domingo, 30 de agosto de 2009

Fronteiras, de Manuel Tiago: o simbolismo do cruzar das raias

Iniciada em 1974 com a publicação de Até amanhã, camaradas, a obra de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal, inclui, além deste romance inaugural, escrito alguns anos antes, durante a prisão do autor, mais três romances, a novela Cinco dias, cinco noites, cuja primeira edição data de 1975, e quatro edições de contos, a mais recente de 2003, altura em que sai a público Lutas e vidas. Um conto.

A questão do pragmatismo da obra literária de Cunhal não pode ser contornada, uma vez que, mais do que recriar o mundo, revisita o universo que tão bem conheceu e cada uma das suas personagens, associadas à resistência, representa as facetas múltiplas do militante comunista. Para alguns críticos, como é o caso de Eduardo Cintra Torres, o protagonista dos seus romances mais emblemáticos é sempre o PCP, centro de toda a acção e alvo dos maiores elogios, o que resulta, no caso de Até amanhã, camaradas!, num «romance de tese, didáctico e escrito num estilo realista apagado» (Torres, 2005).

Contudo, parece-nos que a obra, mesmo que ideologicamente marcada, mantém, como elemento estrutural mais relevante, a articulação de uma dimensão épica, claramente conotada com a exaltação da actividade da resistência comunista, com outra fortemente trágica, ligada à tradição, ao fascismo, à reacção e ao fatum que persegue a identidade portuguesa. Da leitura das obras, sobressai, com particular intensidade, a dimensão humana e individual da resistência que se esconde por trás do aparelho ou da máquina partidária. Através da atribuição de um nome, uma identidade e uma personalidade aos homens e mulheres anónimos, figuras da resistência e da clandestinidade, prefigura-se uma espécie de registo paralelo às crónicas oficiais e à historiografia, uma vez que as personagens são tomadas como exemplos de sacrifício e de altruísmo em prol de um ideal. Assim, os vários volumes sublinham com particular intensidade a (sobre)vivência do PCP na clandestinidade durante os anos difíceis da ditadura fascista, traçando, em paralelo, a história do país e a do partido, desde as lutas dos anos 30, com a participação na Guerra Civil Espanhola, à contemporaneidade, passando pelas reestruturações e desenvolvimentos ocorridos na década de 40 (designadamente a famosa «reorganização» da qual Álvaro Cunhal foi um dos protagonistas).

Neste sentido, é possível ler os textos assinados por Manuel Tiago à luz das tendências do romance histórico contemporâneo, na esteira das inovações introduzidas pela narração de acontecimentos históricos a partir de perspectivas originais, muitas vezes opostas às oficiais e ao discurso historiográfico por excelência. Assim, a conotação com uma certa marginalidade ou oposição em relação ao poder, contrária à versão oficial, parece funcionar como uma tentativa de redenção de uma história esquecida que, graças à ficção, é iluminada.

A mais homogénea das colectâneas de contos de Manuel Tiago é Fronteiras (1998), obra caracterizada pela persistência do tratamento do tema da transposição das raias. Os contos descrevem múltiplas viagens realizadas em diferentes sentidos (ida e regresso; Portugal / Espanha; França / Espanha; Países de Leste) e com objectivos também distintos.

No caso dos textos aqui reunidos, é necessário perceber como o simbolismo da ideia de fronteira se repercute na mensagem dos textos, surgindo associado à ideia de isolamento, fechamento e, claro, de Ditadura. As fronteiras representadas são fechadas à passagem das personagens que, desta forma, são obrigadas a contorná-las, procurando formas alternativas de as transpor. A viagem, por seu turno, associada à sua superação de obstáculos, é sinal de resistência, de busca de liberdade e da abertura perdidas e que se procura, a todo o custo e com sacrifício da própria vida, resgatar.

