sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

José Soares Martins, poeta de ruínas e bastiões

José Soares Martins é um poeta que importa ler. Um poeta que cria desde muito jovem, mas arreliadoramente inédito, tão inédito que apenas se conhecem os quatro livros breves que editou, três em co-autoria (Setembro, em 1984, na Plenilúnio; Ménage à Trois, em 2011, na Cordão de Leitura; e Bicho da Seda, em 2020, na Poética Editora) e um quarto, de sua exclusiva responsabilidade: Ruínas e Bastiões, publicado pela Chiado em 2021. Conhecem-se-lhe, além disso, não poucos poemas dispersos em várias publicações periódicas e colectâneas de poesia, vindas a lume desde finais da década de setenta do século XX. Mas José Soares Martins é, noutra vertente, um poeta das letras, na esteira de Dylan, Keith Reid, Carlos Tê e tantos outros cultores da lírica de qualidade em moldura musical: escreveu letras para as bandas Jafumega (dois álbuns e um single, com o popular tema “Ribeira”), João C. Bom e Johnny Johnny. De assinalar ainda a presença no Festival da Canção de 1986 com uma letra de canção defendida pela voz de Gabriela Schaaf. 

Enquanto guionista e em colaboração autoral, participou na sitcom “Clube Paraíso”, produzida e realizada pela RTP/Porto. Ainda em co-autoria, escreveu um tema do musical de Carlos Tê “Amor solúvel”, tendo participado com Carlos Tê e João Monge na canção “Mágoa das pedras”. Saíram da sua pena crónicas e folhetins publicados nos jornais Expresso, na revista do Jornal de Notícias, no Comércio do Porto e n’O Primeiro de Janeiro

Enquanto psicólogo, investigador doutorado e professor universitário com especialização em criminologia, publicou e participou em diversos livros, dicionários temáticos e revistas científicas. 

Dos seus folhetins narrativos (designadamente os saídos no Comércio do Porto) destacam-se elementos detectivescos e cómicos, burlescos, muito enraizados no conhecimento duma certa realidade portuense pequeno-burguesa e/ou de meios populares, com seus sociolectos, seus pequenos mitos e fantasias, suas fixações futebolísticas. 

Começando por aparecer em revistas portuenses algo marginais dos anos setenta, como AvatarQuebra-NozPé de Cabra, a poesia de Soares Martins, caracteriza-se em geral por certo fôlego discursivo, por um registo amiúde elegíaco e de tom exclamativo, e por uma musicalidade e ritmo singulares, girando em torno de um conjunto de núcleos temáticos: o enamoramento, a paixão e a separação; o topos do tempus fugit; a memória de lugares míticos percorridos efectiva ou imaginariamente pelo eu; a infância e a adolescência; a sensação de ruína de um certo mundo e o desencanto provocado pelo “falhanço de todas as revoluções”, na óptica de um sujeito lírico que, hiperbolicamente, se auto-representa quase como uma espécie de “viajante” do século XX. Trata-se também duma poética culta e povoada de alusões culturais (oriundas da literatura, da música, das artes visuais…), num frequente vaivém presente/passado no qual ecoam, por vezes, vozes referenciais: ora de românticos ingleses e de alguns portugueses, ora de um Cesário Verde, um Pascoaes, um Pessoa, a que se juntam ressonâncias imagistas e sinais de leituras juvenis de poetas da Beat Generation norte-americana, como Ferlinghetti, Ginsberg e outros.

Por ocasião da saída de Ruínas e Bastiões, o seu quarto título de poesia, A Inocência Descompensada foi entrevistar José Soares Martins (de quem podem ser lidos poemas recentes em Sobre o Lado Esquerdo – Poesia & Textos Afins). 

A Inocência Descompensada (AID) – És um poeta e homem do Porto, mas a tua infância está ligada também a uma certa meridionalidade (Lisboa, Almada...). Que reflexos na experiência de vida e na escrita?


José Soares Martins – De facto sou um poeta atlântico, habituado às brumas e aos nevoeiros. Nasci no casco histórico do Porto. Numa velha casa da Rua dos Ingleses, propriedade da minha Bisavó, que era enfermeira parteira e tinha uma clínica, em que fazia os seus partos e acompanhava as suas pacientes. Chegou a comprar um prédio em frente, onde hoje se encontra um pub tipo irlandês. No entanto, por motivos profissionais do meu pai, fui com um ano para Lisboa e daí para Almada, onde vivi até aos meus nove anos e meio, tendo descoberto a minha existência banhado pela luz do sul  e pelo sotaque alfacinha. O primeiro rio que conheci foi o Tejo, que atravessava todas as segundas feiras, quando ia a  Lisboa acompanhar o meu pai, que na volta me comprava Dinky Toys num bazar de Barros Queiroz e passarinhos na rua do Arsenal. As idas ao Coliseu e ao Chiado com a minha mãe e os lanches na confeitaria Garrett, as amizades que travei na vizinhança e no Colégio Frei Luis de Sousa, em Almada, foram determinantes para a minha costela do sul e lisboeta. Penso que a vinda para o Porto não me conseguiu moldar por completo. Sou alguém de dois locais, de duas geografias e de duas luminosidades. Vivo entre o Sol e as Brumas. Por isso sou simultaneamente um poeta lunar e solar. Gosto do Tejo como gosto do Douro. Gosto do mar da Caparica ou de Sesimbra como gosto do mar da Foz do Douro ou de Leça, ou de Caminha.

 

AID – Despertas cedo para a leitura? Como? Lendo o quê? 

