou, após a Guerra de 14-18 e a Revolução Socialista de Outubro na Rússia, assistiu, de Lisboa, ao esmagamento da República Espanhola, à ascensão do fascismo na Europa, à Segunda Grande Guerra e ao Holocausto e, por fim, à vitória sobre o nazismo – não poderia manter-se indiferente aos dramas e convulsões do seu tempo histórico.

Escrita como se de um diário se tratasse, a escrita poética de José Gomes Ferreira 9 é vivo e ininterrupto testemunho de um tempo de luta pela liberdade e pela dignidade humana, sem paralelo na poesia portuguesa do século XX. Um século cujos sofrimentos, ilusões e certezas ele viveu intensa, implicada e fraternamente, até experimentar a alegria de ver ruir, numa manhã de primavera, quarenta e oito anos de ditadura em Portugal: «Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil» – escreve em 25 de Abril de 1974. Mas a inquietação e o sonho não o abandonam e a sua luta prossegue. Ante aquilo a que chamou a agonia da Revolução («A Revolução agoniza», Poeta Militante, III, p. 371), ele, que sempre havia sido um activo companheiro das lutas pela democracia e pela liberdade, toma a decisão de se filiar, em idade já avançada, no Partido Comunista Português, «modo de eximir-se definitivamente – escreve Paulo Sucena – a uma posição contemplativa, ainda que crítica, (…) e assumir-se como poeta militante não só da poesia mas também da luta pela abolição das classes» 10.

Sonhando com «combustões / de novas flores / com pétalas de asas de liberdade / que só nascem e crescem regadas pelos gritos e lágrimas / das multidões», irmanado, assim, com poetas como Maiakóvski, Neruda, Éluard, Aragon, Brecht, Hickmet, Guillén, Carlos de Oliveira, Ary e tantos outros, José Gomes Ferreira deixaria aos que lhe sobreviveram, e aos que depois dele vieram, um testamento poético tocante, interpelador, que muitos ainda hoje conhecem de cor: «Não traio. / Porque insistes? / Não traio. (…) Povo, continua! Não pares a tua tempestade.» (pp. 377-8) 11.

Notas

1 Mário de Carvalho, texto sem título in Óscar Lopes et alii (org.): Recomeço Límpido: No Centenário de José Gomes Ferreira. Porto: Sector Intelectual do Porto do PCP, 2000, p. 66.

2 Alexandre Pinheiro Torres. Vida e Obra de José Gomes Ferreira. Venda Nova: Bertrand, 1975, p. 267.

3 Id., ibid., p. 266.

4 Ibid., pp. 277-8.

5 Urbano Tavares Rodrigues, «José Gomes Ferreira: a vida e o sonho», in Óscar Lopes et alii (org.), op. cit., p. 82.

6 Jorge de Sena, carta inédita publicada no Jornal de Letras de 31/5/2000, p. 19.

7 Manuel António Pina, «Luz de granito», Jornal de Notícias, 12/5/2000.

8 Páginas inéditas publicadas no Jornal de Letras, ed. cit., p. 16.

9 Para os não iniciados na poesia de J. G. Ferreira, sugere-se a leitura dos três belíssimos poemas incluídos por Eugénio de Andrade na sua Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa. Porto: Campo das Letras, 1999, pp. 397-9. Aos estudiosos recomenda-se a leitura de A Militância Melancólica ou a Figura de Autor em José Gomes Ferreira (Faro: 2006), de Carina Infante do Carmo (tese de doutoramento apresentada à Universidade do Algarve).

10 Paulo Sucena: «Nascimento de um poeta», in Óscar Lopes et alii, op. cit., p. 72.

11 Partes do presente artigo foram publicadas, em primeiras versões, nas edições de O Primeiro de Janeiro (Suplemento «Das Artes das Letras») e do Diário de Notícias, respectivamente de 7/6/2000 e 9/6/2000.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 25 de julho de 2010

Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz: Grande Prémio de Conto da A.P.E

Partindo de um motivo literário, a biblioteca imaginada, retomado por Saramago (releia-se as forjadas epígrafes dos seus livros), antes dele por Borges (não por acaso mencionado, a pp. 41, como um “deus burlão”) e por outros autores ainda, Afonso Cruz (n. 1971) articula, de forma lógica e com erudita habilidade, dezenas de fragmentos – que, amiudadas vezes, se apresentam como trechos de pretensos livros de reflexão filosófica, moral, científica… –, fragmentos esses que correspondem a outras tantas vozes de autores quase sempre imaginários. Em consonância com as expectativas criadas por um título desde logo irónico e que inscreve a obra na esfera do apócrifo (Enciclopédia da Estória Universal) – título estampado na capa sobre uma ilustração do próprio autor –, a organização desses fragmentos segue a ordem alfabética dos títulos/temas glosados.

Dos vários textos se tem de dizer que não se fixam num género (encontramos micro-contos, parábolas, lendas etiológicas, variações em torno de mitos, comentários de tipo filosófico, aforismos, haiku, provérbios orientais…) e o que lhes confere unidade é, em parte, a ironia, o humor, a tendência para a desconstrução de verdades feitas, clichés e noções cristalizadas pela tradição cultural e científica. Algumas das pretensas vozes autorais ressurgem, por outro lado, ao longo do livro, o que permite ao leitor ir esboçando perfis de personagens diversas que, por vezes, se comentam umas às outras.

A aparência de autenticidade dos fragmentos decorre, em primeira instância, da capacidade efabuladora e estilística do autor na criação de mundos possíveis, por vezes ancorados na História, mas também da circunstância de ser intencional e, não raro, irónico, o copioso diálogo intertextual com inúmeras obras literárias, filosóficas, religiosas e livros de sapiência oriundos de diferentes tempos (da Antiguidade Clássica à contemporaneidade) e lugares (do mundo Ocidental ao Oriente, passando pela África).

Em Enciclopédia da Estória Universal (Lisboa: Quetzal, 2009), o resultado deste trabalho criativo – que se distingue por uma escrita segura e por uma estrutura de algum modo original – é, quase sempre, uma inteligente, divertida e labiríntica paródia da história da cultura humanística e científica, que, no entanto, deixa entrever um discurso crítico cujo alvo é por vezes o presente (o neo-liberalismo, a desigualdade social, a justiça de classe…), desmontando certas dimensões do chamado pensamento único e pondo a nu as mais retorcidas facetas da existência humana.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)