Em casos muito concretos, trata-se de viagens de fuga à perseguição fascista, a caminho do exílio. Outras são viagens claramente iniciáticas, de formação de militantes comunistas nos países de leste (ou do seu regresso a Portugal). Protagonizadas quer por personagens masculinas quer, em casos muito pontuais, por personagens femininas – veja-se como no conto «Mulheres pelo Soajo» elas são física e psicologicamente colocadas à prova e, apesar das enormes dificuldades, das quais saem vencedoras, são ainda capazes de sorrir e fazer humor. A dimensão humorística percorre vários textos e surge associada a situações imprevistas. Deste modo, o cariz anedótico que ressuma de um ou outro texto – veja-se o comentário da mulher que, depois de atravessar o Soajo a pé, lamenta o abandono do chapéu brasileiro, ou a troca da mala das peles e da roupa íntima pela dos materiais destinados à guerrilha – sublinha a humanidade que os caracteriza, narrativas de e sobre gente comum, muitas vezes imperfeita. A presença do acaso, do inesperado ou do acidental acentua essa dimensão pessoal, subjectiva e irrepetível que caracteriza os acontecimentos aqui descritos.

Parcialmente devedores da atmosfera da novela Cinco dias, cinco noites, alguns textos retomam, de forma sintética, a temática do «salto» a pé da fronteira realizado em condições muito difíceis. É o que acontece em «O passo dos Pirinéus», onde a resistência e a perseverança dos dois companheiros (assim como o companheirismo que os une) são postos à prova.

De comboio, a pé ou de barco, são várias as formas escolhidas para passar as fronteiras. Em comum, os cruzadores têm, para além do apoio do Partido e dos seus contactos e ligações, outros homens e mulheres que colaboram na fuga. Essa solidariedade aproxima os viajantes, mesmo quando as viagens são realizadas em total silêncio: «Notável compreensão e disciplina. Nem falavam nem fumavam, que um clarão, mesmo do morrão de um cigarro, brilha na noite escura como uma estrela e as palavras, mesmo ditas em voz baixa, atravessam as distâncias no silêncio da atmosfera parada. Não lhes via o rosto, mas sabia e sentia que aqueles homens eram trabalhadores, seus companheiros, talvez alguns seus camaradas. E, sonhador, se alguma coisa pesava no sentir da nova experiência que estava vivendo, era não poder conhecê-los, falar-lhes, viver com eles momentos de trabalho e luta das suas vidas.» (Tiago, 1998: 16). Nos contos, mesmo nos mais breves, cruzam-se muitas histórias e outros tantos mistérios. Há segredos que nunca são revelados como se uma espécie de código de silêncio permitisse a comunicação.

Os textos dão conta de momentos de fugazes encontros e separações. O contacto com outros países, os seus habitantes, outras línguas e culturas, permite constatar a existência de uma rede internacional organizada, capaz de colaborar no apoio aos movimentos dos comunistas pela Europa. Quando essa rede revela falhas é o momento de se porem à prova as competências individuais. Com maior ou menor esforço, cada um dos viajantes encontra forma de superar os obstáculos e prosseguir viagem e a luta em que está empenhado.

Assim, todas as narrativas compiladas em Fronteiras têm um final feliz. Funcionam, cada uma à sua maneira, como episódios exemplares do movimento de resistência comunista rumo à vitória sobre as ditaduras e a opressão. O seu agrupamento em livro sublinha a dimensão épica dos textos e a leitura destes homens e mulheres, anónimos na sua maioria, como heróis de uma resistência cuja história merece registo. Mais do que fugas, cada uma destas viagens simboliza um passo dado em relação à liberdade.

Referências bibliográficas

TIAGO, Manuel (1974). Até amanhã camaradas!. Lisboa: Edições Avante!.

TIAGO, Manuel (1975). Cinco dias, cinco noites. Lisboa: Edições Avante!.

TIAGO, Manuel (1998). Fronteiras. Lisboa: Edições Avante!.

TIAGO, Manuel (2003). Lutas e vidas. Um conto. Lisboa: Edições Avante!.