JSM – Desde que me recordo de mim, que sei ler. Muito cedo tomei contacto com os livros. Os meus pais levavam-me à Feira do Livro e compravam-me  histórias infantis em pano, não em papel, para eu não as rasgar. Li os livros da Majora, a colecção Tonecas toda, bem como a Manecas. Já com cinco ou seis anos devorava às quintas feiras o Mundo de Aventuras e o Falcão Gigante, bem como o Capitão Trovão. Descobri cedo os heróis do oeste, Bufalo Bill, Kit Carson, Daniel Boone, David Crockett, Matt Dillon, Buck Rogers, Kansas Kid, Red Ryder entre muitos outros, a par do Tarzan, Jeff Jackson  ou do Mascarilha e o seu amigo Índio, o Tonto. Mais tarde foi a influência dos super-heróis sobretudo o Batman. Da banda desenhada passei aos Westerns da Agência Portuguesa de Revistas e da editorial Íbis, para desaguar nos policiais da Vampiro, da Xis, da Enigma, da Máscara, da Escaravelho de Ouro e da Rififi. Poirot, Sherlock Holmes, Perry Mason, Rouletabile, Philip Marlowe ou Sam Spade despertaram em mim o desejo de vir a escrever novelas policiais. Não descurar o papel de Júlio Verne, de Alexandre Dumas, pai, de Emilio Salgari. Mas acima de tudo a maior influência recebi-a da minha avó materna, natural de Macedo e de origem judia, que me contava histórias tradicionais portuguesas comigo sentado ao seu colo. E do meu avô materno que me fascinou com as suas histórias de África passadas durante a Primeira Guerra de má lembrança no norte de Moçambique, em Cabo Delgado. Só mais tarde descobri Walter Scott, Daniel Defoe, Charles Dickens, Eça, Camilo, Júlio Dinis, e os poetas Camões, Cesário, Pascoaes, Junqueiro, Pessoa, Bocage (que só conhecia das anedotas muito populares na minha infância) ou Soares de Passos. Depois foi o que se sabe, e que não cabe no escopo desta entrevista. 

 

AID – Quais os períodos das grandes experiências de vida e revelações? Em que lugares? 

JSM – O período das grandes descobertas opera-se com alguns encontros fundamentais. Com o Alonso, colega de longa data do [Liceu] Alexandre [Herculano] e que me abriu as portas para a literatura russa, sobretudo Gogol, Turgenev,Tchekhov, Lermontov. E o Mondego, que me fez descobrir filósofos como o Heidegger, o Kierkegaard, ou o Schoppenhauer, ou o Nietzsche. O Zé Tó [José António Gomes] com quem partilhei descobertas na música pop, rock, folk, no jazz, no cinema, sobretudo o italiano, e a literatura lida então, sobretudo Rimbaud, Baudelaire, Poe, os românticos ingleses, os imagistas e os Beat. Foi um período de aprendizagens múltiplas que coincidiu com os últimos anos da “primavera marcelista” e o 25 de Abril, marcados por intervenção política e pelas manifestações contra o regime, começadas na crise académica de 1969. Líamos Marx, Bakunine, Reich, Marcuse, Debord, Baudrillard, Sartre e tutti quanti. A pintura foi também uma descoberta fundamental, bem como alguns grandes romancistas então em voga: Celine, Steinbeck, Hemingway, Kerouac, Huxley, García Marquez, Jorge Luis Borges, Proust,  Kafka, Beckett, e os pintores, os impressionistas, os expressionistas e os surrealistas e mesmo a pop arte. 

 

AID – Há um certo novi-romantismo pós-moderno, não raro irónico, nos teus poemas. Concordas? Mescla-se com um desencanto em relação ao presente e com uma lamentação do que já foi e não volta a ser, até porque ligado ao tempo das grandes esperanças e de todos os sonhos. Melancolia? Descrença? Idade?

JSM – Penso que é um pouco de tudo. A idade, em que a ética da convicção, como diriam Max Weber ou Kant, cede lugar à ética da responsabilidade. Ou seja, à ideia de que é preciso ceder para se conquistar coisas. De facto, a psicologia social das minorias activas mostra-nos que as mudanças sociais ficam comprometidas com posições radicais. A história da Europa está cheia de boas ideias que se transformaram em pesadelos. Basta analisarmos a história do IRA, da Acção Directa, das Brigadas Vermelhas ou da Fração do Exército Vermelho ou da ETA, para já não falarmos das grandes Revoluções de 89 ou 17.  Depois, não basta a radicalidade, as vanguardas, sejam de que tipo forem, têm de estar em consonância com o ZeitGeist hegeliano. Ou seja, com o Espírito do Tempo. As sociedades precisam de estar maduras. Tem de existir um sentimento de fim de ciclo, de que algo está mal, uma certa estranheza de que falava o Freud e que o Kafka exibiu tão bem nos seus magníficos romances. A Idade e uma certa sabedoria, a que eu chamaria a patine do tempo. Como tu dizes e bem, há ainda o desencanto. O mundo não é um sítio seguro para ninguém. Às alegrias do 25 de Abril ou do Maio de 68 sucedeu o regresso à normalidade. Todas as revoluções desembocam no quotidiano sem história. O mesmo acontece com as paixões. É impossível viver-se infinitamente uma paixão. Daríamos em doidos!  Como diria o Vinicius, que o amor seja eterno enquanto dure.

Nas minhas influências existe a  presença de um pós-romantismo difuso, a busca do passado, do que já não existe mais. Daí a melancolia, a ideia de um "regresso" a locais e tempos onde fui de alguma forma feliz. A linguagem reflecte essas influências. 

Por fim o sentimento ou sabedoria de quem já se encontra no outono da vida e olha para trás  e vê que a vida passa rápida e que chegamos a "velhos sem dar por isso" como dizia a minha avó materna.  A isto tudo soma-se o estado do mundo. O tema da mudança e do desconcerto. O sentir que este mundo já é dos novos e não nosso.