TORRES, Eduardo Cintra (2005). «Manual do Militante e Epopeia do PCP» In Público, [disponível em http://static.publico.clix.pt/tvzine/critica.asp?id=3102]

Ana Margarida Ramos

(Universidade de Aveiro; membro associado do NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No aniversário (ontem) do seu assassinato, ler Lorca em português

Federico García Lorca (1898-1936) nasceu em Fuentevaqueros, perto de Granada, e é considerado um dos maiores poetas europeus do século XX. A sua influência fez-se sentir em muitos poetas portugueses dos anos 30, 40 e 50, nomeadamente nos neo-realistas, em Eugénio de Andrade – que o traduziu admiravelmente –, mas também em Matilde Rosa Araújo, já nos anos 60.

Na muita e variada poesia de Lorca (Canciones, 1927, Romancero Gitano, 1928, Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935, Poeta en Nueva York (1929-30), 1940, etc.), cruzam-se veios diversos: o simbolismo e os ritmos e temas tradicionais (designadamente de raiz popular e andaluza) mas também uma linguagem em que já são visíveis traços das poéticas de vanguarda das primeiras décadas do século XX (entre as quais se conta, por exemplo, o surrealismo, rótulo que todavia Lorca sempre rejeitou). Em boa verdade, a sua voz poética era verdadeiramente singular. Personalidade de grande encanto, simpatia e talento, Lorca era também músico e cantor, encenador, actor e desenhador, além de grande dramaturgo (exemplos: Bodas de Sangue; Yerma; A Casa de Bernarda Alba), tendo escrito alguns poemas para crianças. Conheceu ou foi amigo de artistas como o realizador de cinema Luís Buñuel, o poeta chileno Pablo Neruda, o pintor Salvador Dali.

Refugiando-se em Granada para fugir ao ambiente de agitação que se vivia em Madrid, acaba por ser surpreendido pelo levantamento fascista do General Franco (início da Guerra Civil em Espanha). Os franquistas prendem-no na tarde de 16 de Agosto de 1936 e, na madrugada de 18 para 19, fuzilam-no num campo dos arredores de Granada. O seu corpo nunca foi encontrado. Esta trágica circunstância, aliada à memória da própria personalidade de Lorca, viria a contribuir para tornar este poeta uma figura mítica.

Muitos outros poetas o prantearam, em particular companheiros seus do chamado “Grupo de 27” (Alberti, Manoel Altolaguirre, Luís Cernuda, Vicente Aleixandre, etc.), alguns dos quais viriam, eles também, a ser encarcerados, a morrer precocemente ou então a exilar-se para fugir à perseguição franquista.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Para saber mais sobre o autor e ler poemas seus:

http://www.garcia-lorca.org/

http://www.terra.es/personal2/ortz74/Fgl/inicio.ht

ROMANCE DA LUA, LUA

A lua desceu à forja
com falsas ancas de nardos.
O rapaz a olha, olha.
O rapaz fica a olhá-la.
No espaço comovido
a lua move seus braços
e mostra, lúbrica e pura,
os seios de duro estanho.
Foge, lua, lua, lua.
Se viessem os ciganos,
de teu coração fariam
colares e anéis brancos.
Rapaz, deixa-me dançar.
Quando cheguem os ciganos
encontram-te na bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge, lua, lua, lua,
que já sinto os seus cavalos.
Rapaz, deixa-me, não pises
o meu alvor engomado.
O ginete aproximava-se
tocando o tambor do plaino.
Dentro da forja o rapaz
está com os olhos fechados.
Pelo olival desciam,
só bronze e sonho, os ciganos.
As cabeças levantadas
e os olhos semicerrados.
.
Como canta o noitibó,
ai, como canta na árvore!
A lua vai pelo céu
com um rapaz pela mão.
.
Lá dentro da forja choram,
dando gritos, os ciganos.
Entretanto, o ar a vela.
O ar a está velando.