A leitura dos românticos ingleses, sobretudo o Coleridge, com quem me identifico como poeta e como pessoa (na adolescência, cheguei a pensar que poderia ser uma reincarnação dele...), o Blake, o Shelley e o Keats tal como os alemães, Büchner, Novalis e Hölderlin ou Goethe, marcaram-me muito e abriram-me as portas para um certo novi-romantismo como tu muito bem  detectas, perfeitamente integrado na minha congénita melancolia, herdada da neurose da minha mãe e das minhas tias-avós irmãs do meu avô materno, algo esotéricas, amantes do ocultismo, de mesas pé-de-galo, de gatos e de cartas do destino e da minha avó materna médium, e da minha avó paterna, leitora da Kabala ou do meu pai com as suas capacidades de prever o futuro... Se em Almada já era acometido de momentos mais ou menos longos de melancolia, agravados quando a minha mãe esteve a morrer do parto da minha irmã, esses estados de espírito, com pânicos e insónias ensombraram-me a puberdade e a adolescência, a que o catolicismo não foi indiferente. Foi um longo período em que fiquei dependente dos psiquiatras e de valium, que ia roubar todas as noites ao cofre do meu avô. Ora isto coincidiu com as minhas primeiras paixões e o despertar da puberdade ou da primavera, para citar Frank Wedekind, e da poesia, quando li os poetas da Fénix Renascida, sobretudo Jerónimo Baía. A descoberta, como já referi, dos românticos foi decisiva para mim e continuou com a literatura gótica do Poe, com o simbolismo do Baudelaire, e do Rimbaud ou Pessanha. A Beat foi apenas o sucedâneo inevitável, tal como o surrealismo e os pré-rafaelitas na pintura. Ou o Bergman no cinema, que foi fundamental para mim, tal como o Resnais ou o Visconti e Fellini. Foi o tempo das viagens, das namoradinhas de praia, e das primeiras bandas de música na cave do meu tio Manecas que sempre me entendeu ou não fosse um irmão gémeo da minha neurose existencial.

 

AID – A tonalidade melancólica de alguns textos teus, no plano expressivo, vai beber a diferentes tradições, que aliás o poema assume nas suas múltiplas alusões literárias, culturais. Queres falar um pouco disso? E qual o lugar do Porto, cidade literária por excelência, nesse universo?

JSM – O Porto tornou-se o lugar geométrico das minhas deambulações diurnas e nocturnas. Com os seus nevoeiros e a sua chuva outonal, os seus granitos, os seus sinos, as suas igrejas e torres e o casco velho onde se situavam as casas dos meus avós e tios-avós, a Igreja de São Nicolau, com o velho turíbulo oferecido pela minha bisavó e onde os meus avós e pais e irmã se casaram, e onde eu fui baptizado. O Porto, a minha cidade, foi desde sempre o meu aleph borgeano. O centro e o umbigo do mundo. O cenário da minha poesia e de alguns contos fantásticos que escrevi. Já que as histórias de fantasmas, e de poltergeistsacompanharam toda a minha infância e adolescência, fizeram parte do meu quotidiano familiar. Daí a minha forte ligação a esta cidade e a este rio. Descobri mais tarde em Bruges, local do filme Malpertuis com o Orson Wells e a Susan Hampshire, algo parecido com a atmosfera londrina do Porto. Por isso a minha atracção pelo detective de Baker Street, pelo Jack the Ripper, que o  esotérico de Blake, Lovecraft e Pessoa mais aprofundaram. Já na faculdade e pouco depois da morte do meu avô materno, dei por mim num grupo de ocultistas de que faziam parte uma colega minha, a Guilhermina, o António Telmo e o Castro Ferreira, e dei por mim a ler Rudolf Steiner, Gurdjieff, Helena Blavatski, António Quadros e outros. Quanto a escritores que cantaram o Porto, tirando Soares de Passos um portuense ilustre e grande poeta, tivemos o Garrett, o Nobre, o Júlio Dinis, o Raul Brandão e o Camilo a que se juntaram as notáveis Sophia e Agustina Bessa-Luis. Claro que temos o Echevarría, o Guimarães, o Leonardo Coimbra, o Óscar Lopes, o Sena e o Agostinho da Silva. E mais próximos de nós o Eugénio, o Resende, o Pina… Mas eu senti sempre que nunca houve um poeta do Porto, como houve de Lisboa, por exemplo (Cesário, Gomes Leal ou Pessoa)...


Da esquerda para a direita: Miguel Cameira, José António Gomes, José Soares Martins, José Pinto Leite, António Torres. Café Piolho (Âncora d'Ouro), 1977.

AID – A ficção narrativa, e não apenas a poesia, também te atraiu. E logo desde a juventude. Que experiências te ocorre evocar neste domínio?

JSM – A narrativa sempre foi a minha grande paixão, herdada da minha avó paterna e do meu avô materno. No entanto, tirando umas tentativas de romance nunca acabadas, não passei de short stories, com influências diversas, desde o Lovercaft, passando pelo Gogol, pelo Bulgakov, e mais tarde pelo Raymond Carver. Claro que os diálogos eram inspirados no Hemingway, a estrutura no Faulkner, e a deriva psicológica na Virginia Woolf. Mas ainda estão por escrever os contos que gostaria de concretizar e que estão na minha cabeça há anos. E não sei se os escreverei um dia, mas tenho pena. Muita pena. 

 

AID – Outro campo da tua criação tem a ver com o texto dramático. Refiro-me ao guionismo...

JSM – Sim o guionismo foi a forma que encontrei para substituir o teatro, quer como dramaturgo, quer como actor. Aliás, houve sempre três ou quatro profissões que me atraíram: escritor, actor, historiador, e professor/investigador. Foi nesta última que mais apostei e consegui fazer alguma coisa de importante no âmbito das ciências sociais, psicologia social, sociologia e criminologia. Mas o guionismo foi uma boa experiência adquirida com o Afonso Grisolli, realizador brasileiro da Globo e autor d’”O Sítio do Picapau Amarelo”, da “Malu Mulher” e da “Teresa Baptista Cansada da Guerra” que foi um mestre para mim. Aprendi muito nesses dois anos de escrita televisiva com a companhia do Tê e do Álvaro Magalhães, tendo-me ocorrido a ideia peregrina de me dedicar à escrita de guiões para a televisão e para o cinema. Mas aquele ainda não era o tempo para essas aventuras. Quase não havia produção portuguesa e a que havia era em Lisboa. O Tê ainda escreveu um guião para um filme do Fernando Ávila, rodado no Porto, “Os Corações Periféricos”, onde eu fiz uma perninha como actor.

 

AID – Também foste desafiado para a escrita de letras de canções. Que memórias guardas dessa actividade? Que influências? E, já agora, que pensas da atribuição há anos do Nobel a Dylan?

Como sabes, o Carlos Tê foi o grande responsável pelo rock cantado em português. Até aí, havia tentativas tímidas e algo descoloridas, porque pouco urbanas, de um movimento idêntico ao que se tinha passado na Itália com os Area, por exemplo. Com o “Ar de Rock” e com o “Chico Fininho”, tudo mudou para surpresa do próprio Carlos, que havia escrito e composto o “Chico Fininho” para demonstrar o ridículo que era cantar em português temas urbanos em ritmo rock. O que aconteceu foi exactamente o contrário e de repente eram as editoras a exigirem letras em português. E foi aí que ele me apresentou aos Jafumega, para eu escrever letras para eles. Eu nunca tinha escrito uma linha a pensar em canções e descobri que fazer letras é difícil como o diabo. Uma letra tem uma difusão para um público vastíssimo, e tem de estar em sintonia com  a música. Mas tendo algum ouvido para a música e algum jeito para a escrita vai-se lá. E foi o que me aconteceu. Sobretudo com três temas, “Ribeira”, “Nó cego” e “Romaria”, para não falar de uma letra que escrevi para a Gabriela Schaaf, “Cinza e mel”, entre outras. Foi uma experiência curta, pois só colaborei num Single e em dois LPs. Depois foi uma colaboração esparsa com outras bandas, e a Gabriela Schaaf, como já disse, e o André Sarbib. 

É evidente que sofri a influência de muitos autores do meu tempo, sobretudo Dylan, Ray Davies, Phil Ochs, Keith Reid (o letrista dos Procol Harum), Paul Simon, Brassens, Fernando Brandt, Ferré, Godinho, Zeca, Zé Mário, Cohen, Fausto, Vitorino, Joni Mitchell, Jim Morrison... Mas as minhas maiores influências foram o Carlos Tê e o João Monge. 

Quanto ao prémio do Dylan absolutamente de acordo. Há poetas magníficos na música, desde o Dylan, passando pelo Cohen, pelo Nick Drake, pela Suzanne Vega ou pela Janis Jan. Aliás tanto a poesia grega, como o teatro eram cantados. A poesia provençal e sobretudo a galaico-portuguesa era cantada pelos jograis e segréis, que interpretavam os trovadores de então. Mesmo na grande tradição erudita, a música sempre procurou servir as palavras – vejam-se os madrigais de Monteverdi, ou as baladas de William Bird ou John Dowland. No romantismo os lieder de Schubert e Schumann são um dos pontos altos destes compositores, já para não falarmos nas Paixões do Bach, nas óperas do Haendel, do Purcell ou do Vivaldi. Ou nos grandes dramas de Wagner. Outro autor que mereceria o Nobel, em meu entender, seria o Chico Buarque.

 

AID – Falei do Bob Dylan, também porque sei como as referências musicais e músico-literárias são relevantes tanto na tua vida como na tua escrita. Verdade?

JSM – A minha poesia encontra-se muito ligada à música, sobretudo no seu início, anos setenta. Agora, embora reconheça a sua influência no meu percurso, gosto de escrever em silêncio e cada vez mais cultivo o silêncio, num mundo em que o silêncio é visto como uma maldição. A música como ruído atravessa a nossa vida, desde que nos levantamos até quando nos deitamos. Música ao telefone, música nos call centers, música nos elevadores, nas salas de espera dos consultórios médicos, nos supermercados, nos hiper, nos corredores das universidades, no WC... Parece que o homem tem medo de enfrentar-se diante do silêncio do Universo e da sua condição essencial de solidão.

 

AID – Para terminar com música: para onde te levam hoje as tuas escutas?

  

JSM – Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Wagner, Mahler, Alban Berg, Luciano Berio, György Ligeti, Varese, alguns músicos de jazz, Jarrett, Evans, Miles, Coltrane, Chet Baker. Alguns pop como os Beatles, os Beach Boys, os Birds, os Doors, os Velvet, os Joy Division e alguns cantautores, como o Nick Drake, o David McWilliams, a Laurie Anderson, a Virginia Astley, e os grandes Frank Zappa, Bob Dylan, Cohen, ou Crosby, Stills, Nash & Young, sem esquecer o Little Richard e o Jimmi Hendrix. Não posso esquecer os franceses como Brassens, Ferré, Brel (na verdade belga), ou os italianos como Eugenio Finardi, Vinicio Capossela, os cantores da Ibéria como o Joan Manuel Serrat, o Paco Ibañez, os brasileiros, Milton, Chico Buarque, Caetano, João Gilberto ou Jobim. E os sul-americanos como a Violeta Parra, a Mercedes Sosa, ou o Atahualpa Yupanki. Ou o Pablo Milanés. Finalmente os portugueses: Sérgio, Zé Mário, Zeca e Fausto, sem esquecer a Amália e, mais recentemente, a Cristina Branco.