FEDERICO GARCÍA LORCA, Antologia Poética, Lisboa, Relógio d’Água, pp. 51-53 (trad. de José Bento)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui antes de Mim, de Luísa Dacosta

Numa narrativa ficcional, mas de fundo parcialmente autobiográfico, O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui antes de Mim (Quimera, 2000), de Luísa Dacosta, propõe-nos o percurso paralelo de duas mulheres, Ana e Luísa, vítimas da passagem do tempo e das «armadilhas do amor». Uma distância de muitas décadas as separa: encerrada na provinciana Vila Real do princípio do século XX, no interior da muralha formada pelo Marão, Ana é a avó de Luísa, que esta contudo não chegou a conhecer – apesar de ter herdado alguns dos seus objectos e, sobretudo, uma certa memória, fragmentária, da vida dessa avó, narrativizada pela personagem de tia Mercedes. Mas, não obstante viver num tempo diferente e poder dar voz ao que pensa e sente, Luísa («a que escreve», segundo o texto) revê-se nessa figura precocemente desaparecida em 1917, como que num jogo especular que não só introduz o motivo do duplo (de ressonâncias trágicas, herdadas do Romantismo) como condiciona a própria estrutura, também ela especular, da narrativa. Uma ficção que revela dois destinos de mulheres fixadas em mitos de amor eterno bebidos na infância, mas agredidas afinal por sociedades hipócritas, moralmente decadentes e claustrofóbicas, em que a incomunicabilidade dilacera e o poderio dos homens ainda é regra. Canto de dor e solidão, expressão de inadaptação a um mundo em declínio (no caso de Luísa, que nos vai fornecendo flashes de uma vida decorrida entre finais dos anos 20 e os anos 90 do século XX), O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui antes de Mim é um pungente retrato do universo feminino e um exasperado gesto que aspira a manter viva a memória de tempos perdidos, através de um bordado de palavras perpassado pelo mito de Penélope.

Na literatura portuguesa de hoje, poucos escreverão com o nervo estilístico e com a poeticidade que tornaram singular a prosa de Luísa Dacosta (daí, também, falarmos em bordado). Uma prosa que se inscreve numa linhagem a que pertencem vozes tão nobres como as de Raul Brandão e Irene Lisboa, mas devedora também do magistério poético de Camilo Pessanha que, num dos episódios do livro, situado em Macau, é objecto de um sentido tributo.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 28 de junho de 2009

Insignificâncias significantes de Augusto Baptista

Recorrendo a uma imagem certeira, o excelente poeta e estimável crítico e divulgador de livros que foi Fernando Assis Pacheco referia-se algures à «enxúndia» da escrita, indício certo da frouxidão e mediocridade dos textos de muito autor, encartado ou não: as pragas do adjectivo redundante, do floreado, do ornamento inútil.

Vem esta consideração a propósito de Histórias de Coisa Nenhuma e Outras Pequenas Significâncias (Porto: Campo das Letras, 2000), que se encontra nos antípodas do que acaba de ser dito. Se quisermos aliás, e desde já, apontar algumas das suas virtudes (quase princípios de composição do conjunto de micro-narrativas que o livro nos propõe), poderemos falar em economia de meios narrativos e linguistico-expressivos, culto da elipse e do fragmento. Mas há mais. A por vezes desarmante simplicidade de alguns textos desconcerta. E o modo inventivo como se recorre aos efeitos de «estranhamento» e de surpresa – na última frase, ou até palavra (p. 60), de cada enunciado – abre um sorriso na alma, faz-nos pensar que o humor (ainda que amargo e até negro) não se encontra tão arredado assim da literatura nacional. Ou que, pelo menos, já regressou do exílio.

Basta ler o título desta obra do escritor, cartoonista e fotojornalista Augusto Baptista (e meditar um pouco no paradoxo que ele nos propõe) para adivinhar que, sob a máscara da insignificância (para a qual remete a expressão Histórias de Coisa Nenhuma), o que se pretende, isso sim, é fazer passar algumas pequenas (ou grandes?) significâncias. Como esta: «Deus a rir é o Diabo.» (p. 72). Ou esta outra, de sufocante actualidade:

«Sonhava escrever com a leveza do voo de um pássaro, assinar ofícios com o fulgor de uma estrela cadente, luz apenas.

Naquela tarde, gozo de menino a rabiscar paredes, resolveu adestrar a mão. Ritmos poéticos, a Parker corria leve no papel. Autónoma, precisa. Refulgências de ouro por baixo de “O Administrador Geral”. Ele absorto, perdido, cabeça longe.

Fez trezentas assinaturas assim. Trezentos ensaios perfeitos. Trezentos despedimentos de sonho.» (p. 95).

Por estas micro-histórias – quase apontamentos poéticos – de escrita salutarmente enxuta, passam a vida política, um flash ou outro dos pantanais autárquico e empresarial, o mundo citadino e o provinciano, e ainda o veraneante, o editor e o escriba, o pequeno-burguês, o empresário (estes eufemismos!), o proletário e o intelectual de café, as cenas da vida conjugal. Estamos, em suma, ante as inumeráveis situações de um quotidiano assediado (também) pelo que podemos chamar – recorrendo a um lugar comum – o absurdo da existência e reelaborado por um olhar de fotógrafo poeta e por um talento de contador de histórias. Vem a vida e diz «presente!», vem a morte e diz «presente!»; Deus e o Diabo espreitam; o amor e o ódio picam o ponto-nosso-de-cada-dia; faz-se ouvir, nas entrelinhas, o convite à insubmissão e à revolta contra as injustiças.

Procurar a genealogia destas histórias de desconcerto (por que não também de proveito e exemplo?) conduz-nos a territórios tão diversos como os do pequeno poema em prosa e do conto jocoso de raiz popular, do aforismo, do nonsense anglo-saxónico e do surreal-abjeccionismo. Mas à lembrança vêm-nos também as poesias de um Manoel de Barros e de um O’Neill, ou as breves narrativas (de grata memória) de um Mário Henrique Leiria ou de um Pedro Oom.

Já que «a morte é um facto horizontal» (p. 75) que nos surpreende ao virar de qualquer esquina, cultivemos a arte de viver. De olhos e ouvidos abertos. Histórias de Coisa Nenhuma dá-nos uma preciosa ajuda. Em troca, nem sequer pede ao leitor uma gargalhada. Mas este talvez não resista a soltá-la.

Uma pergunta: agora que começa, em Portugal, a falar-se de (e a publicar-se) microficção, e a construir a sua genealogia, como é que os apressados fazedores de antologias dos seus contemporâneos não repararam que, antes deles, existiam estes breves prodígios de Augusto Baptista?

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

António Variações (3/12/1944 – 13/6/1984) | 1984-2009: vigésimo quinto aniversário da morte

Não é raro os discursos da cultura de massas surgirem habitados por uma agudeza de observação e um sentido intuitivo surpreendentes, que de quando em vez encontram meios ideais de expressão, como acontece na canção pop e noutras modalidades da chamada «arte popular».

De aparência estilisticamente rudimentar, este modo sintético e muito eficaz de traduzir a «verdade» sociológica (ou até política) de um tempo impõe-se e fica a ecoar na memória.

Sob a forma de uma cantiga, por exemplo, e recorrendo a lugares comuns do linguajar urbano, a estribilhos que são autênticos achados, à anadiplose, à repetição, ao inevitável diminutivo e a jogos rimáticos elementares, restituem-se os essenciais contornos de um período histórico, uma dinâmica social, uma certa cultura, uma sensibilidade… Um arco que vai de Capri, c’est fini a Maria Albertina, passando por L’Amour en Fuite (de Alain Souchon) para nos atermos à esfera da canção dita popular.