Entrevista conduzida por José António Gomes

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

«Nada é mais vivo / do que um poema» – lendo ‘Vasos Comunicantes: Diálogo Poético’, de António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa

nada é mais vivo 

do que um poema 

rápido como um pássaro                                                            

que salta sobre o teu joelho 

e o debica e foge sem deixar sinal 

 

António Ramos Rosa

Vasos Comunicantes: Diálogo Poético (p. 50)


Quem conheça a trajectória de António Ramos Rosa (1924-2013) regista certamente as vezes – várias foram – em que o poeta de Viagem através de Uma Nebulosa se dispôs a um diálogo poético com outras vozes, a que o ligavam, além dos vínculos propriamente literários, os afectivos. Em 1986, chegou a publicar um livro inteiro de composições dedicadas a um companheiro de geração, em que interagia com a sua poética: Vinte Poemas para Albano Martins. E assinou, em co-autoria, livros com Casimiro de Brito, com Maria Teresa Dias Furtado, com Isabel Aguiar Barcelos e com Robert Bréchon; aconteceu também com sua mulher, Agripina Costa Marques, tendo ambos colaborado, num livro, com António Magalhães e, noutro, com Carlos Poças Falcão. Uma prática talvez estimulada quer pela personalidade aberta do poeta, dialogante, generosa, genuinamente interessada em «escutar» e/ou activar a poesia de outros – os citados e os que leu nos seus ensaios de Poesia Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real I e II (1979 e 1980) e Incisões Oblíquas (1987) – quer pelo fascínio que terá experimentado por certas práticas de criação em parceria, que aliás já vêm dos antigos gregos – nomeadamente a poesia alternada: o canto amebeu (do grego amoibaíos, «alternativo», pelo latim amoebaeu-). Assinale-se ainda, de passagem, a escrita a várias mãos de alguns poetas de movimentos de vanguarda do século XX, em especial dos surrealistas – e recordo aqui que o grande tradutor que Ramos Rosa também foi verteu para português, por exemplo, a poesia de Paul Éluard, em Algumas das Palavras (1969), a par do conhecido ensaio-antologia de Franco Fortini intitulado O Movimento Surrealista (1965). Talvez valha a pena sugerir uma explicação mais para a receptividade à colaboração com outras vozes: a hipótese de o criador desse inesquecível verso que é «Estou vivo e escrevo sol», em certos momentos, sentir a sua própria criatividade estimulada, desafiada pela palavra poética de outros.
 
Em Vasos Comunicantes: Diálogo Poético – inicialmente saído em 2006 e trazido de novo a lume em 2017 pela Poética Edições, de Braga, numa edição bilingue –, António Ramos Rosa abriu-se uma vez mais a uma criação a dois (poesia alternada), desta feita com sua sobrinha, Gisela Gracias Ramos Rosa, estabelecendo com ela um fecundo diálogo, traduzido, na íntegra, para castelhano por Santiago Aguaded Landero e Adrián G. da Costa. De assinalar, ainda, que a edição, além de um prefácio de Maria Teresa Dias Furtado e do fac-símile de um dos manuscritos, inclui desenhos de António Ramos Rosa. Nesses desenhos, surgem motivos que de algum modo celebram a comunhão humana e afectiva e o diálogo poético (observe-se o par de rostos), essa espécie de íntima conversa a dois feita de palavras, mas também dos sentimentos, gestos e olhares que perpassam os textos. Leia-se, no poema «Pela janela de Gisela» (p. 214), um exemplo disso, que a utilização frequente da segunda pessoa do singular, nesta e noutras composições, inscreve num registo conversacional marcado pelo afecto: 

 

Contigo a meu lado eu estou contigo 

tu és uma fonte de cintilante frescura 

 

A tua amizade é uma estrela subtil 

a tua atenção é a lâmpada de uma flecha estridente 

o teu sorriso estala como uma estilha colorida 

que reacende a minha inocência adolescente 

 

Contigo a meu lado o tempo tem outro espaço 

e o aroma de uma fábula de outra vida 

de uma cor leve de laranja  

 

Para a voz que se exprime nos textos de António Ramos Rosa (não indiferente à rima a que o nome da sobrinha quase convida), Gisela é uma «janela» aberta para o mundo, que permite a entrada desse mundo no espaço existencial e poético daquela voz e motiva a tessitura de um mundo novo. Mas Gisela é também «uma rapariga com os seus gestos de elegância leve / de estatueta viva / que irradia com os seus olhos claros / perfeitos e inacabados / poderia ser a princesa de um ribeiro / A sua voz é límpida e sorri / através dos seus lábios silenciosos» (p. 34). Em passagem de outro texto do poeta algarvio, é evocada, na sua concretude, a situação da construção do livro a dois:
 

Tu e eu e eu sei que és tu só poderias ser tu 

em que reconheço a ternura vigilante da tua companhia habitual 

tu que vens de longe da tua casa para passares ao computador os meus poemas 

e ris comigo rindo e conversando 

com os sorrisos e as exclamações da tua ternura encantada,  

e pela percepção subtil da minha poesia e a música do teu aparelho portátil 

aligeiras graciosamente as tardes do meu fim de semana 

e levas contigo a memória de um encontro fraterno 

que não podes esquecer e por isso te lembras daquele que sem ti seria mais só  
       [infinitamente perdido 

na sua árida solidão

 

Já numa composição de Gisela Ramos Rosa (p. 48), coroada por uma epígrafe de Octavio Paz, intui-se o modo de gestação e evolução de uma escrita tecida à sombra luminosa (passe o oxímoro) de um grande poeta: 


As palavras movem-se como grãos  

na areia de um tempo não decifrado 

algumas são pedras polidas  

num rio de signos 

outras são o barro maleável 

pelo plasma da terra 

ou voam ainda “por caminhos de pássaros” 

numa lenta lenda que une o vento e o sol  

o mar e a terra

 

Gisela lê poetas e outros magos da palavra (Mallarmé, Michaux, Octavio Paz, Edmond Jabès, Clarice Lispector, Salah Stétié, Daniel Faria, os Upanixades hindus, o próprio tio) e deixa-se impregnar dos seus versos – como no texto citado –, cita-os em epígrafe, glosa-os, como modo também de estimular e pontuar a vivência poética experimentada a dois. E responde ao desafio que lhe é colocado, desvelando um pouco da sua intimidade e atribuindo quer à escrita quer à presença inspirada e inspiradora do poeta com que lida, dia após dia, um mágico poder curativo:

 

A mulher que escutas na janela do tempo

lavra a dor com um vibrante sorriso interior 

cantando a melodia do não dito 

com a língua dos silêncios encontrada 

a chama desse corpo aceitou o infinito azul  

e renasceu com a magia de um templo antigo 

quebrando os muros com a subtil harmonia dos anjos 

e se nos seus dedos vislumbras o azul e em seus olhos uma ferida viva 

dir-te-ei que o sorriso transmutou a dor ao encontrar-te 

na unidade originária dos poemas 

na bondade nua que nutres com as mãos 

 

e a janela solitária entreaberta revelando o ar 

é agora uma porta aberta para o mar 

descobrindo a magia do tempo horizontal (p. 32)

 

Vasos Comunicantes é, além do mais, a representação de uns laços que se vão tecendo no tempo – e que passam por um processo de sedução recíproca (a título de exemplo, releia-se o fragmento citado em epígrafe a este texto, bem como a bela imagem de Gisela que se descobre a páginas 190, numa escrita que algo de lúdico tem também). Progride-se na relação humana, as alusões ao corpo são mais frequentes e o vocativo Gisela vai-se tornando recorrente. A relação afectiva, e não apenas poética, converte-se em mais um fio brilhante que se irá insinuando, com naturalidade, na tessitura da escrita. 
 
Em certos momentos, é possível ler também uma espécie de afectuosa educação poética de Gisela, bem como a iluminada reacção que ela provoca. Aqui e acolá esboça-se como que um guia para conhecer o real – e a própria escrita – que leva a voz dos poemas de António Ramos Rosa a declarar o que se segue, numa das mais importantes composições do livro (algo como um texto-lição), precisamente o intitulado «Gisela» (pp. 76-77): «a vida que nós vivemos é que é o obstáculo permanente / ao milagre de um instante do real absoluto / mas o que é a realidade nós não o sabemos» (p. 77).
 
Caracterizando-se pela sua forte natureza metapoética, em Vasos Comunicantes, dir-se-ia que a escrita é como que busca ou construção permanente de um real em que o «milagre» seja possível, um real, por um lado, ancorado ao mundo e à sua linguagem, mas à beira, em simultâneo, de a qualquer momento se liberar do peso insuportável desse mesmo mundo por via de uma linguagem fundadora. Foi sempre assim, aliás, que li parte significativa da poesia de António Ramos Rosa; e é evidente que a de Gisela Gracias Ramos Rosa não poderia escapar a esse íman, por de mais tentador, do sortílego discurso do autor de O Grito Claro. Discurso onde o leitor reencontra quer o tónus metafórico quer certos termos nucleares a que, ao longo dos anos, os seus livros nos foram habituando, palavras detentoras de toda uma densidade semântica e simbólica, musicalmente insinuantes, como horizonteespaçocavalolâmpadasangue, frescura e muitas outras, das quais se nutre essa «escrita-construtora-de-mundo(s)» que, digo eu, é a de António Ramos Rosa.
 
Talvez uma composição sintetize a poética deste livro (e eu ousaria quase dizer: da própria obra do autor de Ciclo do Cavalo), uma poética à qual a poeta que é Gisela Gracias Ramos Rosa não logra ela própria, e ainda bem, furtar-se:
 

Gisela o poema é uma estranheza 

uma diferença extrema e indiferente 

entre um grito e uma sombra 

o esplendor de um fruto de um rio branco 

em cada palavra o timbre de uma pedra 

o indivisível timbre de uma pedra 

e a chama de um vento de uma sede irreparável (p. 72) 

 

A escrita poética como desejo-em-acção, conhecimento e invenção de mundos, logo como expressão de uma energia vital (sangue é, neste livro, uma das palavras fortes), na óptica das composições de António Ramos Rosa; por outro lado, a escrita como espaço de descoberta de si («quem sou eu? / Sou talvez o centro de um jardim perdido / descubro agora o mundo / no voo de uma interrogação sem fim», p. 28), descoberta do outro, do próprio mistério da criação poética, em processo dialógico com outras poéticas, isto nos textos assinados por Gisela Ramos Rosa – são alguns dos veios temáticos que atravessam Vasos Comunicantes. Mas sem dúvida que, em ambas as vozes aqui escutadas, é possível reconhecer uma visão da escrita como espaço de liberdade, de construção, de poiesis – que, parece-me, foi sempre um tópico caro ao poeta de Clareiras. Mas, noutro plano, é evidente também, no livro, a atracção da voz mais velha pelo frescor e pelo halo de uma voz mais jovem, situação que proporciona, na obra, um tocante contraste de registos. A páginas 80 do seu livro As Palavras mais Simples (Poética, 2014), Gisela Gracias Ramos Rosa escreve: «Escrever é uma âncora / para o corpo que flui, raiz do universo.». A frase talvez traduza o essencial do que a poeta nos oferece neste que foi, de algum modo, o seu livro de estreia (iniciado em 2004, Vasos Comunicantes foi publicado pela primeira vez em 2006), e no qual se lê, quase no final, este breve poema, quase um haiku:

 

Com as palavras acaricio o sol 

e os gestos nascem  

como os da corola de um girassol (p. 216)

 

É de acrescentar que muitos casos existem em que um poema responde ao que o anterior exprimira e isso faz com que se reconheça, neste livro, uma dimensão conversacional / comunicacional mais acentuada (e até, talvez, mais intimista) do que noutras obras assinadas em co-autoria por António Ramos Rosa e por outros poetas – o que confirma o acerto da escolha do título e do subtítulo: Vasos Comunicantes: Diálogo Poético.
 