 

Maria Albertina

Maria Albertina

Deixa que eu te diga

Esse teu nome eu sei que

Não é um espanto

Mas

É cá da terra e tem

Tem muito encanto

 

Maria Albertina

Como foste nessa

De chamar Vanessa

À tua menina?

 

Maria Albertina

Deixa que eu te diga

Esse teu nome eu sei que

Não é um espanto

Mas

É cá da terra e tem

Tem muito encanto

 

Maria Albertina

Como foste nessa

De chamar Vanessa

À tua menina?

Que é bem cheiinha

E muito moreninha

Que é bem cheiinha

E muito moreninha

António Variações | Humanos, As Canções que António Variações nunca Gravou, 2004

 

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

 

sábado, 30 de maio de 2009

«Escrever» por convite

Recentemente, tanto o Jornal de Letras (JL) como o Jornal de Notícias (JN) dedicaram artigos a certos autores portugueses de best sellers, oriundos sobretudo do mundo da televisão.

Jornalista do JN particularmente atento às questões literárias, Sérgio Almeida solicitou-me um depoimento sobre o assunto, do qual foram publicados excertos na edição de 24 de Maio, juntamente com testemunhos de autores e do crítico António Guerreiro. O resultado é um texto merecedor de releitura (v. Sérgio Almeida, «Escritores por convite», JN, 24-05-2009, disponível em  http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1242189). Sérgio referia-se a «figuras públicas que, a convite de editoras, publicam romances que, por norma, ocupam os primeiros lugares das tabelas».

As perguntas que se seguem são, pois, do jornalista e, com a devida vénia ao seu autor, reproduzo-as, pela pertinência e não só. Reproduzo também as minhas respostas, com alguns retoques.

P – Como avalia este fenómeno? É um sinal da superficialização crescente no mundo da edição?

R – Creio que sim, uma «superficialização» em parte ditada pela razão comercial – que, nos dias que correm, tende a sobrepor-se a tudo; em parte decorrente da concentração da edição (aquela que comercialmente conta) em três ou quatro grandes grupos editoriais; e, por outra parte, motivada pela mediatização crescente da sociedade (daí o recurso às «figuras públicas» que, em boa verdade, só o são para gente que se deixa submergir no universo mediático, sobretudo o televisivo, convencida de que o mundo a isso se reduz, em geral pessoas menos letradas ou até menos alfabetizadas). No fundo, nada que não se esperasse, tendo em conta a evolução recente do mundo da edição em Portugal e noutros países desenvolvidos. Aliás cadeias como a Bertrand e certas grandes superfícies é sobretudo para isso que estão disponíveis ou preparadas. Ou seja, para aqueles livros que os editores pagam para estarem expostos, ou para figurarem nos pseudo-tops ou então nas escolhas de Natal, do Dia da Mãe, de Férias, etc.

P – Acredita que este segmento não tem nada que ver com a literatura propriamente dita?

R – Sim, acredito. Basta olhar para a história da literatura. Sem atingir as proporções e certas características que o fenómeno hoje tem, houve no passado casos que podemos considerar semelhantes ou próximos. Estão completamente esquecidos e relegados para o cemitério dos livros e da subliteratura. Tal como os de hoje, nada acrescentaram à literatura propriamente dita.

Isto não significa que não seja necessário ter um talento específico para a escrita de best sellers, ainda que rapidamente perecíveis, talento esse que merece até elogio. E, se todos o possuíssem, muitos mais se dedicariam a escrever este tipo de livros, pois proporcionam boas rendas e isso é importante para muita gente. Mas, como se vê, já não estamos a falar de literatura, mas sim de dinheiro – que é o rumo lógico de tudo isto.

P – A visibilidade de que estes livros gozam é injusta tanto para autores estreantes como para os consagrados, que não dispõem dos mesmos mecanismos de promoção?