No seu prefácio, Maria Teresa Dias Furtado sublinha bem tanto o principal eixo temático do livro como a sua natureza dialógica, bem como a relação da obra com a poética de António Ramos Rosa: «Todo o livro trata, poeticamente, de “o poema que estamos a conjugar” (A.R.R.). No primeiro poema intervêm tanto António (1.ª e 3.ª estrofes) como Gisela (2.ª estrofe) – é o único a quatro mãos, que abre o diálogo no seu próprio seio. À questão: “Qual é a chama de todas as fontes? (...)”, responde a 2.ª estrofe: “Chamo sol a essa chama (...)”, que é acolhida com novas questões na 3.ª. De novo e sempre a “Interrogação do Real”, esse sulco profundo que o poeta tem aberto através da sua obra.» (p. 8)
 
O autor de O Incêndio dos Aspectos partiu em 2013, não sem antes nos ter legado mais alguns volumes de poesia e muitos desenhos, alguns dos quais exibidos em exposições organizadas por Gisela Gracias Ramos Rosa. Mas, em 2006, ano da publicação do livro que aqui me ocupa, e por ocasião de uma homenagem em Lisboa, era possível ler num texto noticioso 1, não assinado, saído no jornal Público: «Ramos Rosa ouviu-os em silêncio. E depois, para uma plateia a abarrotar, começou por uma pergunta: “Como é que um velho pode nascer?” Um artifício para perguntar: “Como é que eu com esta idade posso nascer?” || Pela poesia, responde, no dia seguinte, numa curta conversa por telefone. || Pode estar frágil fisicamente mas mantém vigor para se insurgir contra a “ditadura da banalidade”. Porque foi a banalidade que levou algumas pessoas a queixarem-se de que a poesia moderna “é incompreensível”, contestou na terça-feira, quando recebeu também a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura (no início do mês recebeu o Prémio de Poesia do PEN Clube Português).»
 
Diria que, também durante a escrita de Vasos Comunicantes, produzido já na fase final da sua vida, é bem provável que António Ramos Rosa tenha pensado: «Como é que eu com esta idade posso nascer? Pela poesia». Naturalmente, contra a «ditadura da banalidade». E é bem verdade que, neste livro, terá nascido mais uma vez. Graças, também, à presença, à amizade e à palavra poética da sua sobrinha Gisela Gracias Ramos Rosa.
 

Nota

 

1 «António Ramos Rosa “Como é que um velho pode nascer?”», Público, 22/10/2006. Disponível em https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/antonio-ramos-rosa-como-e-que-um-velho-pode-nascer-103418 (acedido em 13-4-2017).

 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Talvez, neste Natal

 

TALVEZ, NESTE NATAL 



Talvez este Natal nos anoiteça,

por momentos nos mergulhe

em águas fundas

e nos faça descrer do mundo que ideámos.


Mas talvez uma semente luminosa, 

chegada essa hora cor de terra, 

consiga germinar

no ileso fulgor duma lembrança.


Talvez ela dê fruto num sorriso, 

num gesto quase irmão,

num olhar de súbito sem sombra;


ou talvez se transforme em velho estábulo, 

em árvore luzente ou numa estrela

para guiar amanhã os nossos passos.



2020


Texto por João Pedro Mésseder 



A equipa da Inocência Descompensada deseja a todos os nossos leitores um Feliz e Santo Natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Musa Irregular, de Fernando Assis Pacheco: um belo presente de Natal


Um grande livro de poesia, unanimemente saudado, em vários momentos, é A Musa Irregular: edição aumentada (Tinta da China, 2019), de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), com um excelente posfácio, arguto e iluminador, de Manuel Gusmão, e edição, rigorosa, da responsabilidade de Abel Barros Baptista. Inclui, como o subtítulo indica, textos que antes não figuravam em livro.


Além de notável jornalista, crítico e tradutor, Fernando Assis Pacheco foi poeta de excepção (ainda que o tenha sido em «tom menor», como assinala Gusmão) e novelista bem singular, quer em Walt (1978) quer na obra-prima Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993). Da geração de Manuel Alegre, Rui Namorado, António Manuel Lopes Dias, José Carlos de Vasconcelos, José Manuel Mendes (que no espaço coimbrão tiveram uma das suas matrizes literárias), foi talvez a voz poética que de modo mais intenso e dramático abordou a Guerra Colonial, e o consequente medo da morte, mas ao mesmo tempo foi lírico de inegável finura e rigor de expressão, além de voz satírica, de sentido de humor indeclinável (mesmo quando tocado pela amargura) e de peculiar criatividade linguístico-discursiva. 

Não é possível esquecer tal voz nem os seus poemas sobre a prisão política. Assis Pacheco foi um poeta que, além do mais, não quis dissociar escrita e vida (no fundo o tema maior da sua poesia) e que não se tomava demasiado a sério, sendo capaz de inteligentemente rir de si mesmo. Como nos rimos nós também – ou pelo menos sorrimos, quando não choramos – ao ler esta poesia que não faz lembrar nenhuma outra, e que proporciona um prazer de leitura que é tudo menos comum. 