R – Creio que não, porque hoje não há nada mais fácil do que qualquer um publicar um livro (refiro-me aos estreantes) e até crianças vêem os seus «livros» editados. Quanto aos consagrados, talvez seja um pouco injusto, mas creio que a maioria despreza as estratégias de promoção de que são objecto os best sellers – pois maculam-lhes a imagem – e quando embarcam em algo parecido é porque tem de ser e com grande sacrifício pessoal. Podem é ver-se um tanto prejudicados na calendarização dos planos editoriais. Por outro lado, alguém tem de vender muito para que pelo menos as editoras mais sérias que também publicam esses best sellers disponham de dinheiro suficiente para editar os que menos vendem.

P – Apesar de tudo, não podemos ver nesta tendência uma maior democratização na área da edição?

R – Não vejo a coisa nesses termos. Só se for no sentido que antes referi: existirem figuras que, ao venderem muito, permitem às editoras sérias dispor de capital para editar os que escoam menos e são claramente melhores, ou que são, pelo menos, escritores a sério.

As figuras públicas, por seu lado, não necessitam de democratização nenhuma, porque em geral pertencem já a um grupo social relativamente favorecido. Não lutam para editar os livros; são as editoras que lhos encomendam.

P – Julga que este fenómeno é passageiro ou irá acentuar-se?

R – Creio que irá acentuar-se. Aliás, certos industriais e comerciantes da edição vivem apenas para isso e em função disso. Para eles, é um negócio como outro qualquer. É gente que não encara a edição como produção de cultura, mas apenas como criação de mais-valias.

P – Ao venderem tantos milhares de exemplares, os títulos destas figuras públicas não estarão a criar leitores?

R – Depende do conceito de leitura de que estamos a falar. É que há a leitura literária, de fruição, e as outras – a leitura de simples entretenimento e a utilitária, por exemplo (científica, informativa, com fins pragmáticos, etc.).

Do ponto de vista da formação de leitores literários, os best sellers de que estamos a falar (e que não são Saramagos nem Lobos Antunes) pouco ou nada contribuem para a formação de tais leitores e até a prejudicam.

Se falarmos de outros tipos de leitura, menos exigente, o best seller talvez dê algum contributo para formar leitores – mas, seguramente, leitores menores, pouco críticos e incapazes de enfrentar um texto exigente, ou seja, um texto capaz de opor alguma resistência (no sentido produtivo e positivo do termo) ao leitor e capaz de o interpelar, propondo-lhe desafios à inteligência, à sensibilidade e ao seu conhecimento da língua.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)  

domingo, 24 de maio de 2009

A pintura de Roberto Machado – as cores do desejo

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue. Com ela

incendiarei a noite.

 

Herberto Helder

 

É como se dissesse, com Aragon, «l’avenir de l’homme, c’est la femme». Perseguir o feminino, os seus símbolos. Ramalhetes e árvores, flores e frutos. O feminino e seu enigma. E também o horizonte, oculto para nós, desses olhares perdidos no longe, abraçando a hora por vir – num qualquer ponto atrás e à esquerda de quem vê.

Como em Modigliani, há instantes em que a alegria é possível. Ruy Belo: «Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude / no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes / onde a água corria pelos vagarosos caminhos desse tempo»… Há pois um lado solar nas figuras, nos cenários. Um lugar meridional onde vibram por vezes os vermelhos, amarelos e azuis. E onde o mar espreita ou se deixa adivinhar.

E há outro território, nocturno e lunar. A tábua, onde antes as tintas se (con)fundiram, converte-se em suporte. E a mão deixa-se conduzir pelas formas do acaso inscritas na madeira. Deslindando corpos, rostos, outras formas. Pintura sobre «pintura». Um quase palimpsesto.

Os corpos, sim. Aqui e além, em sua desamparada nudez. Corpos que olham, se olham, se perscrutam. Que esperam? O anjo de Chagall? Dir-se-ia que interrogam o tempo. Que buscam estes olhos-amêndoa de mulher? A alegria sonhada?

Uma voz podia perguntar: «De que cor é o desejo?» E uma outra podia responder: «Vermelho como um país recém-criado.»

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)