 

José António Gomes

 

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Companhia (I)limitada, de João Pedro Mésseder

Companhia (I)limitada é uma recolha de mais de duas dezenas de poemas, editada numa nova colecção da Página a Página, cujo nome é todo um programa: "Des-confina-mente". Marcados pela variedade formal, entre o longo e o muito breve, os poemas de Mésseder aludem criticamente a realidades sociais diversas, muitas delas dolorosas e politicamente perigosas, que a pandemia do COVID-19 agravou, nos planos nacional e internacional. Contra a epidemia do medo e a retórica do isolamento, contra as tentativas de silenciar o protesto e a reivindicação, estes versos deixam no ar uma nota de esperança, que se pode ler nos poemas "Prece" ou "Quando isto um dia passar". Poesia, em suma, para manter a mente desconfinada, como o nome da colecção sugere.

 

Revista Diagonal, 3.ª série, n.º 5, Novembro de 2020, secção Sugestões de Leitura. 

 

 

(…) Poemas da pandemia, a companhia que se torna ilimitada, pela resistência poética que nasce do saber, que, mesmo  num mundo rarefeito, por pouco mais que tenhamos, temos ao menos as palavras: e que podemos fazer delas sempre outras. Há sempre a hipótese de aduzir uma errata ao mundo, como no poema final. Um livro em que se transformam os tempos da pandemia verdadeiramente em resistência poética. (…)

 

Rita Taborda Duarte, 2020


O livro Companhia (I)limitada pode ser adquirido aqui.




terça-feira, 20 de outubro de 2020

Nos 100 anos de Castrim, um “novo” livro: Novelas

                                                Mário Castrim, Ria de Aveiro, 1968

Comemora-se, este ano, o centenário do nascimento de Manuel Nunes da Fonseca (Ílhavo, 31 de Julho de 1920 – Lisboa, 15 de Outubro de 2002), que usou o pseudónimo Mário Castrim, tendo sido escritor, jornalista, conhecido crítico de televisão (antes e depois do 25 de Abril de 1974), professor, e tendo alcançado merecido reconhecimento enquanto original autor de livros para a infância e a juventude. Várias efemérides, aliás, têm assinalado a comemoração dos seus 100 anos – mas, vá-se lá saber porquê, não se espere encontrar matéria publicada, ou áudio, nos media dominantes, mesmo nos media culturais. Esses mesmo media que têm aliás ignorado outros centenários importantes, como os de Mário Sacramento ou de Sidónio Muralha, igualmente assinalados este ano. 

Além de estimável, por vezes surpreendente (e militante) poeta (por exemplo em Do Livro dos Salmos (2007) ou em Mais Poemas do Avante! (2020), recolha recentemente publicada pelas Edições Avante!),  Mário Castrim foi um prosador/contador de muito mérito. Evidenciam-no as suas narrativas para jovens O Cavalo do Lenço Amarelo É Perigoso (1971), emblemática parábola sobre o direito à vida e à liberdade, O Caso da Rua Jau (1994), em torno da escola anterior ao 25 de Abril e da escola já em democracia, ou ainda Váril, o Herói (1994), misto de romance de aventuras e de conto maravilhoso tradicional de matriz mitológica que, declinando a condição todo-poderosa dos deuses, afirma a vontade humana de viver uma existência plena. E estes são apenas alguns exemplos dos seus livros em prosa.

 

Ora é, justamente, em torno do «ofício de viver» (vou buscar o título de Pavese) e de sobreviver, das voltas do amor e do desamor, dos conflitos relacionais, dos muitos e diversos quotidianos lisboetas, é em torno disso e de muito mais que se movem as prosas de Novelas (Página a Página, 2020) – recolha de textos curtos, não raro bem-humorados, como era timbre de Castrim, saídos, no final da década de 90, no jornal 24 Horas. 

 

O título é um pouco ludibriador, pois aqui o sentido de novela não remete propriamente para aquele género narrativo tradicional de todos conhecido, mais longo que o conto, menos extenso que o romance, mas sim para um certo sentido comum e popular do termo, quando, a propósito dum enredo, dum novelo amoroso ou doutro tipo, que se estende no tempo e evoca episódios telenovelescos, dizemos algo como: «Ui, foi cá uma novela!». 

 

Trata-se portanto de 145 narrativas breves mas não superficiais, de leitura prazerosa e fácil, situadas entre o conto e a crónica jornalística inspirada no real quotidiano, conjunto a que não falta sequer um episódio da clandestinidade comunista de meados da década de 60 e outras alusões à condição militante do autor. 

 

É isto o que Novelas essencialmente nos propõe. Em boa hora, pois, se resgatou este conjunto de textos à efemeridade do jornal e se lhe conferiu a dignidade, merecida, do volume impresso. A maneira ideal de comemorar o centenário de um antifascista e democrata, de alguém que sempre se preocupou ao longo da vida em estimular o pensamento crítico, e de um poeta e prosador de méritos reconhecidos. 

 

 

José António Gomes

 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Louise Glück (n. New York, EUA, 1943) – Dois poemas da Prémio Nobel da Literatura 2020

 






 

 

 

Confissão

Dizer que nada temo

seria faltar à verdade.

A doença, a humilhação

assustam-me.

Tenho sonhos, como qualquer pessoa.

Mas aprendi a ocultá-los

para me proteger

da plenitude: a felicidade

atrai as Fúrias.

São irmãs, selvagens,

que não têm sentimentos,

apenas inveja.

 

 

Primeira recordação

 

Há muito tempo fui ferida. Vivi

para me vingar

do meu pai, não

por aquilo que ele era

mas pelo que fui eu: desde o começo dos tempos,

na infância, acreditei

que a dor significava

que eu não era amada.

Significava que eu amava.

 

 

 

Versão portuguesa: José António Gomes